Teresa Leitão diz que bolsonaristas querem controlar Senado para provocar crise institucional
Líder do governo no Senado aposta no avanço do fim da escala 6×1, relata reaproximação entre Lula e Davi Alcolumbre e alerta para disputa decisiva pela composição da Casa
Teresa LeitãoCrédito: Carlos Moura/Agência Senado A senadora Teresa Leitão (PT-PE), líder do governo no Senado, afirmou que a disputa eleitoral pelas cadeiras da Casa terá papel decisivo na preservação do equilíbrio entre os Poderes e avaliou que o bolsonarismo busca ampliar sua presença no Congresso com objetivo oposto: acirrar conflitos institucionais. Para a parlamentar, enquanto o campo governista trabalha para construir uma maioria capaz de garantir estabilidade política, seus adversários pretendem transformar o Senado em instrumento permanente de confronto.
Em entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, Teresa Leitão também detalhou as articulações do governo para destravar uma série de propostas consideradas prioritárias, entre elas a PEC que trata do fim da escala 6×1, a PEC da Segurança Pública e o projeto relacionado às terras raras. A senadora afirmou ainda que houve avanços na retomada do diálogo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
“A mesma lógica que a gente está tendo de construir uma maioria no Senado para garantir o equilíbrio institucional, para garantir a tranquilidade, inclusive nas relações institucionais, os bolsonaristas estão também para garantir a bagunça. O contrário: uma crise institucional”, declarou
Segundo Teresa, a mudança de ambiente na relação entre o Palácio do Planalto e Alcolumbre ocorreu após uma série de conversas envolvendo o presidente do Senado, representantes do governo e integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). A parlamentar disse ter percebido uma mudança significativa depois das primeiras reuniões e das pressões exercidas por diferentes setores interessados na retomada das negociações.
Questionada se o governo poderia confiar em Alcolumbre para fazer avançar as principais propostas defendidas por Lula, Teresa respondeu que, diante das conversas mais recentes, acredita que sim.
“Depois desse esforço concentrado de reaproximação, que foi dividido em três etapas, eu acho que dá. Eu acho que agora dá”
Ela contou que, logo depois de assumir a liderança governista, conversou com o presidente do Senado ao lado do líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE). Em um primeiro momento, segundo Teresa, Alcolumbre demonstrava resistência em encaminhar algumas matérias, mas a situação teria mudado após sucessivas rodadas de diálogo.
Uma dessas conversas envolveu representantes das centrais sindicais e o senador Paulo Paim (PT-RS). Para Teresa, a pressão exercida pelas entidades sindicais teve efeito sobre o presidente do Senado. Ela relatou que os dirigentes lembraram episódios anteriores nos quais Alcolumbre havia atendido reivindicações do movimento sindical, utilizando essa relação como argumento para defender o avanço da pauta trabalhista.
Fim da escala 6×1 é prioridade
Entre os projetos em negociação, Teresa deixou claro que pretende concentrar esforços especialmente na proposta que altera a jornada de trabalho e busca acabar com a escala de seis dias trabalhados para um dia de descanso.
A líder do governo considera que a pauta já ultrapassou os limites do debate partidário e conquistou forte repercussão entre trabalhadores de diferentes setores da economia.
“O meu esforço concentrado vai ser na PEC do 6×1, porque eu acho que é a mais fácil de ser votada”
Segundo a senadora, o governo pretende acelerar a tramitação da proposta no Senado e, se possível, aprová-la sem mudanças em relação ao texto recebido da Câmara, evitando que a matéria precise retornar aos deputados e prolongue sua tramitação.
“A ideia é não mudar, é aprovar do jeito que ela veio da Câmara para poder o tempo ser nosso aliado”
Teresa afirmou que pretende trabalhar pessoalmente pela escolha de um relator e pela rápida apreciação da matéria na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Ela disse ter recebido do senador Otto Alencar (PSD-BA), presidente da comissão, uma sinalização positiva para dar andamento à proposta.
De acordo com a parlamentar, a intenção do governo é concluir a discussão na CCJ e pedir urgência para que o texto chegue rapidamente ao plenário. Um eventual pedido de vista da oposição, contudo, poderia interferir nesse calendário.
