Prospectando o cenário eleitoral para presidente
Polarização avança, voto defensivo cresce e disputa deve se concentrar nos 20% de eleitores ainda não consolidado
rep. publ. internet/Oliveiros Marques, sociólogo A polarização, como demonstram as pesquisas recentes e os debates que se intensificam na sociedade, não apenas permanece como tende a se aprofundar à medida que o calendário eleitoral avança. Não há sinais de arrefecimento; ao contrário, o ambiente político indica consolidação de identidades e redução do espaço para deslocamentos bruscos entre campos ideológicos.
Esse cenário aponta para uma eleição presidencial fortemente marcada pela chamada “rejeição projetada”. Em outras palavras, parcela relevante do eleitorado deverá votar menos por entusiasmo e mais por prevenção. O voto tende a ser, em muitos casos, uma escolha defensiva: afasta-se aquilo que se percebe como ameaça antes de se abraçar integralmente um projeto.
Medo, incerteza e dúvidas em relação ao futuro devem orientar a decisão da pequena fração de eleitores que ainda não foi plenamente capturada pela lógica binária. Essa parcela, hoje, dificilmente ultrapassa 20% do eleitorado. Isso significa que as campanhas disputarão, de forma efetiva, cerca de 1 em cada 5 brasileiros. Os demais já se encontram relativamente consolidados em seus campos, onde a comunicação serve mais para reafirmar do que para converter.
É nesse segmento que reside a chave da disputa. Para esses eleitores, a variável central não é ideológica, mas pragmática. O que pesa é a percepção de estabilidade. A pergunta que orienta o voto não é “qual projeto me entusiasma?”, mas “qual cenário oferece menos risco à minha vida e da minha família?”.
Nesse contexto, a candidatura governista de Lula parte com vantagem competitiva relativa. Não se trata de entusiasmo generalizado, mas de comparação concreta. Ao contrário do que parte da análise sugere, as entregas do governo não são irrelevantes. Elas podem não produzir euforia, mas funcionam como parâmetro objetivo. Mesmo críticos reconhecem indicadores como geração de emprego, previsibilidade econômica e retomada de políticas públicas. Entre os não ideologizados, a decisão tende a ser racional: evitar a instabilidade percebida em um eventual retorno de Bolsonaro.
Isso não significa que a campanha deva se apoiar apenas em uma vitrine de realizações. A disputa não se dará em formato de checklist administrativo. As entregas operam como lastro narrativo - um colchão de credibilidade sobre o qual se constrói o argumento central: estabilidade versus imprevisibilidade.
O movimento predominante entre os não polarizados pode ser sintetizado como a busca por um “futuro seguro”. Mesmo com críticas ao atual governo, a percepção tende a privilegiar previsibilidade institucional em detrimento de cenários associados a conflito permanente ou tensão política.
Isso torna a eleição simples para Lula? De forma alguma. A vantagem existente hoje não parece estruturalmente superior a cinco pontos percentuais. Em um ambiente polarizado e altamente mobilizado, pequenas variações podem alterar o ritmo da disputa.
A possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno existe. Porém dependerá da ausência de uma candidatura de centro capaz de ganhar musculatura ao longo da campanha. Caso o campo oposicionista permaneça fragmentado, o primeiro turno torna-se plausível. Contudo, a emergência de um nome competitivo pode empurrar a eleição para a segunda etapa. Entre os atores colocados, é possível que algum deles apresente potencial para tensionar essa dinâmica no campo de centro-direita. Poderia, em tese, forçar o segundo turno. Ainda assim, mesmo nesse cenário, não necessariamente alteraria o desfecho final - apenas modificaria o percurso até ele.
Em síntese, a eleição presidencial se desenha menos como disputa de promessas e mais como comparação de riscos. Em tempos de incerteza, o eleitor tende a escolher aquilo que julga mais previsível. E é nessa fronteira estreita que se decidirá o futuro político do país.





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