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Teresina,04/03/2026

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Mearsheimer: vitória de Trump na guerra contra o Irã é impossível

Analista geopolítico afirma que Israel empurrou os Estados Unidos para uma derrota inevitável no Oriente Médio

Brasil247
Mearsheimer: vitória de Trump na guerra contra o Irã é impossível John Mearsheimer (Foto: Universidade de Chicago)

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã tende a se transformar em um impasse estratégico sem saída para Washington, com objetivos inalcançáveis e um conceito de “vitória” que não se sustenta no campo militar nem no terreno político. A avaliação é do professor John Mearsheimer, em entrevista ao juiz Andrew Napolitano no programa Judging Freedom, publicada no YouTube na terça-feira, 3 de março de 2026.

Ao analisar o conflito em “visão de conjunto”, Mearsheimer sustentou que os objetivos anunciados são, na prática, impossíveis de cumprir. “Não há como vencermos esta guerra de maneira significativa”, disse. E resumiu a lógica que, segundo ele, favorece Teerã: “Tudo o que os iranianos precisam fazer é sobreviver, e eles vencem. E eu acho que eles vão sobreviver. Então… estamos em profunda encrenca.”

Metas confusas e discurso errático do governo

Questionado se o governo do presidente Donald Trump foi capaz de articular um objetivo moralmente fundamentado, juridicamente sólido ou militarmente atingível, Mearsheimer respondeu de forma direta. “Não, eles não conseguiram explicar qual é o objetivo de maneira coerente”, afirmou, acrescentando que Trump teria oscilado rapidamente entre justificativas diferentes para a ofensiva.

Na entrevista, Napolitano também chamou atenção para contradições no discurso oficial, com autoridades alternando versões sobre se o ataque configura ou não uma guerra, e justificativas que variam entre “defesa”, “prevenção” e “mudança de regime”. Para Mearsheimer, essa instabilidade reflete ausência de estratégia e fragilidade política. “Guerra é um empreendimento incrivelmente complicado… cheio de consequências não intencionais”, advertiu.

Trump subordinado e Israel “no banco do motorista”

Mearsheimer afirmou que discutir metas “americanas” é quase secundário porque, em sua leitura, os Estados Unidos não controlam o rumo do conflito. “A questão presume que nós estamos dirigindo o trem… O fato é que os israelenses estão no banco do motorista. Isso é muito claro”, declarou.

O professor citou o comentarista Tucker Carlson ao relatar uma conversa com Trump, na qual o presidente teria dito que “não tinha escolha” a não ser ir à guerra. No trecho exibido por Napolitano, Carlson descreve a ofensiva como uma decisão israelense à qual Washington aderiu para “ajudar ou conter” a escalada, afirmando que dizer “não” a Israel “nunca esteve na mesa”.

Na avaliação de Mearsheimer, esse arranjo empurra os EUA para uma rota de colisão estratégica. “Trump está efetivamente seguindo ordens”, afirmou, ao sustentar que os objetivos relevantes a observar são os de Israel, não os de Washington.

O precedente de 2024 e a diferença entre Biden e Trump

Mearsheimer lembrou episódios de 2024 em que, segundo ele, Israel tentou “puxar” o governo Joe Biden para um confronto direto com o Irã, mas não conseguiu. Ele citou ataques israelenses que levaram a trocas de mísseis entre os dois países e disse que, embora os EUA tenham ajudado a defender Israel, a administração Biden não entrou em ataques diretos ao Irã.

Já sob Trump, o professor afirmou que os Estados Unidos teriam ido além da defesa e entrado em ações ofensivas, citando a “guerra de 12 dias” em junho de 2025 e, agora, uma “campanha de bombardeio em grande escala” contra o Irã.

Sem base moral e sem base legal

Napolitano perguntou se haveria uma justificativa moral para a invasão. Mearsheimer foi categórico: “Não.” Em seguida, reforçou: “Nem há uma base legalmente sólida para essa invasão, tanto em termos de direito doméstico quanto de direito internacional.”

