O remake do golpismo já começou

A estratégia de esgarçamento das democracias, comandada de Washington por Donald Trump, encontrou na família Bolsonaro seu mais fiel sicofanta

por Florestan Fernandes Jr.-247
O remake do golpismo já começou Rep. publ. internet

Na terça-feira (21), Flávio Bolsonaro reuniu, em um evento privado em Brasília, cerca de 40 representantes da diplomacia de países estrangeiros para colocar em dúvida a lisura das urnas eletrônicas. Mais do que isso: conclamou esses países a enviarem “observadores” para acompanhar as eleições de outubro. A pergunta que não quer calar é: observadores de quais países? Da Argentina de Javier Milei? Do Chile de José Antonio Kast? De Israel, sob Benjamin Netanyahu? Ou de todos os governos alinhados à extrema direita subordinados aos interesses de Washington?

Ao que tudo indica, a lona do circo golpista começa a ser novamente armada em Brasília, em um remake de 2022. O roteiro parece o mesmo: preparar o terreno para contestar uma eventual vitória de Lula, recorrendo mais uma vez à falsa narrativa de fraude nas urnas eletrônicas, um sistema de votação reconhecido nacional e internacionalmente por sua segurança e eficiência.

Flávio Bolsonaro vem fazendo os primeiros ensaios para assumir o papel de protagonista desse enredo. Para isso, tem que decorar o texto do roteiro desenvolvido pelos marqueteiros trumpistas. Assim como Trump, que voltou a desacreditar as eleições nos Estados Unidos sem apresentar qualquer prova, o senador brasileiro procura adaptar para a eleição brasileira uma narrativa contra o sistema eleitoral que já produziu graves consequências para o próprio pai dele.

Que Trump critique as eleições no seu país, que utiliza um sistema arcaico de voto em papel, pode até ser compreensível. O que não se pode admitir é que Flávio Bolsonaro tente transplantar esse discurso para a realidade brasileira, atacando, sem qualquer evidência, um sistema eleitoral completamente diferente e cuja integridade jamais foi comprovadamente violada.

Para sustentar sua narrativa, o senador recorreu a um relatório da inteligência dos Estados Unidos para insinuar que o Brasil utilizaria urnas eletrônicas fabricadas na Venezuela com o objetivo de fraudar as eleições. A acusação é grave e já foi desmentida reiteradas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Como esclarece a Corte, “todo o projeto da urna eletrônica brasileira e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral do país”.

Há ainda uma evidente contradição. Nos últimos 30 anos, Jair Bolsonaro, seus quatro filhos, além de diversos aliados e familiares, foram eleitos pelas mesmas urnas eletrônicas que agora a família tenta desqualificar. Durante décadas, o sistema foi considerado legítimo enquanto produziu vitórias eleitorais para o grupo. Só passou a ser tratado como fraudulento quando deixou de atender aos interesses políticos deles.

O que se desenha é a reedição de uma estratégia conhecida: desacreditar previamente o processo eleitoral para contestar o resultado caso ele seja desfavorável. Os brasileiros já conhecem esse roteiro. Resta saber se as instituições e a sociedade estarão preparadas para impedir que ele seja encenado novamente com novos atores, novas pressões externas e os mesmos riscos para a democracia e para a nossa soberania nacional.




Ouça o áudio da Matéria





COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.