Miola vê Quaest como divisor de águas para Lula em 2026
O senador teve rejeição de 57% e também perdeu apoio entre eleitores de direita que não se identificam diretamente com o bolsonarismo. O parlamentar sofreu queda de 20 pontos percentuais nesse segmento em dois meses
Lula (em cima), Flávio Bolsonaro (embaixo) e Jeferson Miola-Crédito: Ricardo Stuckert/PR I Divulgação I Reprodução/TV247 A nova pesquisa Quaest marcou uma mudança no cenário eleitoral e colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em posição mais favorável na disputa de 2026, segundo a avaliação do analista político Jeferson Miola. Em entrevista ao programa Giro das Onze, da TV 247, o colunista apontou que a melhora na aprovação do governo, o enfraquecimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o crescimento do petista entre eleitores independentes abriram espaço até para uma vitória no primeiro turno.
Conforme análise do comentarista, o levantamento sobre as intenções de voto captou efeitos políticos que se consolidaram nas últimas semanas, entre eles a repercussão das medidas econômicas do governo e a reação da sociedade às articulações do clã Bolsonaro nos Estados Unidos.
“Essa pesquisa, ela é uma pesquisa que demarca, digamos, um tempo da eleição. Ela se dá quase no fim da Copa. A eleição a valer começa agora com o fim da Copa, né? Então, aí será o encontro da verdade”, declarou.
Conforme o levantamento, divulgado na última quarta (15), Lula abriu 12 pontos percentuais de vantagem sobre Flávio Bolsonaro no primeiro turno e conseguiu larga diferença contra o político da extrema direita no segundo turno, além de cravar uma aprovação acima da desaprovação.
O senador teve rejeição de 57% e também perdeu apoio entre eleitores de direita que não se identificam diretamente com o bolsonarismo. O parlamentar sofreu queda de 20 pontos percentuais nesse segmento em dois meses.
Segundo o analista Miola, a pesquisa, realizada entre 10 e 13 de julho, registrou um cenário no qual a população começou a associar os resultados do governo Lula a medidas concretas, como a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e os programas de renegociação de dívidas.
“E aparece na pesquisa já uma percepção diferenciada é em relação, por exemplo, à isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000. E é o programa desenrola, então eh eh ele já consolida, não é, um cenário em que as iniciativas positivas do governo começa a ser notadas pela e sentidos pela população e os erros de parte da oposição bolsonarista começam a ficar, né, mais identificados”, afirmou.
Miola destacou especialmente a evolução da avaliação de Lula entre pessoas que não se identificam diretamente com o lulismo nem com o bolsonarismo. Na leitura do comentarista, esse grupo terá papel decisivo no resultado de outubro. “Isso recoloca no cenário, no horizonte, a hipótese da eleição ser decidida em primeiro turno”, afirmou.
Flávio perde eleitores, mas Lula ainda não absorve esse grupo
De acordo com Miola, Flávio Bolsonaro segue como o principal nome do bloco de oposição, embora tenha perdido apoio após uma sequência de crises políticas. O comentarista avaliou que os votos abandonados pelo candidato não migraram de forma significativa para Lula nem para outros concorrentes da direita.
“Essa perda, o que a pesquisa está demonstrando, ela não é transferida para os demais candidatos, nem o Caiado, nem os vão pros indecisos ainda, né? Vão passar pelo purgator”, declarou à TV 247.
Na avaliação do analista, esse movimento pode aumentar a abstenção, os votos brancos e os votos nulos. Miola ressaltou que Lula lidera todos os cenários de segundo turno apresentados no programa. “O Lula ganha de todos os candidatos fora da margem de erro”. Em seguida, ponderou que o resultado representa uma tendência do momento, sem garantir o desfecho da disputa.
“Isso garante o resultado da eleição? Não. Apenas está nos dizendo que as tendências do momento, consolidadas e sedimentadas. Essas percepções que vinham se constituindo de maneira provisória ao longo desses dessas últimas semanas, elas se estabilizaram e dão conta desta tendência”, explicou.
Miola prevê campanha difícil apesar da vantagem de Lula
Mesmo diante dos números favoráveis, Miola rejeitou a ideia de que Lula já tenha assegurado a reeleição. Para ele, Flávio Bolsonaro ainda preserva uma base eleitoral expressiva, sustentada pelo núcleo mais fiel do bolsonarismo. “Não significa que vai ser uma barbada, que eleição está ganha. É uma lição muito difícil, muito apertada, muito complexa”, declarou.
O comentarista afirmou que a campanha eleitoral ampliará a exposição dos episódios que desgastaram o candidato do PL. Ele citou o envolvimento político da família Bolsonaro com o tarifaço norte-americano e as disputas internas provocadas por Michelle Bolsonaro.
“Tudo que é prejudicial ao Flávio, que não é de conhecimento ainda total da sociedade brasileira, vai ser explorado de maneira intensa durante a eleição e vão ocasionar mais danos ao desempenho eleitoral dele. Então, daqui para frente é pior”, observou Miola no Giro das Onze.
Tarifas dos EUA podem fortalecer discurso de soberania
Outro ponto central da entrevista envolveu a tarifa de 25% anunciada pelo governo do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra milhares de produtos brasileiros. Miola classificou a medida como uma ação política e ideológica voltada contra a reeleição de Lula. “É uma petulância asquerosa? Quem são eles para serem julgadores juízes do mundo? É uma potência imperial que faz questão de demonstrar que ela tem um poder imperial e exerce esse poder”, disse.
Para o analista, as declarações de autoridades dos EUA deixaram evidente o caráter político das tarifas. Ele citou uma mensagem do secretário de Estado Marco Rubio, que responsabilizou Lula pela adoção das medidas comerciais. “Eles então estão em campanha contra a reeleição do presidente Lula. isto é o ataque que eles estão fazendo”.
O comentarista avaliou que a ofensiva pode produzir o efeito contrário ao pretendido pelo governo Trump. “Politicamente eles estão e eleitoralmente eles estão prestando um grande serviço à reeleição do presidente Lula”, declarou.
Governo brasileiro
Na entrevista ao 247, Miola defendeu que o governo brasileiro responda de forma seletiva e evite uma retaliação linear contra todos os produtos norte-americanos. Segundo ele, uma reação ampla poderia elevar preços, prejudicar consumidores e comprometer setores industriais que dependem de componentes importados. “Agora aplicar linearmente que é como o Trump tá fazendo. Aliás, o Trump fez mais exceções do que taxações. É importante a gente dizer isso”, afirmou.
Na avaliação do analista, o governo deve escolher produtos com baixo impacto sobre a inflação e sobre o consumo das famílias. “Ele vai reagir, mas vai reagir ao seu modo e com inteligência e com muito pragmatismo”, disse.
Miola concluiu que o tema da soberania deverá ocupar posição central na eleição e impor novos obstáculos à campanha de Flávio Bolsonaro. “Politicamente o governo ganhou essa agenda. Essa é a minha opinião, Gustavo. O governo já ganhou esta agenda do tarifaço”, afirmou.



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