Flávio Bolsonaro derrete e acende alerta na extrema direita
Crises internas, desgaste nas pesquisas e críticas sobre submissão aos EUA ampliam a pressão sobre Flávio Bolsonaro e acendem alerta na extrema direita
rep. publ. internet A campanha de Flávio Bolsonaro está derretendo a céu aberto, em um movimento que já começa a se refletir nas pesquisas eleitorais. A mais recente, da Atlas/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira (1º), aponta uma vantagem de Lula de 6,5 pontos percentuais em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro. Mantida essa tendência, o cenário passa a alimentar especulações sobre a possibilidade de uma vitória de Lula ainda no primeiro turno. No levantamento, Lula aparece com 46,3% das intenções de voto, dez pontos à frente do senador.
Os motivos para esse desgaste são vários. Entre eles, o escândalo envolvendo o Banco Master e a divulgação de áudios em que Flávio Bolsonaro pede milhões de reais ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Soma-se a isso a disputa interna no clã Bolsonaro, que levou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro a fazer ataques públicos ao enteado, afirmando ter sido humilhada, desrespeitada e maltratada por ele.
Em defesa de Flávio, o influenciador Paulo Figueiredo, neto do ex-ditador João Figueiredo, respondeu às críticas de Michelle colocando ainda mais lenha na fogueira. Em uma publicação nas redes sociais, escreveu: “Mulher vota mal para caralho. Especialmente as solteiras”. A reação da ex-primeira-dama foi imediata e trouxe ao debate a chamada “noite das astronautas”: uma festa realizada em Nova York, em 2024, patrocinada por Daniel Vorcaro, na qual dançarinas nuas usando capacetes de astronauta seriam a principal atração para os convidados. Segundo o ex-governador Anthony Garotinho, que afirma ter assistido ao vídeo do evento, diversos políticos ligados à família Bolsonaro estavam presentes. Michelle aproveitou o episódio para denunciar o que classificou como a hipocrisia de “homens que defendem a família”, mas participariam de orgias.
Outro episódio que sinaliza as dificuldades enfrentadas por Flávio veio dos Estados Unidos. Após o senador oferecer ao governo norte-americano participação na transição de seu “futuro governo”, o secretário de Estado, Marco Rubio, evitou qualquer gesto de apoio explícito. Limitou-se a afirmar que os Estados Unidos estão preparados para cooperar com os líderes que vierem a ser escolhidos pelo povo brasileiro.
Na prática, Flávio tem demonstrado dificuldades para ocupar o papel de candidato “antissistema” que marcou a trajetória política de seu pai. Ao contrário de Jair Bolsonaro, não consegue reproduzir a mesma postura confrontadora nem o discurso que mobilizou a base bolsonarista ao longo dos últimos anos. Sua tentativa de se apresentar como herdeiro político do bolsonarismo esbarra justamente na ausência desses atributos, dificultando a construção de uma identidade própria como sucessor do ex-presidente.
Não por acaso, pesquisas internas citadas por interlocutores políticos indicam que Flávio Bolsonaro é percebido como um candidato frágil, cuja capacidade de liderança e de construir uma candidatura competitiva desperta dúvidas até entre aliados. A pesquisa Atlas/Bloomberg reforça esse cenário: 48,4% dos entrevistados afirmaram temer uma eventual eleição do senador e pré-candidato do PL.
Para agravar ainda mais esse quadro, até veículos tradicionalmente identificados com posições conservadoras passaram a publicar editoriais críticos à atuação de Flávio Bolsonaro. Em editorial publicado nesta quarta-feira (1º), O Estado de S. Paulo sustenta que o Brasil precisa de um presidente capaz de defender os interesses nacionais e preservar a soberania do país. Na avaliação do jornal, a postura adotada por Flávio Bolsonaro em relação aos Estados Unidos aponta na direção oposta, ao transmitir uma imagem de submissão incompatível com a responsabilidade de um chefe de Estado.
O resultado é um ambiente de crescente inquietação entre setores da direita, que veem a candidatura de Flávio Bolsonaro perder força antes mesmo do início oficial da campanha.
A sucessão de crises, o desempenho nas pesquisas e as dificuldades de Flávio Bolsonaro para se afirmar como líder indicam que o bolsonarismo atravessa um momento decisivo. Pela primeira vez desde 2018, a extrema direita entra na disputa presidencial sem um nome capaz de unificar parte de seu próprio campo político. Se essa tendência se confirmar, a eleição de 2026 poderá marcar não apenas a derrota de um candidato, mas o declínio da hegemonia política construída pelo bolsonarismo nos últimos anos. Que assim seja!



COMENTÁRIOS