Depoimento em CPI aponta para descaso do Banco Central de Campos Neto

Vladimir Timerman afirmou ao Senado que alertou o BC e a CVM sobre operações ligadas ao Banco Master, à Gafisa e a precatórios

ICL NOTÍCIAS
Depoimento em CPI aponta para descaso do Banco Central de Campos Neto rep. publ. internet/CAMPOS NETO

Por Cleber Lourenço



O funcionamento do sistema de fiscalização do mercado financeiro
brasileiro entrou na mira do Congresso nesta quarta-feira (18). Em
depoimento prestado na tarde de hoje à CPI do Crime Organizado, o
advogado Vladimir Timerman afirmou que o Banco Central,
durante a gestão de Roberto Campos Neto, deixou de agir diante de
alertas e denúncias que, segundo ele, poderiam ter antecipado a
identificação de irregularidades relevantes no sistema.


Fundador da gestora Esh Capital, Timerman atua no mercado financeiro e
apresentou-se à comissão como alguém que acompanhou de perto as
operações sob suspeita. Ao longo do depoimento, buscou sustentar que
levou alertas formais às autoridades reguladoras antes da eclosão do
caso, sem que houvesse, segundo ele, resposta efetiva por parte dos
órgãos responsáveis.


“Se tivessem prestado atenção no que eu falei, teriam evitado”, disse
Timerman, ao resumir a crítica que dirigiu ao Banco Central ao
reconstituir a sequência de denúncias feitas sobre a estrutura do Banco
Master e sobre operações envolvendo precatórios, fundos e ativos ligados
ao universo de Daniel Vorcaro e Nelson Tanure.


A escolha do alvo não foi casual. Ao longo do depoimento, Timerman
procurou sustentar que o problema não surgiu por falta de aviso, mas
apesar dos avisos. E, ao falar do Banco Central, deixou claro que se
referia ao período em que a instituição era comandada por Roberto Campos Neto.
Na narrativa apresentada por ele aos senadores, o BC recebeu alertas
formais sobre a estrutura societária em torno do Master e sobre
operações que inflariam artificialmente balanços, mas não reagiu com a
velocidade necessária para interromper a escalada do caso.


Foi a partir daí que o depoimento avançou para um segundo eixo: a
atuação da Comissão de Valores Mobiliários. Se, de um lado, Timerman
disse ter alertado o Banco Central sobre o que considerava
irregularidades graves, de outro afirmou que a CVM já vinha recebendo,
desde anos antes, informações sobre operações ligadas à Gafisa que, na
visão dele, antecipavam o modelo que depois apareceria no Banco Master
em escala maior.


O resultado foi um depoimento que não mirou apenas os operadores
privados e os fundos sob suspeita, mas também o comportamento dos órgãos
que tinham o dever de fiscalizar. O argumento central é politicamente
explosivo: segundo Timerman, o sistema regulatório foi avisado, teve
acesso a elementos relevantes e, mesmo assim, deixou o problema avançar.


O Banco Central no ponto de partida do depoimento


Ao falar do Banco Central, Timerman tentou desmontar a tese de que o
caso Master teria surpreendido a supervisão financeira. Segundo ele,
houve uma primeira denúncia ao BC apontando que Nelson Tanure era, “no
mínimo”, sócio do Banco Master. Depois, afirmou ter formalizado uma
segunda denúncia, desta vez centrada nas operações com precatórios.


O ponto mais forte da exposição dele foi justamente o de que o Banco
Central não teria recebido apenas boatos, ruído de mercado ou suspeitas
vagas. Na versão apresentada à CPI, o órgão foi formalmente alertado
sobre a estrutura em torno do banco e sobre mecanismos que, segundo ele,
ajudavam a inflar artificialmente o balanço da instituição.


Foi nesse contexto que Timerman lançou uma das perguntas mais pesadas
do depoimento: como uma estrutura cercada por esse tipo de alerta
prévio conseguiu seguir operando sem um freio regulatório duro? Ao
formular a questão, ele mirou diretamente o período em que Roberto
Campos Neto chefiava o Banco Central e sugeriu que a reação da
autoridade monetária foi insuficiente diante da gravidade do que estava
sendo comunicado.


A crítica não ficou apenas no plano abstrato. Timerman disse que
procurou o Banco Central com informações concretas e reclamou da falta
de escuta institucional. Em um dos trechos mais contundentes da fala,
resumiu sua frustração com a frase: “Se tivessem prestado atenção no que
eu falei, teriam evitado”. A afirmação virou, na prática, o fio
condutor da acusação de fiscalização tardia.


