Em Nova York, Lula acusa Trump de agir como “imperador” e prepara lista de reciprocidade

Presidente afirma que Brasil buscará negociação com os EUA, mas rejeita imposições de Washington e avalia quais produtos poderão sofrer contramedidas

BRASIL 247
Em Nova York, Lula acusa Trump de agir como “imperador” e prepara lista de reciprocidade rep. publ. internet

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (21), em Nova York, que o governo brasileiro avalia quais produtos dos Estados Unidos poderão ser incluídos em uma lista de reciprocidade comercial em resposta às novas tarifas impostas por Washington às exportações brasileiras.

Em entrevista à CNN, Lula criticou a condução das negociações pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e afirmou que o republicano age como um “imperador”. A declaração foi dada durante a passagem do presidente brasileiro por Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas.

“Ele age como imperador. É um jeito de governar que eu não concordo (…) que todos têm que obedecer, da lei do mais forte. Eu não acredito. Acho que as tarifas são baseadas em mentiras, nós temos déficit. Em vez de chorar, estou atrás de novos parceiros”, disse Lula.

O presidente ressaltou, porém, que a reação brasileira não significa uma tentativa de confronto com os Estados Unidos. Segundo ele, a prioridade continua sendo uma solução negociada para a disputa comercial.

“Acredito na negociação. Farei todo esforço. Temos que pensar em como vamos, quais os produtos que vamos colocar na lista de reciprocidade”, afirmou.

“Não se trata de desafiar os EUA, todo país tem sua soberania. Não queremos desafiar ou confrontar. Ele não tem o direito de impor suas vontades”, acrescentou.

Governo avalia reciprocidade

O mecanismo de reciprocidade passou a ser considerado pelo governo brasileiro depois que os Estados Unidos adotaram novas sobretaxas contra produtos do Brasil. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), medidas anunciadas em julho estabeleceram tarifas adicionais de 25% e 12,5% sobre diferentes parcelas das importações brasileiras. Combinadas, elas atingem 23,1% das exportações do Brasil para o mercado estadunidense.

O governo brasileiro notificou Washington em agosto sobre a abertura do processo relacionado à reciprocidade. Apesar disso, Lula e Trump mantiveram naquele período contatos voltados à busca de um acordo comercial, enquanto representantes dos dois governos retomaram as negociações sobre as tarifas.

A posição expressa por Lula nesta segunda indica que Brasília mantém as duas possibilidades sobre a mesa: continuar negociando a retirada ou redução das sobretaxas e, paralelamente, preparar eventuais contramedidas caso as conversas não produzam uma solução.

Lula rejeita “lei do mais forte”

Ao classificar a postura de Trump como uma tentativa de impor a “lei do mais forte”, Lula vinculou a disputa comercial à defesa da soberania brasileira, tema que também deve ocupar espaço em sua participação na Assembleia Geral da ONU.

O presidente já vinha adotando discurso semelhante nos últimos meses. Em junho, durante compromissos na Europa, Lula também afirmou que Trump agia como um “imperador”, embora tenha ressaltado na ocasião que preferia aguardar o andamento das negociações antes de buscar diretamente o presidente estadunidense.

A agenda oficial em Nova York inclui ainda encontros bilaterais e a preparação para o discurso de abertura da Assembleia Geral nesta terça-feira (22), quando o Brasil, pela tradição diplomática da ONU, será o primeiro país a ocupar a tribuna entre os Estados-membros.

Negociação continua

Mesmo diante da possibilidade de adoção de medidas de reciprocidade, os canais comerciais permanecem abertos. Em 31 de agosto, os ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento informaram que representantes brasileiros e o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos retomaram formalmente o diálogo para tratar das tarifas impostas com base na Seção 301 da legislação estadunidense.

O governo brasileiro também adotou medidas internas para reduzir os efeitos das sobretaxas sobre exportadores, entre elas a ampliação excepcional dos prazos do regime de drawback para empresas prejudicadas pelas tarifas, permitindo mais tempo para cumprir compromissos de exportação ou buscar mercados alternativos.

Na entrevista desta segunda-feira, Lula deixou claro que o governo pretende insistir na negociação, mas não descarta responder comercialmente caso não haja acordo. A definição dos produtos que poderiam integrar uma eventual lista de reciprocidade ainda está em estudo.




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