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Teresina,04/03/2026

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A traição de Tarcísio: como o governador despertou a ira das polícias

Com orçamentos cortados, efetivos reduzidos e equipamentos vencidos, as quatro polícias, que o apoiaram em peso, agora se unem para denunciar o abandono de Tarcísio

ICL NOTÍCIAS
A traição de Tarcísio: como o governador despertou a ira das polícias rep. publ. internet/ICL

Por Ricardo Mello e Patrícia Penzin

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) conseguiu um feito que poucos imaginariam quando ele subia nos palanques bolsonaristas: uniu as polícias de São Paulo. Não em torno de seu projeto de estado, mas sim contra uma gestão que sucateou a segurança pública e desvalorizou as carreiras policiais. Logo as polícias, que apoiaram Tarcísio em peso nas eleições passadas.

Na terça-feira passada (24/02), representantes das polícias Científica, Civil, Militar e Penal se uniram em um protesto contra Tarcísio no vão livre do Masp.

O objetivo foi mostrar à sociedade o sucateamento da segurança pública no estado, que compromete desde o policiamento ostensivo, realizado pela Polícia Militar, até a análise forense feita pela Polícia Científica, passando pela perda de capacidade investigativa e pelo colapso no sistema prisional paulista.

O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) foi além e espalhou, em cidades do interior do estado, do Vale do Paraíba e do litoral, outdoors para escancarar o descaso de Tarcísio com a segurança pública e a polícia.

O sucateamento atinge todas as forças policiais. A Polícia Civil opera no estado com uma defasagem de 34% (14.377), segundo dados de outubro de 2025 divulgados pelo Sindpesp. Na prática, isso significa menos delegacias abertas, menos policiais investigando e redução na capacidade de elucidar crimes.

Polícia Civil

“Em 2025, mais de 1,4 mil servidores deixaram a polícia e isso compromete diretamente a qualidade das investigações e o combate ao crime organizado. Aqui na Baixada Santista, há redução de delegacias abertas nos plantões noturnos e nos finais de semana”, detalha Renato Martins, presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Santos e região (Sinpolsan).

A Polícia Científica, que deveria ser a inteligência por trás da elucidação de crimes, hoje opera sob um regime de sobrevivência que assusta. Segundo Bruno Lazzari, presidente do Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (SINPCRESP), o investimento na instituição despencou quase 78% desde o início da gestão, saindo de R$ 47 milhões em 2022 para uma projeção de apenas R$ 10,2 milhões em 2026.

É um desmonte tão planejado que as licenças de softwares fundamentais para extrair dados de celulares apreendidos simplesmente venceram e só foram renovadas na Capital. Todo o interior do estado, onde vivem mais de 20 milhões de pessoas, está descoberto.

Lazzari afirma que o orçamento de 2026 é o cenário do caos e destaca que a categoria chegou ao pior nível da série histórica com uma queda de 94% na capacidade de compra de tecnologia. “Estamos assistindo ao apagão da prova material e se o perito não tem ferramentas, o criminoso volta para a rua pela porta da frente”, alerta.

Mágoa e traição

A situação na Polícia Militar, que sempre foi o porto seguro do bolsonarismo, revela o quanto essa briga entre Tarcísio e a polícia é profunda.  O tenente da reserva Paulo Torres, presidente da Comissão de Estudos de Assuntos de Interesse dos Policiais Militares de São Paulo (CEPM), não usa metáforas para se referir ao governador. “Fomos traídos. Prometeram valorização da carreira e simetria salarial, mas não cumpriram”, desabafa. Ele garante que, hoje, nenhuma corporação policial apoia o governador na busca pela reeleição.

Polícia Militar de São Paulo

Torres conta que há uma verdadeira debandada da PM paulista em decorrência dos baixos salários e das condições de trabalho. “No ano passado, 950 policiais pediram exoneração. O salário inicial da PM paulista, cerca de R$ 5 mil, é o 25º pior do ranking nacional”, afirma.

Segundo o presidente da CPEM, o sucateamento ultrapassa o déficit de policiais. A situação é tão precária que policiais estão trabalhando com coletes balísticos vencidos e revezando equipamentos.  “Enquanto o Rio de Janeiro investe 17% do PIB do estado em segurança pública, São Paulo investe apenas 6%. O resultado é sentido por toda população. Chama uma viatura para você ver a demora. Isso acontece não por ‘corpo mole’ do policial, mas porque não tem efetivo e toda sociedade paga o preço”, conclui.
Táticas da ditadura

Torres faz duras críticas à gestão de Tarcísio à frente da segurança pública no estado. Ele acusa o ex-secretário Guilherme Derrite de replicar táticas da ditadura militar para controlar a tropa. E cita que Maluf, durante os ‘anos de chumbo’, privilegiava oficiais do topo como forma de “segurar a tropa”. Segundo o tenente, o punitivismo excessivo contra os policiais que criticam o governo voltou a ser replicado na gestão Tarcísio. “Eu estou aposentado há 10 anos e fiquei dois dias preso por ordem de Derrite por criticar a gestão. Esse tipo de coisa é típico da ditadura militar”, denuncia.

Na Polícia Civil, a palavra que define o sentimento geral é decepção. “Durante a campanha, ele demonstrou conhecer de perto a nossa realidade e se comprometeu com a valorização, mas nada mudou. Na verdade, a situação está ainda pior”, comenta Renato Martins, presidente do Sinpolsan.

A delegada Jacqueline Valadares, presidente do Sindpesp, crítica a falta de diálogo com as entidades e diz que “a Polícia Civil de São Paulo, hoje, vive de postagens do governador”. “Sem cumprir o prometido, falar em combate às organizações criminosas é, tão somente, retórica política populista”, afirma.