Para Teresa, a votação também terá enorme peso político porque obrigará cada senador a tornar pública sua posição sobre uma pauta diretamente relacionada à rotina de milhões de trabalhadores.
“Eu quero ver as galerias cheias de sindicalistas, cheias de trabalhadores e trabalhadoras. Voto aberto, porque é voto nominal”
A senadora demonstrou confiança na aprovação.
“Rejeitar é impossível. Ela ganhou a mente da sociedade”
Ao defender a mudança, Teresa relatou conversas com trabalhadores que já estão submetidos a diferentes formas de reorganização da jornada. Citou, por exemplo, o caso de um funcionário que disse trabalhar em regime 5×2, mas cumprir dez horas diárias, situação que, segundo ela, evidencia a necessidade de uma regulamentação mais clara.
“Você vai no mercado, no shopping, numa farmácia. Onde você anda, na área de serviços, qualquer balcão, está todo mundo ansioso”, afirmou.
Pressão eleitoral sobre os senadores
A líder governista também relacionou a tramitação da proposta ao calendário eleitoral. Segundo ela, quanto mais a votação se aproximar das eleições, maior será a pressão sobre os parlamentares que buscarão renovar seus mandatos.
Teresa argumentou que deputados poderão apresentar ao eleitorado o voto dado anteriormente à proposta e que o próprio governo Lula poderá reivindicar o esforço realizado para colocar a mudança em discussão. Nesse cenário, senadores também terão de explicar o posicionamento adotado.
“Quando chegar o eleitor trabalhador e disser: ‘Por que essa PEC não andou lá no Senado?’, o senador candidato à reeleição vai ter que responder”
Para ela, deixar a decisão para depois da eleição dificultaria significativamente a aprovação, inclusive porque parlamentares derrotados nas urnas teriam menos incentivos para enfrentar uma votação politicamente sensível.
“A hora é essa”, resumiu.
Segurança pública e terras raras também estão no radar
Além da jornada de trabalho, Teresa citou como prioridades do governo a PEC da Segurança Pública e o projeto relacionado às terras raras.
A senadora reconheceu que a proposta da segurança é mais complexa e deverá enfrentar negociações mais difíceis no Congresso, mas sustentou que a matéria precisa começar a tramitar efetivamente.
“A PEC da segurança é muito mais complexa, mas tem que rodar, tem que andar”
De acordo com seu relato, Lula apresentou pessoalmente as três pautas prioritárias durante as conversas com Alcolumbre. Depois, representantes do governo ficaram encarregados de reforçar junto aos líderes partidários a importância política das propostas.
Teresa disse ter procurado dirigentes das bancadas que compõem ou dialogam com a base governista e relatou ter encontrado disposição favorável à tramitação.
Governo tenta resolver impasse sobre medida das compras internacionais
Outra preocupação apresentada pela líder governista foi a medida provisória relacionada à tributação das compras internacionais de pequeno valor, popularmente conhecida no debate político como “taxa das blusinhas”.
Teresa explicou que a comissão destinada a analisar a medida ainda enfrentava dificuldades para ser instalada e que o prazo de validade da MP tornava o tema urgente. Segundo ela, havia divergências em torno das indicações para a presidência e a relatoria do colegiado, além de forte pressão de setores empresariais com interesses distintos sobre a manutenção ou alteração da tributação.
A senadora afirmou que o governo tentaria resolver o impasse antes do esforço concentrado do Congresso, uma vez que as comissões podem funcionar normalmente mesmo fora dos períodos reservados às votações presenciais no plenário.
O objetivo, explicou, seria deixar a proposta pronta para decisão dos parlamentares quando o Senado retomasse as votações concentradas.
Teresa relata reaproximação de Lula e Alcolumbre
A líder do governo descreveu a retomada das conversas entre Lula e Alcolumbre como um processo gradual. Segundo seu relato, a primeira etapa teve caráter predominantemente institucional e contou com interlocução de integrantes do STF, entre eles Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin.
Embora tenha dito não conhecer detalhes das conversas reservadas, Teresa afirmou ter recebido avaliações positivas dos participantes.
Depois desse movimento, segundo ela, ocorreu uma reunião diretamente voltada às demandas do Executivo no Congresso.
