“Eu não vou para debate para ouvir bobagem”, diz Lula; veja a entrevista

Em conversa de mais de duas horas com o apresentador Rogério Vilela, Lula criticou a perseguição da Lava Jato, rechaçou o extremismo e antecipou suas diretrizes para o próximo governo

BRASIL 247
“Eu não vou para debate para ouvir bobagem”, diz Lula; veja a entrevista Lula e Rogério Vilela/Crédito: Ricardo Stuckert

Em uma das entrevistas mais amplas e reveladoras dos últimos tempos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou do podcast Inteligência Ltda. (#1894), comandado por Rogério Vilela. Durante mais de duas horas de bate-papo sem vetos ou pautas pré-combinadas, o chefe do Executivo percorreu toda a sua trajetória: da infância miserável no agreste pernambucano à liderança do maior partido de esquerda da América Latina, passando pela prisão em Curitiba, os triunfos econômicos e os desafios do governo.

Sem desviar de temas espinhosos, Lula entregou declarações de forte impacto político e eleitoral, impondo limites sobre sua participação em debates, tratando de investigações sobre familiares e analisando a disputa narrativa contra a extrema-direita e as interferências externas.

“Não vou para debate para ouvir bobagem”: A estratégia eleitoral e a crítica à baixaria

Um dos pontos mais expressivos da entrevista ocorreu quando o apresentador questionou a presença de Lula nos debates das próximas campanhas presidenciais. O presidente foi enfático ao declarar que não aceitará se submeter a espetáculos de agressão ou baixaria política destinados apenas a gerar engajamento em redes sociais.

“Eu, como presidente da República, não vou para debate para ouvir bobagem. Não vou. Depois que já estiver tudo organizado, eu quero saber qual é o nível do debate. Se for para um debate que não sirva para informar a população e politizá-la, por que eu vou? Para responder sacanagem? Fazer debate com cara que não tem compromisso com ninguém?”, declarou Lula.

Relembrando episódios recentes da política nacional, como o uso de agressões e provocações absurdas nos debates, Lula ressaltou que a política exige respeito com o telespectador. Ele enfatizou que só participará de confrontos diretos se houver regras rígidas de civilidade e foco no debate de propostas para o país.

Sem privilégios: “Se meu filho fizer coisa errada, vai se ferrar”

Ao abordar os ataques recorrentes dirigidos à sua família e as acusações lançadas ao longo dos anos contra seu filho Fábio Luís Lula da Silva (o Lulinha), o presidente falou de forma aberta e sem subterfúgios. Lula denunciou as décadas de campanhas de difamação criadas contra seus familiares e reiterou que não haverá qualquer proteção governamental ou interferência nas instituições republicanas caso haja qualquer irregularidade provada.

“Se o meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como filho de qualquer pessoa. Não haverá nenhum privilégio. Eu jamais pedirei para um delegado ou para um juiz não fazer as coisas corretas. Se ele estiver certo, ele vai se defender; se fizer coisa errada, ele sabe que vai se ferrar e vai pagar o preço”, afirmou o presidente.

Lula lembrou que seus filhos cresceram sob intensa pressão e acusações falsas — como as lendas urbanas de que seriam donos de jatos ou de gigantes do agronegócio — e recordou o impacto devastador das acusações da Lava Jato na saúde de sua falecida esposa, Dona Marisa Letícia. Ele ressaltou que aconselha constantemente seus filhos sobre a obrigação moral e ética que carregam.

Recusa ao acordo em Curitiba e a defesa da dignidade: “Não coloco tornozeleira porque não sou pombo-correio”


Ao revisitar os 580 dias em que permaneceu preso em Curitiba em decorrência dos processos da Operação Lava Jato, Lula detalhou bastidores do período e explicou por que recusou as propostas de progressão de pena para a prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.

“Eu recebi a proposta para ir para casa com tornozeleira. Me recusei. O que eu disse? Eu não troco a minha dignidade pela minha liberdade. Vou provar a minha inocência. Não coloco tornozeleira porque não sou pombo-correio e não vou para casa porque minha casa não é prisão. Quem me pôs aqui vai ter que me tirar”, relembrou.

O presidente voltou a criticar o viés político da operação e de seus condutores, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Argumentou que a Lava Jato não apenas buscou destruí-lo politicamente para impedir seu retorno à presidência, mas causou um prejuízo incalculável ao Brasil ao quebrar as maiores empresas de engenharia nacional e destruir mais de 4 milhões de postos de trabalho, quando deveria ter punido os indivíduos corruptos e preservado a estrutura produtiva do país.

Sucessão no PT e a missão de deter a extrema-direita: “Eu estou com 80 anos, queria descansar”

Respondendo aos questionamentos sobre a renovação de lideranças dentro do Partido dos Trabalhadores e a dependência em relação à sua imagem política, Lula revelou a complexidade de sua decisão de continuar na linha de frente política.

Ele admitiu que seu desejo pessoal seria usufruir de um momento de descanso ao lado da esposa, Janja, mas reforçou que o dever político com a democracia brasileira e a necessidade de barrar o avanço de forças extremistas se impõem acima de seus desejos individuais.

“Você acha que eu sou candidato porque eu quero ser? Eu estou com 80 anos, cara. O meu desejo, se eu pudesse, era descansar com a minha namorada, com a minha Janjinha. Mas o seguinte: eu não vou deixar a extrema-direita voltar. Não vou. (…) Hoje eu tenho consciência de que não tem nenhum desses candidatos que tenha competência de resolver os problemas deste país ou a respeitabilidade que nós ganhamos no mundo”, assinalou.

Relação com os EUA e soberania nacional

Sobre o cenário internacional, a interferência de atores políticos norte-americanos e a retórica da oposição em relação ao processo eleitoral e ao sistema de votação eletrônico, o presidente foi incisivo. Lula afirmou que o sistema de urnas eletrônicas brasileiro é um dos mais seguros e auditáveis do mundo, lembrando que sua própria trajetória e vitória contra as elites tradicionais são a maior prova da integridade do sistema.

A respeito das tentativas da extrema-direita em buscar apoio de figuras conservadoras nos Estados Unidos — como Donald Trump e Marco Rubio —, Lula garantiu que o Brasil manterá sua soberania altiva:

“Eles vão tentar interferir aqui, ajudando o lado de lá. Mas eu não estou preocupado com isso. Ninguém vai ganhar do Brasil mentindo. Nós vamos ganhar na narrativa. Cada mentira que contarem a respeito do Brasil, nós vamos desmascarar.”

A obsessão pela Educação e o papel do Estado


Ao fazer uma retrospectiva de sua vida desde os tempos em que era torneiro mecânico formado pelo SENAI, Lula destacou que o grande dividendo de seus mandatos presidenciais sempre foi a inclusão social e o fortalecimento do ensino público.

Lula criticou a elite histórica brasileira, que atrasou deliberadamente a criação de universidades no país para manter o povo trabalhador à margem da cidadania. Replicou dados de investimentos no ensino técnico e superior, reafirmando sua tese econômica central:

“Pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza de todos; muito dinheiro na mão de poucos é pobreza de todos. O dinheiro tem que circular. Quando você coloca dinheiro no prato do trabalhador, na bolsa do estudante, isso gira a economia, vende mais pão, mais cafezinho e gera emprego.”





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