As denúncias sobre precatórios


O capítulo dos precatórios foi usado por Timerman como a parte mais
didática da explicação sobre o que, na visão dele, sustentava
artificialmente o Banco Master. Segundo o depoente, certos ativos eram
adquiridos por um valor e depois revendidos ou reavaliados por cifras
muito superiores, produzindo ganho contábil sem lastro econômico
compatível.


Ao traduzir a lógica que atribui ao mecanismo, Timerman foi direto:
“O dinheiro era desviado antes de entrar no banco”. A frase foi usada
para sustentar a tese de que a estrutura não começava no banco em si,
mas em operações anteriores, com ativos problemáticos ou superavaliados,
que depois alimentariam uma aparência de solidez patrimonial.


Na narrativa levada à CPI, essa aparência de solidez permitia ampliar
a captação, sobretudo com CDBs, e manter a engrenagem em funcionamento.
Ou seja, o banco pareceria mais robusto do que realmente era, o que
abriria espaço para entrada de dinheiro novo e postergação do
reconhecimento dos problemas.


Para dar concretude ao argumento, Timerman citou um exemplo
específico. Segundo ele, um fundo comprou um ativo por R$ 136 milhões e,
cinco dias depois, vendeu esse mesmo ativo por R$ 320 milhões. O caso
foi apresentado como evidência de geração artificial de valor no papel.
Não era, portanto, uma crítica genérica ao mercado de ativos
estressados, mas uma acusação de uso deliberado desses instrumentos para
inflar resultados e sustentar a operação.


A mudança de regra depois do alerta


Outro ponto relevante do depoimento foi a tentativa de associar as
denúncias ao Banco Central a uma mudança regulatória posterior. Timerman
afirmou que, 29 dias depois da denúncia sobre precatórios, o BC
publicou a resolução 346, que passou a dificultar esse tipo de operação
ao exigir consolidação nos fundos.


A leitura feita por ele é clara: a mudança não seria prova de rigor
preventivo, mas de reação tardia. Em outras palavras, o problema já
estaria posto quando a autoridade monetária apertou a regra. Ao
mencionar a edição da resolução, Timerman procurou sugerir que o Banco
Central já sabia da gravidade do tema, mas só endureceu a norma quando a
situação havia avançado demais.


Ele também afirmou que, no âmbito do inquérito policial relacionado à
Gafisa, o Ministério Público oficiou o Banco Central em junho de 2024 e
que a resposta do órgão teria indicado, em essência, que os fatos já
eram conhecidos. Ao usar esse episódio, reforçou a principal linha de
sua fala: havia ciência prévia, mas isso não se traduziu em ação
suficiente para conter o caso.


O que ele disse sobre a CVM


Se o Banco Central entrou no depoimento como símbolo de reação
tardia, a CVM apareceu como alvo de acusações ainda mais diretas.
Timerman afirmou que vinha levando à autarquia, desde 2019, informações
sobre operações ligadas à Gafisa e a estruturas que, segundo ele, depois
reapareceriam no caso Master.


Na linha do tempo apresentada à CPI, um dos marcos decisivos foi um
parecer técnico de 22 de novembro de 2022. Segundo o depoente, esse
documento já apontava uma série de desvios e recomendava a abertura de
inquérito administrativo. Ainda assim, afirmou que o inquérito só foi
aberto 473 dias depois.


Esse número foi usado por Timerman para sustentar a tese de que a CVM
não apenas soube do problema, mas levou tempo demais para transformá-lo
em medida concreta. A crítica, portanto, não ficou restrita ao mérito
técnico da fiscalização. Ela recaiu diretamente sobre a demora da
autarquia em agir.


O episódio mais ruidoso envolvendo a CVM, porém, foi o relato de uma
reunião realizada em 13 de fevereiro de 2023 com o então presidente da
autarquia. Segundo Timerman, depois de apresentar o material que vinha
reunindo, ouviu a seguinte frase: “Você reclama muito da CVM. Então a
gente vai colocar os processos no fundo do escaninho”.


Ao reproduzir a fala, o depoente tentou mostrar que sua relação com a
autarquia foi marcada por resistência e desdém, e não por acolhimento
institucional. A frase também serviu para reforçar a ideia de que o
denunciante foi tratado como incômodo, não como alguém que levava sinais
relevantes ao regulador.


Acusação de atraso nas investigações


Timerman elevou o tom ao máximo quando passou a descrever o papel da
CVM no avanço do caso. Em um dos trechos mais duros do depoimento,
afirmou que a autarquia é “mais culpada” na parte de “não investigar, de
bloquear, de mentir para a Polícia Federal”.


