Centrão se aproxima de Lula e amplia isolamento de Flávio Bolsonaro

Alcolumbre, Motta e Lira evitam o presidenciável do PL durante a campanha

BRASIL 247
Centrão se aproxima de Lula e amplia isolamento de Flávio Bolsonaro Hugo Motta, Davi Alcolumbre e Lula/Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A movimentação recente de líderes do Centrão no Congresso indica uma reaproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, ao mesmo tempo, um distanciamento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do PL à Presidência e principal adversário do petista na eleição de 2026.

Segundo reportagem de O Globo publicada nesta segunda-feira (17), Lula teve três reuniões nas últimas duas semanas com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), recebeu apoio explícito do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e viu dirigentes do PP e do União Brasil atuarem para impedir que a federação embarcasse formalmente na campanha de Flávio.

O ponto central da articulação é a neutralidade adotada pela federação União-PP e pelo Republicanos na disputa presidencial. A decisão atingiu inclusive estados considerados estratégicos pelo entorno de Flávio, como Rio de Janeiro e Minas Gerais. Nos bastidores, caciques desses partidos avaliam que Lula lidera as pesquisas e tem mais chances de vencer, além de enxergarem no apoio ao governo uma forma de preservar influência no comando do Congresso em 2027.

No caso do PP, o senador Ciro Nogueira (PI) e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) atuaram para evitar que a legenda indicasse a vice de Flávio. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), que chegou a ser convidada para a chapa, acabou barrada nesse movimento. Integrantes do PP atribuem a Lira parte da articulação que levou a federação com o União Brasil à neutralidade.

O afastamento ganhou força após a revelação do caso Dark Horse pelo The Intercept. O episódio mostrou que Flávio pediu recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, para financiar um filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Ciro Nogueira, que já foi alvo de mandado de busca e apreensão em investigação da Polícia Federal sobre suposta atuação em favor de interesses de Vorcaro — o que ele nega — passou a evitar associação direta com o tema e com a campanha do PL.

Embora tenha feito aliança com o PL no Piauí, Ciro evita campanha para Flávio. O próprio candidato do PL não citou o nome do senador na semana passada ao listar aliados que apoia para o Senado. Flávio mencionou Arthur Lira, que disputará uma vaga em Alagoas, mas o ex-presidente da Câmara não retribuiu publicamente o gesto e tem mantido silêncio sobre a eleição presidencial.

A relação entre Flávio e Alcolumbre também se deteriorou. O PL espera eleger a maior bancada do Senado e ameaça lançar candidato próprio à presidência da Casa, independentemente do resultado da disputa pelo Planalto. O objetivo seria pressionar pelo avanço de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal, pauta que Alcolumbre resiste a pautar.

Alcolumbre, por sua vez, busca apoio de Lula e do PT para se reeleger presidente do Senado em 2027. O senador mantém diálogo próximo com integrantes do STF, incluindo Alexandre de Moraes, alvo frequente de pedidos de afastamento feitos por parlamentares bolsonaristas.

Diferentemente de Hugo Motta, Alcolumbre não declarou voto em Lula. Ainda assim, fechou aliança com o PT no Amapá e apoia a reeleição do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso. Em contrapartida, o PT apoia a reeleição do governador Clécio Andrade (União Brasil), aliado de Alcolumbre.

A recomposição entre Lula e o presidente do Senado também destravou pautas de interesse do governo. Após a crise provocada pela indicação de Jorge Messias ao STF — rejeitada pelo Senado em uma derrota histórica para o Planalto — iniciativas como a PEC que acaba com a escala 6×1, a PEC da Segurança e o projeto sobre exploração de minerais críticos voltaram a andar nas comissões.

O líder do PT no Senado, Camilo Santana (CE), resumiu o novo clima: “Há muita boa vontade do presidente Alcolumbre de encaminhar esses projetos”.

Na Câmara, Hugo Motta também trabalha para manter pontes com Lula. O presidente da Casa declarou apoio ao petista em evento na Paraíba na última segunda-feira (10). Dois dias depois, na quarta-feira (12), Lula telefonou para agradecer o gesto e convidou Motta para uma reunião, ainda sem data marcada.

Motta foi um dos articuladores da neutralidade do Republicanos. Flávio chegou a se reunir com o presidente da sigla, Marcos Pereira, na véspera da convenção nacional, mas ouviu que o apoio seria inviável porque a maioria dos estados defendia neutralidade. No mesmo dia, Motta comunicou a Lula a posição do partido.

O cálculo de Motta envolve sua própria reeleição como deputado, a tentativa de eleger o pai, o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley, ao Senado pela Paraíba, e o projeto de se manter no comando da Câmara em 2027. Para isso, conta com a popularidade de Lula no estado e com eventual apoio institucional do governo em um segundo mandato petista.

Outra sinalização veio do presidente do PSD, Gilberto Kassab, candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado. Em conversa com empresários na quinta-feira (13), Kassab afirmou que Flávio “não tem a menor chance” e que o Centrão está com Lula.

Flávio reagiu nas redes sociais: “Não sei como os outros candidatos a presidente que se dizem de direita pensam, mas eu sempre tive muito claro na minha cabeça que seriam todos contra o PT”.

Aliados do candidato do PL minimizam o movimento e afirmam que, se Flávio vencer a eleição, líderes como Alcolumbre, Motta e outros dirigentes do Centrão tenderão a se aproximar do novo governo. A campanha também avalia que Alcolumbre será mais cauteloso do que Motta e não deve declarar publicamente voto em Lula, mantendo a relação em um campo institucional.




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