Crise dentro e fora das grades

O sistema prisional também caminha para o colapso sob o olhar indiferente de Tarcísio. A Polícia Penal viu seu efetivo cair 20% enquanto o número de presídios aumentou, gerando uma sobrecarga que facilita a autogestão das facções criminosas dentro dos pavilhões.

Há unidades prisionais operando com computadores que ainda rodam o Windows 95, a falta de scanners corporais e o sucateamento das viaturas da SAP é uma realidade constante. Segundo o Sindicato dos Policiais Penais de São Paulo (Sinppenal), aproximadamente um terço da frota da SAP está inservível, expondo os policiais a mais riscos.

O Sindicato acredita que o sucateamento tem um objetivo oculto: justificar a entrega do sistema para a iniciativa privada por meio de parcerias público-privadas. “O governo sucateia deliberadamente para depois vender a ideia de que a privatização é a única saída, enquanto nossos policiais trabalham em condições insalubres e adoecem diariamente. Sem contar com o amparo do estado para cuidar da saúde mental, muitos companheiros acabam tirando a própria vida. Em dois meses de 2026, já tivemos dois suicídios”, afirma Fábio Jabá, presidente do Sinppenal.

Ele destaca que o risco para os policiais penais é iminente e que a segurança das unidades está por um fio. “A Polícia Penal, que votou em peso no governador, foi abandonada e esquecida por Tarcísio. Nossos companheiros estão sofrendo com a sobrecarga de trabalho e o estresse de uma profissão que precisa lidar diariamente com todas aquelas pessoas que oferecem risco à sociedade e estão confinadas em um espaço de superlotação e precariedade. Os problemas da profissão são muitos, mas nem isso sensibiliza o governo a valorizar os policiais”, diz.

Essa insatisfação transbordou para a Assembleia Legislativa, onde até a chamada bancada da bala começou a disparar contra o governador. Deputados como Major Mecca e Capitão Telhada agora cobram publicamente as promessas de campanha que foram esquecidas no fundo de alguma gaveta palaciana.

“O prazo para que o governo do Estado conceda reajuste ao funcionalismo público paulista está se esgotando, visto que a legislação eleitoral veta, a governantes, autorização de aumentos a partir de 180 dias antes do pleito. Faltam menos de dois meses para essa ‘janela’ se fechar.  Esse é o tempo que o governador Tarcísio tem para demonstrar que realmente pretende valorizar os policiais no seu mandato e cumprir a promessa que fez à classe em sua campanha”, conclui Jaqueline Valadares.

Em nota o Governo de São Paulo afirmou que os servidores das polícias Militar, Civil e Científica acumularam reajuste superior a 45% no mandato de Tarcísio, e citou a criação de programas de atendimento de saúde e moradia aos policiais. (leia a nota na íntegra abaixo)

O Sindpesp, no entanto, divulgou nota afirmando que Tarcísio mente em uma estratégia para desviar o foco de reivindicação. “Na conta desses 45%, então inclusos 20% referentes a 2022, quando o governador ainda era João Doria. Para a gestão de Tarcísio (2023/2026), sobram 25% — concedidos de 2023 a 2025”, diz a nota.

O governo afirma ainda que foram contratados 15 mil policiais no período, relata estar com concursos abertos para contratações nas polícias Civil, Militar e Penal, enumera investimentos em infraestrutura e a compra de armas (17 mil), coletes balísticos (50 mil), além de 3,4 mil viaturas, um helicóptero e 15 mil câmeras corporais.

Sobre a queixa da Polícia Técnico-Científica de redução de orçamento, o governo afirma que o orçamento para 2026 é 10% maior que o do ano passado. A nota do governo também nega que haja computadores desatualizados nos presídios e afirma que há escâneres corporais em todas as unidades.

Nota do Governo de São Paulo

A Secretaria da Segurança Pública mantém diálogo permanente com as entidades representativas e reconhece a importância das carreiras policiais. Entre 2022 e 2025, policiais civis, militares e da SPTC acumularam reajuste salarial de 45,2% e receberam R$ 1,1 bilhão em bônus por produtividade. A atual gestão também instituiu jornada diferenciada para gestantes e lactantes, parceria com o Hospital Sírio-Libanês para atendimento aos policiais, e o programa Moradia Segura, com cartas de crédito habitacional de até R$ 300 mil.

Desde o início da gestão, foram contratados 15 mil novos policiais. Mais de 470 delegados e 3.097 policiais militares estão em formação, e há concursos abertos para 1.250 vagas na Polícia Civil e 2.205 na Polícia Militar. Na área estrutural, 154 prédios policiais foram construídos ou ampliados, com investimentos em inteligência, tecnologia e equipamentos. Nos últimos três anos, foram adquiridas quase 17 mil armas, mais de 50 mil coletes balísticos, 3,4 mil viaturas, um helicóptero e 15 mil câmeras corporais.

O orçamento da SPTC para 2026 é 10% superior ao de 2025. O efetivo foi reforçado com 532 novos agentes e a instituição recebeu investimentos em reformas e ampliações, incluindo a inauguração, em 2024, do maior laboratório de balística da América Latina. Como resultado, em 2025 o Estado de São Paulo registrou os menores índices de homicídios e latrocínios desde 2001, com aumento da produtividade: mais de 219,3 mil infratores presos, 206 toneladas de drogas apreendidas e 14 mil armas ilegais retiradas de circulação.

No sistema prisional, todos os presídios contam com escâneres corporais, aparelhos de raios X e equipes treinadas para impedir a entrada de ilícitos. Está em andamento concurso para 1.100 policiais penais. Os computadores administrativos utilizam sistemas atualizados e, nesta gestão, foi inaugurada uma nova unidade prisional.




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