A frase é central porque desloca a crítica da mera ineficiência para
um plano muito mais grave. Na versão apresentada por ele, a CVM não
falhou apenas por lentidão burocrática, mas por não agir, por não
bloquear e por atrapalhar a circulação de informações relevantes às
autoridades de investigação.


Na mesma linha, Timerman disse que havia um parecer técnico mostrando
que, se aquele material tivesse chegado à Polícia Federal com
antecedência e recebido a devida atenção, “a gente não teria o Banco
Master, como foi”. A frase tem peso político porque condensa sua
principal tese: o caso poderia não ter atingido a proporção atual se os
alertas tivessem sido tratados com seriedade em tempo hábil.


O depoente também afirmou que a denúncia feita por ele foi vazada e
que chegou a ser ameaçado. Disse ainda que a resposta encaminhada pela
CVM à Polícia Federal sobre investigações envolvendo Gafisa e Nelson
Tanure retardou o avanço das apurações. Na lógica da fala dele, houve
mais que demora: houve comportamento institucional capaz de travar o
curso da investigação.


Da Gafisa ao Master


Timerman insistiu em conectar as denúncias sobre a Gafisa ao caso
Banco Master. Na visão exposta à CPI, a Gafisa teria funcionado como uma
espécie de laboratório do método que depois apareceria de forma mais
robusta no banco.


Ao fazer essa conexão, ele buscou mostrar que o problema não era um
episódio isolado, mas um modelo. Esse modelo, segundo o depoente,
envolveria ativos difíceis de rastrear, fundos com camadas sucessivas,
estruturas opacas e dificuldades para identificar os beneficiários
finais do dinheiro. A consequência disso, na narrativa apresentada por
ele, foi a formação de um ambiente em que a supervisão pública ficou
atrás dos fatos.


Essa ligação entre Gafisa e Master também serviu para reforçar a
crítica à atuação dos reguladores. Se os sinais estavam aparecendo
antes, e se havia denúncias desde 2019, então a tese de surpresa
regulatória perde força. Foi exatamente esse o raciocínio que Timerman
tentou construir perante os senadores.


Um depoimento sobre falha institucional


No fim das contas, o depoimento de Vladimir Timerman foi menos uma
peça sobre um banco específico e mais uma denúncia sobre o funcionamento
do sistema de fiscalização. Ao mirar o Banco Central na gestão Roberto
Campos Neto e a CVM com igual intensidade, ele ofereceu à CPI uma
narrativa de omissão, demora e reação tardia.


A estrutura montada por ele é clara. Primeiro, havia denúncias sobre a
Gafisa. Depois, surgiram alertas mais diretos sobre o Banco Master. Em
seguida, vieram os avisos sobre precatórios e sobre a composição
societária em torno do banco. Mesmo assim, segundo o depoente, os órgãos
responsáveis falharam em agir quando ainda havia espaço para contenção.


Isso ajuda a explicar por que o depoimento teve impacto político
imediato. Ele deslocou o foco da comissão: em vez de discutir apenas
quem operou a engrenagem financeira, os senadores passaram a ter em mãos
uma narrativa sobre quem viu a engrenagem se formar e, segundo
Timerman, não a impediu.


Cronologia do que Timerman disse na CPI


2019

Timerman afirmou que começou a levar à CVM denúncias ligadas à Gafisa e a
estruturas que, segundo ele, depois reapareceriam no caso Master.


22 de novembro de 2022

Segundo o depoente, um parecer técnico da CVM já recomendava abertura de inquérito administrativo.


13 de fevereiro de 2023

Timerman disse que se reuniu com o então presidente da CVM e apresentou o
material que vinha reunindo. Segundo ele, ouviu que os processos iriam
para o “fundo do escaninho”.


Após a reunião de fevereiro de 2023

Segundo sua fala, foi formalizada ao Banco Central uma denúncia
apontando que Nelson Tanure era, no mínimo, sócio do Banco Master.


Depois disso

De acordo com o depoente, foi feita uma segunda denúncia ao Banco Central, desta vez sobre a questão dos precatórios.


29 dias após a denúncia sobre precatórios

Timerman afirmou que o Banco Central publicou a resolução 346, dificultando esse tipo de operação.


Junho de 2024

Na narrativa apresentada à CPI, o Ministério Público oficiou o Banco
Central no inquérito de Gafisa, e a resposta do órgão reforçaria que os
fatos já eram conhecidos.


Esse encadeamento foi usado por Timerman para sustentar, perante a
CPI, que o problema avançou não por ausência de alerta, mas apesar dos
alertas.




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