Gilmar propõe a Fachin que delegados da PF sejam impedidos de atuar no STF
Proposta levada a Fachin ganha força depois de Mendonça expor diálogos de Vorcaro com Moraes no caso Master
Gilmar Mendes/Crédito: Gustavo Moreno/STF O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu junto ao presidente da Corte, Edson Fachin, que delegados da Polícia Federal sejam impedidos de atuar nos gabinetes dos magistrados do tribunal. A proposta ocorre em meio à crise aberta entre o ministro André Mendonça e a direção-geral da PF, agravada após a divulgação de diálogos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes. As informações foram publicadas pela Folha de São Paulo.
Segundo a reportagem, Gilmar já vinha sustentando a necessidade de rever a presença de delegados nos gabinetes desde a escalada do atrito entre Mendonça e a cúpula da PF, mas o tema ganhou mais peso depois dos últimos desdobramentos do caso Master.
Atualmente, cinco delegados da Polícia Federal estão cedidos ao Supremo. Dois atuam com André Mendonça em processos relacionados ao Banco Master e ao INSS; um está no gabinete de Alexandre de Moraes; outro trabalha com Luiz Fux; e um quinto delegado exerce função na área de segurança do tribunal.
De acordo com a Folha, Gilmar afirmou a auxiliares que delegados da PF lotados junto a ministros do Supremo podem acabar interferindo na condução de investigações, seja para tentar ascender na própria corporação, seja para obter algum tipo de benefício político.
A discussão deve voltar à mesa nesta quinta-feira (3), em uma reunião entre Gilmar e Fachin. O presidente do STF tem mantido conversas individuais com ministros para tratar da crise, considerada sem precedentes dentro da Corte. Pela primeira vez, o tribunal terá de deliberar sobre a possibilidade de abertura de investigação contra um de seus próprios integrantes.
Nos bastidores, Fachin avalia que a situação exige máxima prudência para preservar a instituição. A preocupação aumentou depois que um ministro alertou o presidente do STF sobre a possibilidade de Mendonça estar sendo influenciado por delegados lotados em seu gabinete, que seriam críticos da postura do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Mendonça, por sua vez, sustenta a pessoas próximas que atua com cautela e independência. Segundo esse entorno, o objetivo do ministro é garantir a integridade das investigações, com respeito ao devido processo legal.
O ponto central da crise está na decisão de Mendonça, relator das operações Sem Desconto e Compliance Zero, de mandar a PF identificar um interlocutor de Daniel Vorcaro. Integrantes da ala que defende Moraes afirmam que o ministro atropelou os ritos ao determinar a apuração sem uma decisão prévia do plenário do STF, como prevê o regimento interno em casos envolvendo ministros da Corte.
Esse grupo compara os métodos adotados por Mendonça aos da Operação Lava Jato e prepara uma reação para apontar fragilidades na condução do caso. Entre os pontos que devem ser explorados estão a reunião de um juiz auxiliar de Mendonça com Vorcaro sem a presença da PF, a participação do ministro no quadro societário do Instituto Iter — do qual ele anunciou saída nesta quinta-feira — e suspeitas de vazamentos de informações sigilosas.
O entorno de Mendonça nega que tenha havido ato investigatório contra Moraes. A versão apresentada é a de que o ministro apenas determinou que a PF identificasse o interlocutor de Vorcaro.
Ao retirar o sigilo do material, Mendonça afirmou que o plenário do Supremo é o “caminho inevitável” para discutir o episódio. A declaração reforçou a dimensão institucional da crise, que agora envolve não apenas a relação entre ministros, mas também o papel de policiais federais cedidos ao tribunal.
A proposta de Gilmar também se conecta a uma movimentação anterior do governo federal. Em junho, a gestão Lula enviou ofícios a mais de 50 órgãos da administração pública solicitando a devolução de policiais federais cedidos a outras estruturas. Na ocasião, porém, o Supremo ficou fora da medida.
Com a nova crise, a presença de delegados nos gabinetes do STF passou a ser tratada como um tema sensível dentro da Corte. A avaliação de Gilmar é que a medida ajudaria a reduzir riscos de interferência externa ou corporativa em investigações sob responsabilidade de ministros do Supremo.



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