Celso Amorim recomenda acelerar uso da Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos
Assessor especial da Presidência defende resposta mais rápida do Brasil às medidas comerciais adotadas por Washington e avalia que estratégia dos EUA não está produzindo os resultados esperados
rep. publ. internet O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, defendeu que o governo brasileiro acelere os procedimentos para a aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica contra os Estados Unidos. A medida seria uma resposta às ações comerciais adotadas por Washington contra produtos e interesses brasileiros e sinalizaria que o Brasil está disposto a utilizar os instrumentos disponíveis para defender sua economia.
A informação foi publicada nesta segunda-feira (17) pelo jornal Valor Econômico. Segundo o relato, Amorim considera que o governo deve agir rapidamente diante das medidas norte-americanas e avalia que a estratégia comercial adotada pelos Estados Unidos não vem produzindo os resultados pretendidos.
A posição do principal assessor internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforça uma linha que vem sendo adotada pelo governo brasileiro diante das pressões comerciais externas: preservar o diálogo e a negociação diplomática, mas sem abrir mão de mecanismos de defesa dos interesses nacionais quando medidas unilaterais atingirem o país.
Reciprocidade como instrumento de defesa
A Lei de Reciprocidade Econômica oferece ao Brasil instrumentos para reagir a medidas unilaterais adotadas por outros países que prejudiquem a competitividade brasileira ou estabeleçam tratamento considerado prejudicial aos interesses econômicos nacionais.
A recomendação de Amorim é relevante justamente porque parte de um dos principais formuladores da política externa do governo Lula.
Ex-chanceler e atual assessor especial da Presidência, Amorim participa diretamente das discussões estratégicas sobre a inserção internacional brasileira e tem defendido uma política externa baseada em autonomia, multilateralismo e preservação da soberania nacional.
A eventual utilização da lei contra os Estados Unidos representaria uma mudança de patamar na reação brasileira às medidas comerciais de Washington.
Em vez de restringir a resposta às negociações diplomáticas, o Brasil passaria a preparar instrumentos concretos de reciprocidade.
Governo busca preservar capacidade de reação
A defesa da reciprocidade não significa necessariamente abandonar as negociações.
Ao contrário, a existência de instrumentos de resposta pode ampliar a capacidade negociadora do Brasil ao demonstrar que medidas contra produtos brasileiros poderão gerar consequências comerciais.
A estratégia procura evitar uma relação assimétrica na qual apenas um dos lados imponha restrições enquanto o outro permanece limitado à tentativa de negociação.
Para o governo Lula, a defesa do multilateralismo também passa pela rejeição a decisões comerciais unilaterais capazes de enfraquecer as regras internacionais.
Nesse sentido, a Lei de Reciprocidade funciona como uma salvaguarda para situações nas quais os mecanismos tradicionais de diálogo não sejam suficientes.
Amorim avalia que estratégia americana não funciona
Outro elemento importante da avaliação de Amorim é a percepção de que as ações comerciais dos Estados Unidos não estão alcançando os resultados pretendidos.
A política tarifária adotada pelo presidente norte-americano Donald Trump provocou mudanças nos fluxos internacionais de comércio e levou diferentes países a procurar mercados alternativos.
O Brasil está inserido diretamente nesse processo.
O fortalecimento das relações comerciais com a China e outros parceiros reduz a dependência brasileira do mercado norte-americano e amplia a margem de manobra do país diante de eventuais barreiras impostas por Washington.
Dados recentes da balança comercial brasileira apontam justamente nessa direção. As exportações vêm crescendo em 2026, apesar da redução da participação relativa dos Estados Unidos entre os destinos dos produtos brasileiros.
A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), por exemplo, elevou sua projeção para o superávit comercial brasileiro de US$ 68,2 bilhões para US$ 94,1 bilhões neste ano.
Esse cenário ajuda a explicar por que medidas destinadas a pressionar comercialmente o Brasil podem produzir efeitos menores do que os inicialmente esperados.
Diversificação comercial amplia margem brasileira
A capacidade de resposta do Brasil está diretamente relacionada à diversificação de seus parceiros.
Nas últimas décadas, a China assumiu posição central no comércio exterior brasileiro, enquanto outros mercados da Ásia, do Oriente Médio e do Sul Global também ganharam relevância.
Essa transformação reduz o peso relativo dos Estados Unidos na pauta exportadora.
Produtos estratégicos como petróleo, soja e minério de ferro encontram grande demanda em mercados asiáticos, especialmente na China.
Petróleo e soja podem superar individualmente US$ 50 bilhões em exportações brasileiras em 2026. Somados ao minério de ferro, os três produtos poderão gerar aproximadamente US$ 146 bilhões em receitas externas.
Essa estrutura não elimina os impactos de eventuais barreiras norte-americanas sobre setores específicos, empresas e trabalhadores brasileiros. Mas aumenta a capacidade do país de absorver choques e procurar destinos alternativos para sua produção.
Brasil tenta evitar relação comercial assimétrica
A recomendação de Amorim também se insere em uma discussão mais ampla sobre soberania econômica.
O governo Lula tem defendido que o Brasil mantenha boas relações com Estados Unidos, China, União Europeia e demais polos da economia mundial sem se alinhar automaticamente a nenhuma potência.
A reciprocidade comercial é coerente com essa orientação.
Se um parceiro adota medidas que afetam produtos brasileiros, o governo precisa dispor de instrumentos capazes de proteger setores nacionais e aumentar seu poder de negociação.
O objetivo não é necessariamente desencadear uma escalada comercial, mas deixar claro que decisões unilaterais poderão encontrar uma resposta proporcional do Brasil.
A própria existência dessa possibilidade pode funcionar como elemento de pressão para a retomada das negociações.
Lei ganha importância no cenário internacional
A discussão ocorre em um ambiente internacional marcado pelo crescimento do protecionismo e pela utilização crescente de tarifas como instrumento de política econômica e geopolítica.
A competição entre as grandes potências vem alterando regras que durante décadas orientaram o comércio mundial.
Nesse contexto, países como o Brasil enfrentam o desafio de preservar mercados sem abrir mão de autonomia.
Uma estratégia exclusivamente defensiva pode deixar economias emergentes vulneráveis a decisões tomadas pelas grandes potências. Por outro lado, respostas precipitadas podem gerar custos para exportadores e consumidores.
A aplicação da Lei de Reciprocidade exige, portanto, avaliação dos setores atingidos, dos possíveis instrumentos de reação e das consequências econômicas de cada medida.
A posição manifestada por Amorim indica que, em sua avaliação, o momento exige maior rapidez nessa preparação.
Soberania e negociação
Desde o início de seu atual governo, Lula tem procurado reconstruir uma política externa baseada na diversificação das relações internacionais e na defesa de maior participação dos países emergentes na governança mundial.
A ampliação do BRICS, o fortalecimento das relações Sul-Sul e a aproximação com países asiáticos fazem parte dessa estratégia.
Ao mesmo tempo, o Brasil procura preservar uma relação relevante com os Estados Unidos, um dos principais parceiros econômicos e políticos do país.
A defesa da reciprocidade não elimina essa relação. Ela estabelece, porém, um limite para a aceitação de medidas consideradas prejudiciais aos interesses brasileiros.
A recomendação de Celso Amorim sinaliza que o governo Lula poderá acelerar a preparação de uma resposta concreta caso as pressões comerciais norte-americanas persistam, combinando negociação diplomática com a disposição de utilizar os instrumentos previstos na legislação brasileira para proteger os interesses econômicos e a soberania do país.



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