Mais da metade dos países do mundo não tem um embaixador dos EUA
O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, rebateu as críticas e disse que o secretário Marco Rubio valoriza opiniões francas de servidores comprometidos com o país
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Molly Riley/Casa Branca/DCM Não é só o Brasil. O governo de Donald Trump promoveu uma ampla reformulação nas regras de avaliação e promoção dos diplomatas americanos, medida que, segundo atuais e ex-funcionários do Departamento de Estado, enfraquece a carreira diplomática e privilegia a lealdade política em detrimento da experiência técnica.
As mudanças incluem um novo sistema de avaliações anuais que limita o número de servidores aptos a receber as notas máximas, reduzindo as possibilidades de promoção e, em alguns casos, acelerando o fim da carreira de diplomatas de longa trajetória.
Embora reconheçam que o antigo modelo precisava de reformas, atuais e ex-integrantes do Departamento de Estado afirmam que as alterações apenas criaram novos problemas. Um ex-diplomata ouvido pela NBC News afirmou que o novo sistema deixou muitos servidores “desanimados” e sem perspectivas de crescimento profissional.
O vice-secretário de Estado, Christopher Landau, defendeu as mudanças, afirmando que elas seguem a prioridade do governo Trump de aumentar a responsabilização no serviço público.
“Essa mudança restaurará a responsabilidade e garantirá que as avaliações reflitam o desempenho real, em vez de notas infladas para evitar conversas difíceis”, afirmou ao site The Daily Wire.
Estados Unidos
Os diplomatas também passaram a ser avaliados por novos critérios, que colocam a “fidelidade” como a principal característica desejável.
Para Mark Lambert, diplomata aposentado após décadas dedicadas à política para a Ásia, atrelar o sucesso profissional à lealdade política compromete a qualidade da política externa americana e ameaça alianças internacionais.
Segundo ele, o Serviço Exterior dos Estados Unidos sempre teve compromisso institucional com a Constituição, e não com governos ou partidos.
“Você é contratado pelo seu julgamento, para fornecer análises e aconselhamento, independentemente de quem esteja no poder”, afirmou à NBC.
O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, rebateu as críticas e disse que o secretário Marco Rubio valoriza opiniões francas de servidores comprometidos com o país, mas acrescentou que o governo não aceitará funcionários que “usem seus cargos para minar os objetivos do presidente democraticamente eleito”.
Especialistas ficam fora das negociações
Ex-funcionários também afirmam que diplomatas de carreira foram praticamente excluídos das principais negociações internacionais do governo Trump.
Discussões sobre as guerras na Ucrânia e no Irã passaram a ser conduzidas principalmente por Jared Kushner, genro de Trump, e pelo empresário Steve Witkoff, amigo pessoal do presidente e sem experiência diplomática.
Mark Lambert criticou essa escolha.
“Se você está lidando com China ou Rússia usando um advogado do mercado imobiliário ou pessoas que nunca negociaram com os chineses, é natural que os resultados sejam inferiores.”
Três ex-altos diplomatas disseram à NBC News acreditar que o governo evita incluir especialistas porque não deseja que suas decisões sejam questionadas.
O ex-embaixador John Bass, que serviu na Turquia, Geórgia e Afeganistão, afirmou que existe um esforço organizado para retirar dos quadros do Departamento de Estado profissionais experientes, acostumados a exercer iniciativa e oferecer avaliações independentes.
Segundo Bass, o governo interpreta qualquer demonstração de autonomia como sinal de deslealdade ou pertencimento ao chamado “Estado profundo” (deep state), mesmo quando as ações estão alinhadas às diretrizes oficiais.
O Departamento de Estado nega essa interpretação e afirma que funcionários de carreira continuam participando das decisões ao lado de indicados políticos.
Demissões em massa atingem diplomatas experientes
Durante a reestruturação promovida no ano passado, cerca de 250 diplomatas foram dispensados.
Os cortes atingiram exclusivamente servidores que estavam lotados em Washington no momento da decisão, independentemente do desempenho profissional.
Maryum Saifee, uma das diplomatas demitidas, afirmou que 247 funcionários foram dispensados apenas porque seus nomes apareciam em determinada lista administrativa.
Segundo ela, muitos já haviam sido designados para novas funções, inclusive no exterior, e alguns chegaram a ser promovidos após receberem as cartas de demissão.
As notificações informavam que a dispensa não estava relacionada ao desempenho, mas sim à inexistência de trabalho disponível. Ao mesmo tempo, o Departamento de Estado iniciou o recrutamento de novos diplomatas.
Após quase um ano de disputas judiciais, as demissões foram oficialmente confirmadas neste mês.



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