Afinal, quem é Flávio Bolsonaro? Senador ou miliciano?
‘Rejeitar a candidatura de Flávio Bolsonaro é rejeitar as milícias que ele tem patrocinado’, escreve o colunista João Lister
rep. publ. internet por João Lister, advogado
Um mandato parlamentar se explica também pelas pessoas que escolhe homenagear, pelos nomes que acolhe no gabinete e pelos interesses que recebem sua atenção. É sob esse critério que a trajetória de Flávio Bolsonaro precisa ser examinada. O discurso de combate ao crime exige coerência com a própria atuação pública.
Em 2003, Flávio homenageou Adriano da Nóbrega com uma moção de louvor. Em 2005, concedeu-lhe a Medalha Tiradentes quando o policial estava preso preventivamente, acusado de homicídio. Posteriormente, o Ministério Público apontou Adriano como chefe do Escritório do Crime e liderança miliciana. Sua mãe e sua ex-esposa trabalharam no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio.
Ronald Paulo Alves Pereira também recebeu homenagem parlamentar, em 2004. Mais tarde, foi condenado a 56 anos de prisão pelo planejamento do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.
Já no Senado, Flávio destinou R$ 200 mil, em 2023, a um projeto esportivo na Taquara. Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicaram que o pedido passou por Robson Calixto Fonseca, o Peixe, posteriormente condenado por integrar organização criminosa armada. Nas conversas, ele chamava Flávio de “nosso Senador”.
Flávio sustenta que as homenagens reconheciam serviços policiais, atribui contratações a assessores e afirma que suas emendas seguem critérios técnicos.
Essas explicações precisam enfrentar a pergunta central: quais critérios orientaram suas escolhas?
As justificativas de Flávio são impertinentes, porque, para fazer homenagens ou enviar recursos a pessoas e organizações, é necessário realizar uma pesquisa cuidadosa sobre o histórico dos homenageados e das instituições beneficiadas, além de manter acompanhamento posterior. Se essas pessoas ou organizações vieram a cometer crimes ou atos ilícitos depois das homenagens, por que Flávio não propôs a cassação das homenagens que antes havia deferido?
Reconhecer o trabalho das forças de segurança é legítimo. Justamente por isso, uma homenagem pública exige responsabilidade. Uma medalha oferece prestígio institucional; um cargo envolve recursos do contribuinte; uma emenda demanda fiscalização. Nenhum desses atos pode ser tratado como gesto sem consequência.
A pergunta colocada no título — se Flávio é um senador ou um miliciano — é facilmente respondida, ao menos à luz das companhias que escolheu manter e dos interesses que seu mandato serviu. Os amigos com quem Flávio anda e trabalha são, segundo os episódios aqui reunidos, todos milicianos, e o cargo de senador por ele ocupado sempre esteve a serviço dessas milícias.
Quem promete enfrentar o crime precisa demonstrar independência diante de seus operadores. Quem pede confiança pública deve aceitar o exame de suas relações e escolhas.
A sociedade tem o direito de perguntar por que esses nomes aparecem em sua trajetória parlamentar. E Flávio tem o dever político de responder com documentos, critérios e esclarecimentos verificáveis. A autoridade para falar de segurança começa pela disposição de prestar contas.
Por isso, um candidato à Presidência da República que carrega um histórico de homenagens e vínculos políticos com pessoas posteriormente associadas a milícias, como no caso de Flávio Bolsonaro, não demonstra, por esses antecedentes, a autoridade moral e política necessária para pleitear o cargo mais alto do país. Permitir que alguém com esse histórico chegue à Presidência significaria correr o risco de levar para o centro do Estado brasileiro não apenas um indivíduo, mas toda uma rede de relações e interesses ligada a grupos milicianos.
Rejeitar a candidatura de Flávio é rejeitar as milícias que ele tem patrocinado e com as quais tem se relacionado. O Brasil precisa dizer não à milícia.



COMENTÁRIOS