Canadá reage a Trump e impõe tarifas de US$ 20 bilhões em bens dos EUA
Com tarifas contra EUA, aumenta disputa comercial que ameaça setores estratégicos
Mark Carney-Crédito: REUTERS/Mathieu Belanger/247 O Canadá impôs nesta terça-feira (8) tarifas a produtos dos Estados Unidos que movimentam cerca de US$ 20 bilhões por ano, em resposta às taxas adotadas pelo governo de Donald Trump. A medida amplia uma disputa comercial que ameaça setores estratégicos e cadeias produtivas integradas entre os dois países, segundo a Associated Press.
As novas alíquotas canadenses variam entre 15%, 25% e 50% e atingem centenas de mercadorias norte-americanas, como aço, alumínio, queijo, eletrodomésticos, roupas, cosméticos e equipamentos agrícolas. De acordo com a AP, os produtos afetados representam aproximadamente 6% dos US$ 333,6 bilhões exportados pelos Estados Unidos ao Canadá no ano passado.
O governo do primeiro-ministro Mark Carney afirma que a retaliação reproduz, tanto em valor quanto em alíquota, as barreiras estabelecidas por Washington contra produtos canadenses. As medidas entraram em vigor à 0h01 desta terça, por meio de uma ordem do Executivo.
O embate ganhou força após o fracasso das negociações comerciais entre Ottawa e Washington, em 21 de agosto. Desde então, Trump elevou a pressão sobre o país vizinho com novas tarifas, ameaças contra empresas canadenses e declarações que questionam a autonomia econômica do Canadá.
Carney sustenta que as exigências apresentadas pelos Estados Unidos poderiam reduzir progressivamente a capacidade industrial canadense e aumentar a dependência do país. Segundo ele, setores produtivos nacionais correm o risco de ser “gradualmente desativados no Canadá e eliminados”.
A resposta de Ottawa também ultrapassa a adoção de tarifas. Oito das dez províncias canadenses mantêm restrições ou proibições à venda de bebidas alcoólicas norte-americanas. Dados do Conselho de Destilados dos Estados Unidos indicam que as exportações de destilados para o mercado canadense caíram mais de 70% na comparação anual após a entrada em vigor dessas limitações.
O braço de pesquisas econômicas do Royal Bank of Canada avalia que as tarifas dificilmente produzirão um impacto relevante sobre o crescimento dos Estados Unidos como um todo. Empresas e segmentos diretamente atingidos, entretanto, poderão registrar perdas expressivas.
Trump ameaça ampliar retaliação
Em uma nova escalada, Trump ameaçou impedir a venda de aeronaves da fabricante canadense Bombardier nos Estados Unidos caso a empresa não transfira sua produção para território norte-americano.
“CHEGA DE VENDER BOMBARDIER NOS ESTADOS UNIDOS! Os produtos deles não são bons o suficiente!”, escreveu Trump em uma publicação na Truth Social. “Se querem o nosso mercado, precisam fabricar aqui e parar de tratar os Estados Unidos como um ‘cofrinho’.”
Flavio Volpe, presidente da Associação Canadense de Fabricantes de Peças Automotivas, respondeu que a Bombardier utiliza motores produzidos nos Estados Unidos pelas empresas GE e Honeywell, além de empregar aproximadamente 3 mil trabalhadores norte-americanos.
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, também declarou que Washington poderá proibir completamente a entrada de determinados produtos canadenses. Trump, por sua vez, já afirmou que a economia do Canadá poderia entrar em colapso caso Carney continuasse a tratá-lo como “inimigo”.
O presidente norte-americano chegou ainda a mudar simbolicamente o nome do Lago Ontário para “Lago América”. A alteração foi rejeitada e ridicularizada no Canadá, embora Google e Apple tenham modificado a denominação exibida a usuários localizados nos Estados Unidos.
“Depois de renomear um golfo e um lago, talvez o próximo passo dele seja renomear um rio?”, afirmou Daniel Béland, cientista político da Universidade McGill.
Pressão fortalece resistência canadense
As tarifas e as declarações recorrentes de Trump sobre transformar o Canadá no 51º estado norte-americano aumentaram a rejeição aos Estados Unidos entre os canadenses. O movimento também fortaleceu politicamente Carney e estimulou boicotes a mercadorias norte-americanas e uma redução das viagens aos EUA.
