“Ninguém está acima da lei”: a mensagem central da entrevista do presidente Lula à Record
“Se alguém está agindo de forma errada, esse alguém vai ter que ser investigado. E eu não sou um presidente que tenta proibir investigação”, disse Lula
Em entrevista exclusiva concedida à jornalista Mariana Godoy, do programa Domingo Espetacular, da Record, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abordou temas centrais da conjuntura nacional e internacional. Ao longo da conversa no Palácio da Alvorada, o mandatário tratou com franqueza das investigações envolvendo figuras próximas, detalhou o diálogo diplomático de alto nível com os Estados Unidos, apresentou os planos para a criação do Ministério da Segurança Pública e defendeu os resultados econômicos e sociais de sua gestão.
Republicanismo e instituições de investigação
Logo na abertura da entrevista, o presidente foi questionado sobre notícias recentes envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva e o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio. Com serenidade e firmeza institucional, Lula reiterou o papel republicano do chefe de Estado frente aos órgãos de controle:
“Eu não sou juiz, não sou procurador, nem sou delegado; eu sou presidente da República. Todos nós somos obrigados a agir corretamente. Se alguém está agindo de forma errada, esse alguém vai ter que ser investigado. E eu não sou um presidente que tenta proibir investigação. Investigue-se. Ninguém está impune se cometeu erro.”
O presidente frisou que o direito à ampla defesa e à presunção de inocência deve ser plenamente respeitado, mas reforçou que eventuais desvios serão rigorosamente punidos pela lei, destacando a autonomia conferida à Polícia Federal e ao Ministério da Justiça no combate a irregularidades em todos os níveis.
Diplomacia com os EUA: soberania, minerais críticos e diálogo direto com Donald Trump
No front externo, Lula detalhou a conversa de 1h20 mantida com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O diálogo tratou das recentes tensões comerciais, com o presidente brasileiro rechaçando os argumentos usados para justificar barreiras tarifárias e apontando as conquistas ambientais e trabalhistas do país:
Soberania Comercial: Lula destacou a redução histórica no desmatamento e o combate permanente ao trabalho escravo, refutando pretextos protecionistas contra as exportações brasileiras.
Industrialização e Agregação de Valor: O presidente entregou a Washington uma proposta estratégica para a exploração conjunta de minerais críticos e terras raras, impondo como condição que o Brasil processe e transforme essas matérias-primas localmente para a fabricação de semicondutores, baterias e celulares.
Combate ao Crime Organizado: Reforçou a disposição de atuar em cooperação de inteligência internacional contra o crime transnacional, mantendo uma relação civilizada e sem aceitar qualquer tipo de ingerência externa na soberania nacional.
Segurança Pública e a PEC para a criação do novo ministério
Tratando a segurança pública como uma prioridade de Estado, o presidente explicou os limites do pacto federativo estabelecido em 1988, que concentrou a responsabilidade policial primária nos governos estaduais. Para mudar essa dinâmica e dar protagonismo à União, Lula anunciou a estratégia do governo:
1. Aprovação da PEC da Segurança Pública: Garantir base jurídica e orçamentária para a atuação coordenada da União com estados e municípios.
2. Criação do Ministério da Segurança Pública: Estruturação de uma pasta dedicada a articular a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e o sistema penal.
3. Foco em Inteligência e Asfixia Financeira: Atuação direta contra os chefes do crime organizado e desarticulação das redes de lavagem de dinheiro, garantindo que o território da periferia seja devolvido à população com cidadania e presença do Estado.
Enfrentamento ao Feminicídio
O presidente também colocou a luta contra a violência de gênero no topo das prioridades nacionais. Lula destacou o trabalho conjunto com o Supremo Tribunal Federal (STF), a Câmara e o Senado no âmbito do Pacto Nacional:
1. Criação e sanção de 11 leis, 4 decretos e 3 portarias voltadas à proteção integral das mulheres;
2. Expansão da rede das Casas da Mulher Brasileira e implementação de mecanismos tecnológicos de monitoramento para proteger vítimas de agressão;
3. Um apelo direto à conscientização masculina, defendendo uma profunda transformação cultural e educacional na sociedade brasileira para erradicar o machismo e a violência doméstica.
Economia real versus sensação térmica: dados e educação financeira
Ao comparar o desempenho econômico atual com o período anterior, o presidente ressaltou indicadores concretos de recuperação:
1. Inflação de Alimentos: Queda expressiva no acumulado de quatro anos (13,6% no período recente frente aos mais de 56% do ciclo anterior);
2. Emprego e Renda: Criação de mais de 10 milhões de postos formais de trabalho e recuperação contínua do poder de compra do salário mínimo;
3. Responsabilidade Fiscal: Redução substantiva do déficit primário, mantido em patamares controlados.
Para enfrentar a disparidade entre os números oficiais e o custo de vida sentido pelas famílias — impactado pelas altas taxas de juros e pelas mudanças no padrão de consumo digital —, Lula defendeu a inclusão da educação financeira popular nas escolas e em campanhas de conscientização pública.
Agenda do Congresso e o futuro da política
Na reta final da entrevista, o presidente listou temas prioritários para o Legislativo, como a discussão da escala de trabalho 6×1, o marco de minérios críticos, o setor de data centers (Redata) e a revisão da tributação sobre remessas internacionais de pequeno valor.
Refletindo sobre a evolução do debate público no Brasil, Lula relembrou as disputas democráticas com líderes históricos e alertou contra o esvaziamento do debate nas redes sociais:
“Ser presidente da República é tomar decisões sérias. A desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta. Por isso o povo precisa participar, votar e cobrar.”
Reafirmando o compromisso com a expansão da educação em tempo integral e a assistência à população idosa, Lula sintetizou a mensagem que norteia seu projeto de país: fortalecimento das instituições, soberania nacional com justiça social e a certeza de que a lei vale igualmente para todos os cidadãos.



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