
Julho de 2025 trouxe um dado surpreendente para o cenário político e religioso brasileiro: a aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre os evangélicos teve um crescimento expressivo, desafiando narrativas consolidadas sobre a relação entre esse segmento religioso e o governo federal.
Segundo a pesquisa AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, divulgada nesta quinta-feira (31), a aprovação de Lula entre os evangélicos passou de 21,5% em junho para 30,4% em julho — um aumento de quase nove pontos percentuais em apenas um mês. O número dos que avaliam o governo como "ótimo" ou "bom" também acompanhou essa tendência, saltando de 19,8% para 29,8% no mesmo intervalo.
Virada silenciosa nas periferias
“A taxação dos super-ricos e o enfrentamento direto com os interesses do governo Trump são elementos que ressoam com um sentimento de justiça e orgulho nacional. Isso tem peso simbólico importante para setores populares, inclusive entre os evangélicos”, afirma o pastor.
A melhora nos indicadores sociais, como a ampliação do Programa Pé-de-Meia, o reajuste real do Bolsa Família e investimentos em habitação e mobilidade urbana, também tem sido percebida diretamente nos territórios onde os evangélicos são maioria: as periferias urbanas e cidades do interior.
Malafaia perde espaço
Outro dado que chama atenção nos bastidores do Planalto é que o crescimento da aprovação ocorre em paralelo ao esvaziamento da influência de figuras como o pastor Silas Malafaia, um dos principais porta-vozes da oposição evangélica ao governo Lula.
Conhecido por suas falas inflamadas e frequentes ataques ao PT, Malafaia tem encontrado cada vez menos eco entre os fiéis, especialmente entre os mais jovens e entre pastores de igrejas pequenas e independentes.
Mesmo dentro da própria base evangélica conservadora, há quem defenda um “reposicionamento estratégico”, diante da constatação de que Lula não representa a ameaça ideológica que foi pintada em campanhas anteriores.
Desmonte da narrativa do ‘inimigo da fé’
O governo, por sua vez, parece ter aprendido com os erros do passado. Ministérios como o da Educação, Saúde, Direitos Humanos e Cidadania passaram a adotar uma linguagem mais acessível, evitando embates diretos com o campo religioso e focando em entregas concretas.
Apesar do avanço, a relação ainda é delicada. A maioria do segmento evangélico continua crítica ao governo, e, mesmo não tendo a mesma força de antes, lideranças como Malafaia, Marco Feliciano e Magno Malta seguem com ampla visibilidade.
Além disso, 2026 já se desenha no horizonte como um novo embate eleitoral, e a disputa pelo voto evangélico será intensa. Mesmo assim, o crescimento registrado pela pesquisa Bloomberg pode ser o início de uma virada simbólica: a ideia de que ser evangélico e apoiar Lula não é mais uma contradição — mas uma possibilidade real e crescente.
O que diz a pesquisa:
Aprovação de Lula entre evangélicos:
Junho/25: 21,5%
Julho/25: 30,4%
Avaliação "ótimo/bom" do governo entre evangélicos:
Junho/25: 19,8%
Julho/25: 29,8%
“O recado da pesquisa é claro: existe uma base evangélica mais pragmática, sensível às pautas sociais e menos presa ao discurso de guerra cultural. E essa base está, sim, disposta a dialogar com o governo”, conclui Zé Barbosa, pastor e colunista da Revista Fórum.