O primeiro-ministro canadense afirmou que o diálogo poderá ser retomado quando os representantes dos Estados Unidos “pararem de fazer memes, pararem com as provocações, pararem de tentar parecer durões” e passarem a tratar as negociações com seriedade.
Para o historiador canadense Robert Bothwell, o confronto assumiu uma dimensão internacional porque a reação de Ottawa poderá influenciar a conduta de outros países submetidos à pressão tarifária de Washington.
“Carney e o Canadá se tornaram símbolos da resistência a ele”, disse Bothwell. “E o que ele vai querer fazer é transformar Carney e o Canadá em exemplo e, teoricamente, aterrorizar todos os outros, quando, na verdade, mostrará a eles que precisam se afastar ainda mais dos Estados Unidos.”
Nelson Wiseman, professor emérito de ciência política da Universidade de Toronto, avaliou que a reeleição de Trump em 2024 aprofundou a desconfiança dos canadenses não apenas em relação ao governo norte-americano, mas também ao julgamento dos eleitores dos Estados Unidos.
“As relações entre Canadá e Estados Unidos, mesmo sem confronto, nunca mais serão o que eram antes de Trump”, declarou Wiseman.
Indústria automobilística entra no centro da disputa
Uma das principais preocupações de Ottawa envolve a ameaça de tarifas de 50% sobre veículos, autopeças e aço canadenses a partir do próximo ano. As cadeias industriais dos dois países são profundamente interligadas, sobretudo no setor automobilístico, no qual componentes e veículos acabados atravessam a fronteira diversas vezes durante o processo de fabricação.
“Queremos que os carros sejam fabricados em Detroit, na Carolina do Sul, no Tennessee e em todos os nossos lugares onde produzimos automóveis. Não queremos que sejam fabricados no Canadá”, afirmou Trump.
Uma tarifa dessa magnitude poderia provocar perdas nas fábricas canadenses e elevar os preços dos veículos em toda a América do Norte. Carney argumenta que aceitar as condições de Washington colocaria em risco a permanência de setores industriais no país.
A atual ruptura ocorre apesar de os dois governos integrarem o Acordo Estados Unidos-México-Canadá, negociado e defendido pelo próprio Trump em seu primeiro mandato. Segundo a AP, muitas das tarifas adotadas pela Casa Branca contrariam as regras do pacto comercial.
Antes da deterioração das relações, cerca de 400 mil pessoas atravessavam diariamente a fronteira entre os dois países. Canadá e Estados Unidos também mantinham ampla cooperação nas áreas econômica, militar, energética e de segurança.
Dependência comercial limita reação de Ottawa
O Canadá enfrenta uma disputa desigual: a economia norte-americana é cerca de 13 vezes maior, e mais de 70% das exportações canadenses têm os Estados Unidos como destino. Ottawa, porém, dispõe de instrumentos de pressão importantes.
As refinarias norte-americanas recebem aproximadamente 4 milhões de barris de petróleo canadense por dia, enquanto agricultores dos Estados Unidos dependem do potássio produzido no Canadá para a fabricação de fertilizantes. Até o momento, o governo Carney descartou impor tarifas ou restrições às exportações desses insumos estratégicos.
“Em condições normais, seria uma possibilidade muito remota para o Canadá”, afirmou Béland. O analista ressalvou, porém, que a impopularidade interna das tarifas de Trump, a proximidade das eleições legislativas norte-americanas e as contestações judiciais contra as medidas podem modificar o equilíbrio da disputa.
O Canadá também chegou à nova etapa do confronto com indicadores econômicos favoráveis. A economia canadense cresceu a uma taxa anualizada de 3,2% no segundo trimestre, mais que o dobro do avanço de 1,5% registrado pelos Estados Unidos no mesmo período.
Carney, que discursará no Parlamento Europeu na próxima semana, tem buscado projetar o Canadá como referência para países que resistem ao uso de barreiras econômicas pelas grandes potências. A ministra da Indústria, Mélanie Joly, afirmou que Ottawa pretende demonstrar capacidade para suportar a pressão de Washington.



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