Zarattini: “Lula mostrou a Trump que a China é uma alternativa”
Deputado afirma que pressões comerciais dos Estados Unidos têm objetivo eleitoral e defende cautela, diversificação de mercados e soberania digital
Carlos ZarattiniCrédito: Foto: Gustavo Bezerra O deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acertou ao intensificar o diálogo com a China em meio às novas pressões comerciais e políticas promovidas pelo governo dos Estados Unidos. Para o parlamentar, a aproximação com Pequim transmite a mensagem de que o Brasil dispõe de alternativas econômicas e diplomáticas diante das medidas adotadas pelo presidente norte-americano, Donald Trump.
Em entrevista à TV 247, Zarattini avaliou que a decisão de Lula de conversar com o presidente chinês, Xi Jinping, foi uma resposta à tentativa de Washington de pressionar o Brasil. A conversa entre os dois chefes de Estado ocorreu no domingo (26) e durou mais de uma hora, com discussões sobre comércio, integração econômica e a possibilidade de avanço nas negociações entre China e Mercosul.
“Eu acho que ele fez uma coisa muito acertada, que foi a ligação para Xi Jinping. Foi uma ligação importantíssima porque sinalizou também que nós temos alternativa, nós temos outros caminhos e outras possibilidades”, declarou Zarattini.
Segundo o deputado, o aumento das relações comerciais com a China reduz a vulnerabilidade brasileira diante de eventuais retaliações impostas pelos Estados Unidos. Ele ponderou, no entanto, que a diversificação de mercados precisa alcançar também os produtos industrializados, segmento que enfrenta mais dificuldades para ampliar sua presença na China e na Europa.
“De fato, o que está acontecendo é que o Brasil vem aumentando o seu comércio com a China e reduzindo com os Estados Unidos. O problema maior são os produtos industriais, que precisam encontrar mercado não só na China, como na própria Europa. Essa é a luta que a gente tem que ter para manter os produtos industriais competitivos”, afirmou.
Zarattini analisou ainda a manutenção, por Trump, dos argumentos usados para justificar as sobretaxas aplicadas contra produtos brasileiros. A ordem executiva norte-americana de 2025 havia imposto uma tarifa adicional de 40% sob alegações de perseguição política, restrições à liberdade de expressão e ameaças a cidadãos e empresas dos Estados Unidos.
Na avaliação do parlamentar, ao reafirmar os fundamentos da medida, Trump procura demonstrar que continua considerando legítimas as acusações feitas contra o Brasil e deixa aberta a possibilidade de novas ações.
“Ele sinalizou: ‘Continua tudo igual. Nós continuamos entendendo que os problemas no Brasil permanecem’. É isso que ele quis dizer, no meu modo de enxergar a questão”, disse.
O deputado considera que as tarifas não podem ser analisadas apenas como instrumentos comerciais. Segundo ele, existe uma dimensão política diretamente relacionada às eleições brasileiras de outubro e ao apoio da extrema direita internacional à candidatura de Flávio Bolsonaro.
“É evidente que há uma ação provocativa por conta das eleições. Toda a ação norte-americana é pensada em função das eleições”, afirmou.
Zarattini disse acreditar que Trump poderá adotar outras formas de pressão até o pleito, com o objetivo de produzir insegurança entre empresários, consumidores e setores do eleitorado brasileiro. Na sua avaliação, a manutenção das acusações contra o Brasil serve também para reforçar a narrativa de que Jair Bolsonaro e seus familiares seriam vítimas de perseguição política.
“Eles se colocam claramente ao lado de Bolsonaro e da família Bolsonaro. Pode ser que tenham outras medidas de retaliação contra o Brasil, porque eles vão continuar provocando”, alertou.
Diante desse cenário, o deputado defendeu que o governo brasileiro mantenha “cabeça fria” e avalie cuidadosamente o momento de qualquer resposta. Para Zarattini, uma medida precipitada poderia ser utilizada pela oposição para aumentar o temor de prejuízos econômicos ou de uma escalada nas tensões com Washington.
O parlamentar ressaltou, entretanto, que cautela não deve ser confundida com passividade. Ele mencionou como alternativa a possibilidade de o Brasil criar impostos de exportação sobre mercadorias das quais o mercado norte-americano depende e que foram poupadas das sobretaxas impostas por Trump.
Entre os produtos citados estão café, suco de laranja, carne e aeronaves. A lógica seria elevar o custo dessas mercadorias para compradores dos Estados Unidos, atingindo diretamente setores sensíveis da economia norte-americana e ampliando a pressão inflacionária interna.
“Por que os Estados Unidos excepcionalizaram esses produtos? Porque, se colocassem imposto de importação, eles ficariam mais caros para o consumidor americano e acabariam elevando a inflação. É uma proposta que precisaria ser estudada com mais detalhe. Eu acho que não é uma coisa que deve ser abandonada”, afirmou.
Zarattini avaliou que o governo Lula precisa combinar a defesa da soberania com medidas que não prejudiquem a posição eleitoral do campo governista. Segundo ele, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para ampliar alianças, definir um candidato a vice e conquistar apoio fora do núcleo mais fiel do bolsonarismo.
O deputado também apontou contradições enfrentadas pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Em sua visão, Tarcísio precisa manter o apoio da base bolsonarista, mas, ao mesmo tempo, sofre com a rejeição associada ao ex-presidente e com problemas de sua própria administração.



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