“Estava quebrado o gelo. Vamos agora ao que interessa”
Foi nessa etapa, conforme a senadora, que entraram na mesa as medidas provisórias, projetos econômicos e as três grandes prioridades políticas defendidas pelo Planalto.
A parlamentar também destacou a atuação de centrais sindicais na pressão pela tramitação do fim da escala 6×1 e disse acreditar que o conjunto dessas movimentações alterou o ambiente político no Senado.
Eleição para o Senado será decisiva
Na parte final da entrevista, Teresa fez uma avaliação detalhada da disputa eleitoral pelo Senado. Como dois terços das cadeiras da Casa estarão em jogo, a parlamentar considera a eleição especialmente relevante para definir a correlação de forças políticas durante a próxima legislatura.
Segundo ela, o cenário ainda permanece aberto porque campanhas para o Senado costumam amadurecer mais tarde do que as disputas presidenciais e estaduais.
Teresa citou a própria eleição de 2022 como exemplo. Ela lembrou que permaneceu durante meses em um cenário embolado nas pesquisas e começou a se distanciar dos concorrentes apenas após o início da propaganda eleitoral.
Para a senadora, a exposição dos candidatos no rádio e na televisão poderá novamente ser determinante, sobretudo porque o eleitor terá de escolher dois nomes para o Senado.
A parlamentar avalia que o campo governista tem condições de ampliar sua representação, embora tenha ressaltado que o resultado está longe de estar definido.
“No contexto de hoje, a gente não cresce muito, fica mais ou menos do mesmo tamanho. Mas eleição para o Senado tem esse dado: as escolhas não se dão logo”
Ela mencionou candidaturas governistas e aliadas em diversos estados, avaliando que o desempenho da chapa presidencial e das campanhas para os governos estaduais também poderá influenciar diretamente o voto para senador.
“É impressionante a resiliência desses Bolsonaros”
Ao comentar o cenário nacional, Teresa chamou atenção para a manutenção de uma base eleitoral expressiva ligada ao bolsonarismo, mesmo diante das sucessivas controvérsias políticas envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados.
“É impressionante a resiliência desses Bolsonaros. É impressionante”
Na avaliação da senadora, esse quadro obriga o campo governista a entrar na campanha sem considerar antecipadamente definida uma eventual vitória presidencial.
Ela defendeu um esforço para que Lula tenha desempenho suficiente para vencer ainda no primeiro turno e avaliou que uma segunda rodada poderia tornar a disputa mais difícil.
Teresa também ressaltou a capacidade de transferência de votos do presidente para candidatos aliados nos estados.
“O fator Lula é de uma força muito grande”
A participação do presidente na propaganda eleitoral, disse ela, poderá ser um diferencial especialmente para candidatos ao Senado que ainda apresentam menor grau de conhecimento entre os eleitores.
Disputa envolve futuro das relações entre os Poderes
Para Teresa, porém, a batalha pelas vagas do Senado vai muito além da composição partidária. A Casa ocupa posição central em decisões envolvendo autoridades do Judiciário, processos de impeachment, sabatinas de ministros de tribunais superiores e outras questões capazes de interferir diretamente na relação entre as instituições.
É nesse contexto que a líder do governo enxerga uma disputa estratégica entre o campo lulista e o bolsonarismo.
De um lado, afirma ela, governistas buscam formar uma maioria capaz de assegurar condições políticas para Lula governar e manter estabilidade institucional. Do outro, setores bolsonaristas pretendem conquistar força suficiente para pressionar o Supremo e intensificar o confronto entre os Poderes.
“Nós estamos querendo maioria para garantir o equilíbrio institucional. Eles querem justamente o contrário”
Na leitura apresentada pela senadora, portanto, a eleição para o Senado será uma das principais frentes da disputa política nacional. Seu resultado poderá determinar não apenas a velocidade de aprovação das propostas do governo, mas também o grau de tensão entre Executivo, Legislativo e Judiciário durante os anos seguintes.
E, enquanto a corrida eleitoral se aproxima, Teresa Leitão deixa claro que pretende combinar essa batalha de longo prazo com uma prioridade imediata no Congresso: fazer avançar a proposta que põe fim à escala 6×1 e levar os senadores a se posicionarem nominalmente diante dos trabalhadores.



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