Flávio Bolsonaro começa campanha no Nordeste isolado e distante de Lula nas pesquisas

Senador faz primeira viagem à região em Alagoas, estado de seu vice, Alfredo Gaspar, mas JHC e Arthur Lira devem ficar fora das agendas

BRASIL 247
Flávio Bolsonaro começa campanha no Nordeste isolado e distante de Lula nas pesquisas Flávio Bolsonaro/Crédito: Lula Marques/Agência Brasil

A primeira agenda de Flávio Bolsonaro (PL) no Nordeste desde o início oficial da campanha presidencial expõe as dificuldades do senador para ampliar seu palanque na região em que o presidente Lula (PT) mantém sua maior vantagem eleitoral. A estreia será em Alagoas, estado do candidato a vice, Alfredo Gaspar (PL), mas deve ocorrer sem a presença de aliados locais considerados estratégicos. As informações são do jornal O Globo. 

O ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas (PSDB), o JHC, candidato ao governo de Alagoas, e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), que disputa o Senado, devem evitar agendas conjuntas com Flávio durante a passagem do presidenciável pelo estado, prevista para terça e quarta-feira.

O cálculo dos aliados locais é influenciado pelo cenário eleitoral no Nordeste. No recorte regional da última pesquisa Datafolha para o primeiro turno, Lula aparece com 53% das intenções de voto, contra 25% de Flávio. A diferença de 28 pontos percentuais torna mais arriscada, para candidatos envolvidos em disputas estaduais, uma associação direta com o palanque presidencial do PL.

Flávio desembarca em Alagoas para compromissos em Maceió e Arapiraca. A agenda prevê reuniões com lideranças políticas, representantes do setor produtivo e apoiadores, além de entrevistas e atividades de campanha. A presença de Alfredo Gaspar garante ao senador uma base própria no estado, mas não resolve a dificuldade de atrair nomes de maior peso da política local para a fotografia da campanha nacional.

O caso de JHC é o principal exemplo dessa cautela. Embora o PL integre a aliança que sustenta sua candidatura ao governo alagoano, o ex-prefeito deixou o partido em março e migrou para o PSDB, legenda que adotou neutralidade na disputa presidencial. A tendência, segundo O Globo, é que JHC mantenha essa posição e não participe de um ato público ao lado de Flávio.

JHC também manteve interlocução com o governo federal nos últimos anos. Em 2025, quando ainda era prefeito de Maceió, atuou em Brasília pela indicação de sua tia, Marluce Caldas, ao Superior Tribunal de Justiça. A nomeação aproximou o então prefeito de setores do governo Lula. Procurado pela reportagem, ele não se manifestou.

A ausência contrasta com a expectativa demonstrada pelo próprio Flávio. Em uma de suas lives, o senador citou JHC ao falar do palanque que esperava montar em Alagoas. Também mencionou Marina Candia (PSDB), mulher de JHC e candidata ao Senado, e Arthur Lira como nomes dos quais esperava apoio no estado.

Marina deve seguir a mesma estratégia eleitoral do marido e evitar vinculação mais direta à campanha presidencial. Apesar de disputar o Senado em uma aliança que inclui o PL, ela é filiada ao PSDB e sua candidatura está ligada ao projeto de JHC para o governo estadual.

Arthur Lira também deve ficar fora da agenda do presidenciável em Alagoas. O ex-presidente da Câmara, uma das principais lideranças políticas do estado, tem influência sobre prefeitos e parlamentares, mas não deve acompanhar Flávio nos compromissos previstos. Lira foi procurado por O Globo, mas não comentou.

A distância política entre Lira e Flávio já havia aparecido nos bastidores da campanha. Neste mês, o deputado passou pela sede do QG do presidenciável em Brasília, mas saiu sem conversar ou gravar com o senador. Segundo interlocutores ouvidos pela reportagem, Lira havia dado carona a um vereador de Maceió que tinha gravações marcadas para a campanha e aproveitou a ida ao local para tratar de assuntos de Alagoas e procurar Alfredo Gaspar, que não estava na sede.

Lira permaneceu por algum tempo no local, conversou com integrantes da campanha e parlamentares, mas depois saiu para cumprir uma audiência. Flávio estava em outro andar, dedicado a uma sequência de gravações, e os dois não se encontraram.

A escolha de Alagoas para abrir a agenda nordestina tem como principal trunfo a presença de Alfredo Gaspar na chapa. Deputado federal pelo estado, Gaspar será o anfitrião de Flávio em Maceió e Arapiraca. A viagem é tratada pela campanha como uma tentativa de iniciar a expansão da presença do senador em uma região historicamente mais favorável ao lulismo.

Antes de ir ao Nordeste, Flávio concentrou as primeiras agendas da campanha no Sudeste. O senador abriu oficialmente a corrida ao Planalto com um ato em Copacabana, no Rio de Janeiro, e depois esteve em Minas Gerais, onde dividiu agenda com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Alagoas será sua primeira parada nordestina já como candidato.

A campanha de Flávio espera percorrer outros estados da região antes do primeiro turno, como Ceará, Bahia e Pernambuco. A estratégia é tentar reduzir a vantagem de Lula e explorar disputas locais em que adversários do campo governista aparecem competitivos.

No Nordeste, o senador busca se aproximar de candidatos que enfrentam aliados de Lula nos estados. A campanha acompanha com interesse o desempenho de Ciro Gomes (PSDB), no Ceará, Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco, e ACM Neto (União), na Bahia. Em alguns casos, porém, Flávio não conta com palanque formal e tenta se beneficiar dessas candidaturas sem depender de adesão explícita ao seu nome.

A dificuldade em Alagoas, justamente no estado de seu vice, indica o tamanho do desafio. Mesmo com Alfredo Gaspar na chapa, a distância de Lula nas pesquisas e a cautela de lideranças locais impõem limites à tentativa de Flávio de nacionalizar apoios em uma região decisiva para a disputa presidencial.




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