O apresentador citou, como exemplo, a ideia de “mudança de regime” como motivo insuficiente do ponto de vista do direito internacional — e Mearsheimer concordou. Questionado sobre o comportamento de Trump diante das leis, o professor atacou o unilateralismo do presidente: “Trump não se importa com o direito internacional e não se importa com a lei aqui nos Estados Unidos. Ele é um unilateralista. Ele simplesmente faz o que quer… e sente que a lei é algo que pode ser ignorado quando for conveniente.”

Por que “mudança de regime” vira o eixo do plano

Mearsheimer argumentou que, embora se fale em destruir mísseis balísticos, eliminar o enriquecimento nuclear e cortar apoios regionais do Irã, nada disso se sustentaria sem derrubar o governo em Teerã. “Você não consegue fazer nenhuma dessas coisas a não ser que tenha mudança de regime”, disse.

Segundo ele, mesmo que alvos militares sejam atingidos, a infraestrutura seria reconstruída se o regime permanecer. “Se você entra e destrói os mísseis… eles simplesmente vão reconstruir esses ativos”, afirmou. Para o professor, o plano depende de duas crenças difíceis de sustentar: conseguir derrubar o governo iraniano e instalar outro que abandone mísseis, enriquecimento e alianças regionais. “Eu acho impossível montar uma história plausível” que leve a esse desfecho, concluiu.
Custos, arsenais e o impacto em outras frentes

Ao ser questionado sobre o custo de concentrar grande aparato militar, Mearsheimer disse que o valor exato só ficará claro ao fim da operação, mas que será “uma soma enorme”. Para ele, o impacto no estoque de armas pode ser tão relevante quanto o gasto financeiro.

“Até que ponto vamos reduzir nosso inventário de armas e quais são as consequências disso para a guerra da Ucrânia e para uma guerra — ou possível guerra — no Leste Asiático contra a China?”, perguntou, sugerindo que Pequim observaria com interesse o desgaste simultâneo dos EUA em diferentes teatros.

O professor também rejeitou a hipótese de um governo iraniano “subserviente” a Washington após eventual troca de regime. “Isso é um devaneio”, disse. Ainda assim, avaliou que a China tenderá a “fazer grandes esforços” para ajudar o Irã a resistir ao longo do tempo.

Escalada regional, “botas no chão” e risco extremo

Ao discutir como a guerra pode evoluir, Mearsheimer descreveu um cenário em que o conflito se estenda por semanas, com o regime iraniano sobrevivendo e continuando a atacar bases americanas e Israel, enquanto os EUA enfrentariam desgaste de munições e possível mudança de opinião pública contra Trump. “O que ele vai fazer então? É muito difícil dizer”, afirmou.

O professor relembrou a campanha de Trump contra os Houthis, que teria começado com promessas de “acabar com eles” e terminado com uma retirada. Para Mearsheimer, a grande dúvida é se Trump conseguiria “ir embora” no caso iraniano, dado o vínculo estreito com Israel.

Ele avaliou que enviar tropas terrestres pioraria tudo: “Isso só tornaria uma situação ruim ainda pior.” E alertou para um risco extremo caso Teerã se sinta diante de uma ameaça existencial: atacar infraestrutura de petróleo no Golfo, fechar o Estreito de Hormuz e provocar “enorme dano” à economia global.

Contradições oficiais e a aposta em uma narrativa impossível

Perto do fim, Napolitano exibiu uma montagem com justificativas divergentes vindas de autoridades do governo. Mearsheimer classificou parte das declarações como “absurdas” e criticou a confiança excessiva exibida por integrantes do gabinete.

“Quando você entra em uma guerra, você nunca quer fazer esse tipo de afirmação ousada”, disse. E afirmou que o tom de hubris amplia o risco de Washington terminar “do lado mais fraco” do confronto.

Ao longo da entrevista, Mearsheimer retornou repetidamente ao mesmo ponto: sem uma estratégia vencedora, sem base legal e moral e com a aposta na “mudança de regime”, o governo Trump se aproxima de um impasse histórico. “Eu não vejo qual é um final feliz para o presidente Trump”, afirmou. “Quase toda história que ele pode contar, eu acho que consigo derrubar com facilidade.”




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