44% do eleitorado de Flávio concorda com visão defendida por Lula, sugere Datafolha

Maioria da população repele concepção predominante no setor empresarial

por Leopoldo Vieira, jornalista
44% do eleitorado de Flávio concorda com visão defendida por Lula, sugere Datafolha rep. publ. internet/Flávio Bolsonaro

por Leopoldo Vieira, jornalista

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem uma consistente possibilidade de atrair franjas da base do senador Flávio Bolsonaro por meio de propostas percebidas como reparadoras de desigualdades e injustiças sociais. É o que revela pesquisa Datafolha divulgada neste sábado.

Um expressivo contingente de 44% do eleitorado do senador Bolsonaro está alinhado aos 70% dos eleitores do presidente Lula e aos 58% da população em geral que veem a falta de oportunidades como a principal causa da pobreza, uma concepção atualmente associada à esquerda. Não por acaso, apenas 22% dos lulistas corroboram a tese de que a pobreza decorre da preguiça, percentual que sobe para 52% entre os bolsonaristas.

Ao avaliar que a pobreza é um problema coletivo, e não individual, a maioria da população, ao mesmo tempo, repele a concepção predominante no setor empresarial, onde 56% creditam a pobreza à preguiça.

Em termos práticos, o levantamento revela que propostas como o fim da escala 6×1, o aumento real do salário mínimo e políticas afirmativas tendem a encontrar maior receptividade do que a flexibilização da jornada de trabalho, o congelamento do salário e o ajuste fiscal sobre direitos sociais.

Por outro lado, o fato de 40% da população ainda atribuir a pobreza à preguiça sinaliza o êxito da guerra cultural polarizadora travada pela direita, que não se limita a um identitarismo invertido relacionado a gênero, etnia, orientação sexual ou à pregação teocrática. Ou seja, mecanismos graduais de mudança da opinião pública, frequentemente associados à Estratégia das Aproximações Sucessivas e ao deslocamento da chamada Janela de Overton, parecem ter produzido efeitos, embora possam ser empregados por todos os espectros políticos.

Um país culturalmente em disputa

Também reflete esse processo a divisão entre os 50% que preferem pagar menos tributos e contratar serviços particulares de saúde e educação e os 44% que defendem pagar mais impostos para receber políticas públicas. Essa posição, por sua vez, não expressa somente uma visão liberal da economia, mas a busca por alívio financeiro e por melhores serviços públicos, ainda que diante da recente recuperação da renda, da geração de empregos, da ampliação dos programas sociais e da agenda distributiva. Portanto, pode ser interpretada como um “chamado” ao governo, especialmente um de perfil hodierno, por mais investimentos e maior enfrentamento ao status quo.

Já em relação aos 65% que concordam com a frase “quanto menos eu depender do governo, melhor estará minha vida”, ante 31% que afirmam que “quanto mais benefícios do governo eu tiver, melhor estará minha vida”, é preciso cautela. Um caso emblemático é o empreendedorismo. Enquanto alguns especialistas enxergam nesse fenômeno mera rejeição ao trabalho assalariado formal, em sintonia com posições associadas à direita, outras interpretações identificam uma busca por autonomia acompanhada da resistência à figura do patrão, às jornadas exaustivas, aos baixos salários na iniciativa privada e às culturas corporativas permissivas ao assédio.

Para o campo bolsonarista, a cautela deve ser redobrada, sobretudo no momento em que a candidatura da oposição está em xeque por ruídos junto ao eleitorado feminino. Embora 71% dos homens defendam menor dependência do governo, entre as mulheres esse percentual cai para 59%. No Nordeste, região onde a oposição enfrenta maiores dificuldades e que pode decidir a eleição, 38% acreditam que a vida melhora à medida que aumenta o apoio do poder público.

Por fim, a “virada ideológica” de cinco pontos percentuais registrada pelo Datafolha em relação a 2022, segundo a qual 44% dos brasileiros se identificam com a direita, 39% com a esquerda e 17% com o centro, retrata um país culturalmente em disputa sobre se terá um futuro progressista ou conservador, o que reforça a relevância da democracia como o “pior sistema de governo, com exceção de todos os demais”, conforme a célebre frase atribuída ao ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill.

Apesar da recomendação de analistas em favor de capitulações vistas como pragmáticas por parte dos polos ideológicos para ampliar as chances de sucesso na corrida presidencial, a decisão final do eleitorado implicará um Brasil mais próximo das visões de mundo que sustentam estruturalmente a reeleição de Lula ou a oposição do senador Bolsonaro.




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