Entrevista exclusiva: ‘Brasil não vendeu sua soberania para Trump’, diz vencedor do Nobel

Economista Joseph Stiglitz elogiou comportamento do governo Lula e denunciou abalo causado por Trump no direito internacional

ICL NOTÍCIAS
Entrevista exclusiva: ‘Brasil não vendeu sua soberania para Trump’, diz vencedor do Nobel economista norte-americano Joseph Stiglitz

O Brasil não vendeu sua soberania para Donald Trump e acertou na resposta que deu ao chefe da Casa Branca. A avaliação é do norte-americano Joseph Stiglitz, vencedor do prêmio Nobel.

Em entrevista exclusiva ao ICL Notícias, um dos principais economistas do mundo chancelou a forma pela qual o governo de Luiz Inácio Lula da Silva optou por desafiar a ofensiva do republicano, tanto no que se refere às tarifas quanto aos ataques contra o país.

“O que Trump fez foi romper com todos os aspectos do direito comercial internacional, assim como quebrou o direito internacional de forma mais geral, com as guerras”, afirmou Stiglitz.

Em sua avaliação, são as camadas menos favorecidas nos EUA que vão sofrer mais com as políticas de Trump no comércio, com produtos mais caros.

“As consequências econômicas serão mais sentidas de forma desproporcional pelos pobres”, disse. “Trata-se de um imposto sobre os americanos pobres, o americano médio. E isso aumenta a desigualdade”, insistiu.

Stiglitz destaca como essa realidade é traduzida numa crise de renda e da capacidade de o cidadão ter a capacidade de arcar com seus custos. “As pessoas nas camadas mais baixas estão tendo dificuldades reais para conseguir arcar com as necessidades mais básicas”, disse.

O economista ainda aponta como Trump passou a usar as tarifas de forma política. Interferindo em assuntos domésticos de outros países, como no caso de Jair Bolsonaro e o Brasil. Em meados de 2025, a Casa Branca anunciou que impostos sobre produtos brasileiros tinham sido colocados por conta da suposta perseguição da Justiça contra o ex-presidente, condenado por tentar dar um golpe de estado.

“No final, ele (Trump) entendeu que as tarifas sobre carne estavam custando enormemente aos americanos, assim como suco de laranja e café”, disse. “É o Starbucks”, ironizou. “Ele teve de retirá-las. Ele anunciou essas tarifas. Mas silenciosamente e sem dizer para ninguém, retirou metade delas. Fico insustentável politicamente”, avaliou.

Para Stiglitz, o Brasil adotou o tom certo para desafiar os EUA.

“Lula reagir exatamente da forma correta dizendo: não vamos vender nossa soberania nacional por um pouco de comércio. Não se pode comprar nossa soberania, que é o que outros países fizeram”, disse.

Concentração

O economista tem assumido um papel fundamental na construção de um consenso internacional sobre a necessidade de se combater a desigualdade. Nesta semana, em Genebra, ele se reuniu com representantes dos governos da Noruega, Brasil, Espanha e África do Sul para começar a implementar a ideia de um Painel Internacional capaz de diagnosticar o desafio da desigualdade e propor medidas concretas para que o mundo possa lidar com esse fenômeno.

Para o vencedor do prêmio Nobel, “não são as leis da natureza” que geraram a profunda injustiça social que existe hoje no mundo. “São as leis dos homens que fizeram isso”, insistiu.

Nos EUA, a taxa de concentração bate todos os recordes. Seus dados apontam que um terço da riqueza do país está hoje nas mãos de 1% da população.

Segundo ele, nos últimos 25 anos, 41% da riqueza gerada no mundo foi destinada à camada de 1% mais rica do planeta. Os 50% mais pobres ficaram com apenas 1% da renda gerada no mundo neste período.

“Em números, isso significa que, em média, os mais pobres viram seu patrimônio aumentar em média em US$ 585,00”, disse Stiglitz. “Já os mais ricos tiveram um incremento de suas rendas de US$ 1,3 milhão”, afirmou.

Outro aspecto destacado pelo economista é que essa concentração continua, com um processo de herança. “Vivemos uma plutocracia”, disse. “Na próxima década, US$ 70 trilhões vão passar de mãos para herdeiros daqueles que acumularam essa riqueza”, afirmou.

Stiglitz ironiza diante da incapacidade de o mundo distribuir riqueza e de lidar com a desigualdade.

“A decisão mais importante que uma pessoa pode tomar é a de escolher seus pais. Se você errar nessa, vai ficar difícil”, brincou.




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