Míriam Leitão: Flávio Bolsonaro tenta enganar eleitores e Faria Lima ao mesmo tempo
Senador copia propostas de Lula para atrair endividados enquanto promete corte bilionário ao mercado, aponta a jornalista
rep. publ. internet/Míriam Leitão O cenário econômico da disputa eleitoral transformou-se em uma arena de populismo fiscal, impulsionado por um movimento em que o candidato Flávio Bolsonaro (PL) reproduz e amplia as bandeiras sociais do presidente Lula (PT) sem respaldo em levantamentos técnicos, aponta a jornalista Míriam Leitão em sua coluna no jornal O Globo. A postura do parlamentar constitui um leilão de ofertas demagógicas voltadas a capturar a simpatia do eleitorado, ao mesmo tempo em que acena em conversas reservadas com a Faria Lima garantindo a execução de um arrocho severo nas contas públicas.
A formulação apresentada pelo Poder Executivo para quitar pendências de pessoas endividadas apoia-se em parâmetros delimitados por estudos de sua equipe. A medida governamental planeja a compra, via Tesouro Nacional, de dívidas bancárias e não bancárias com valor inicial de até R$ 10 mil e com tempo de atraso situado entre dois anos e quatro anos e meio. Por meio de um certame competitivo no qual o governo exigirá abatimentos de no mínimo 90% dos credores, o plano projeta alcançar um universo de R$ 150 bilhões em dívidas, gerando um custo total na casa dos R$ 15 bilhões aos cofres públicos.
Na contramão de um planejamento prévio, o representante do PL apoderou-se da pauta do adversário durante o debate transmitido pela Rede Bandeirantes, mas elevou as promessas com acréscimos sem fundamentação, destaca Míriam Leitão. Ele declarou que, além de resgatar os débitos, concederá moratória total nos boletos pendentes pelo período de seis meses para pessoas físicas e de um ano para pessoas jurídicas. Segundo o projeto improvisado pelo senador, o saldo remanescente seria refinanciado pela Caixa Econômica Federal, reduzindo prestações de R$ 100 ou R$ 200 para valores na faixa de R$ 20 a R$ 30.
Como destaca a jornalista em sua análise, a proposta bolsonarista carrega um viés enganoso e confuso por não estabelecer qualquer restrição de limite financeiro ou temporal para a concessão do benefício, criando um impacto financeiro incalculável. A ausência de critérios visa atrair a totalidade dos inadimplentes do país — um contingente formado por 84 milhões de pessoas que acumulam R$ 592 bilhões em pagamentos atrasados.
Em paralelo ao discurso de ampliação de custos sociais, o candidato garante aos atores do mercado financeiro um corte de despesas da ordem de R$ 200 bilhões já no primeiro ano de gestão. Flávio Bolsonaro chegou a alegar que esses recursos viriam do combate aos supersalários — uma iniciativa que o próprio governo Lula tentou aprovar no Congresso sem obter análise dos parlamentares, culminando em intervenções do Judiciário que, na prática, expandiram os tetos de remuneração. Conforme pontua a colunista, mesmo na hipótese de eliminação imediata desses privilégios, a economia gerada não atingiria sequer 10% do montante prometido aos investidores.
Durante a transmissão na Band, o congressista formulou a seguinte justificativa para o alívio orçamentário: “o simples fato de Flávio Bolsonaro virar do primeiro para o segundo turno na frente, a taxa de juros futuros já caiu 2%. Com essa dívida que o atual governo está deixando de R$ 11 trilhões, se você fizer uma conta rápida, com Flávio Bolsonaro presidente da República, muito rapidamente você já vai ter um espaço no orçamento de R$ 200 bilhões. Sabe o que eu vou fazer com isso? Eu vou ajudar você a pagar a sua dívida”.
A tese de utilizar a diminuição teórica no encargo da dívida pública para bancar expansão de gastos representa um contra-senso econômico e monetário que provocaria reação imediata da Faria Lima caso partisse de Lula, assinala Míriam Leitão. A conduta do candidato da extrema-direita apoia-se em desvio de perguntas diretas, na repetição de saídas ineficazes para a segurança pública, em ataques frente a acusações de corrupção que envolvem o clã Bolsonaro e na duplicação de propostas econômicas do adversário. A estratégia de pregar o oposto no debate público e nos encontros com o mercado serve para mascarar o perigo real que a candidatura representa para as instituições democráticas.



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