Michelle, quem diria, virou item de pesquisa

Como podemos verificar, nesse grupo do núcleo bolsonarista, Flávio ainda leva vantagem, mas espanta a concordância dos petistas com o vídeo de Michelle

por Denise Assis/247
Michelle, quem diria, virou item de pesquisa QUAEST

Por Denise Assis, jornalista

Nos seus mais megalômanos sonhos de adolescente, quando precisava se fantasiar de pacote de macarrão no supermercado onde trabalhava, Michelle Bolsonaro não deve ter imaginado que não só teria uma passagem pelo poder, ao lado do marido — ex-presidente da República —, como também um dia viraria subitem de pesquisa de um renomado instituto. Pois eis que, na avaliação divulgada hoje pela Genial/Quaest, ela não só consta nessa condição como é motivo para um capítulo inteiro, de 12 lâminas.

Não. Não me cobrem sororidade com Michelle Bolsonaro. Há limites na minha alma para seguir o politicamente correto. Não consigo fazer a boazinha nessas horas ou a consciente de ocasião.

À pergunta feita aos entrevistados na pesquisa sobre se souberam da existência da postagem de seu vídeo nas redes sociais, 51% responderam que não, contra 49% que disseram que sim, que souberam da postagem. Isso num universo de entrevistados que ajudaram a compor uma pesquisa sobre a escolha de um novo presidente. Não é pouca coisa.

Eu, por minha vez, vi o tal vídeo, contei os tais 27 minutos e, sim, também prestei atenção aos detalhes semióticos do ambiente ao redor. Sim, também fiquei tentando ler as palavrinhas bíblicas da comportada camisa azul-marinho que ela vestia. E, claro, observei a maquiagem sóbria.

Tudo isso sem perder uma palavra do texto bem construído e visivelmente escrito, no mínimo, a quatro mãos. Se as suas participaram, não sei afirmar. Porém, afirmei, assim que pude, que o seu plano não era 2030. Michelle estava se colocando à disposição desde já, porque sabe muito mais do que o comentarista da GloboNews Merval Pereira, que ontem afirmou no ar que Flávio será inviabilizado por ter, palavras dele, “envolvimento com o crime organizado”.

O jornalista não só fez a afirmação como apertou o presidente do PL — rubro e suarento. Por que será? —, Valdemar Costa Neto, querendo arrancar dele um nome para a provável substituição de Flávio no meio do jogo da pré-candidatura. Valdemar, ensaboado, escorregou e mudou o rumo da prosa. Vale destacar que Merval não falaria uma coisa grave como essa se não tivesse obtido antes alguma informação que o respaldasse. Ali, ele era a voz, mas também a voz do dono da voz. Não cabiam conjecturas.

Talvez tenha tomado conhecimento do mesmo conteúdo que Michelle já conhecia quando fez o vídeo. Certo é que ela se colocou para o jogo. E se lançou ao mar sem boia. É agora ou em 2030, mas Michelle está no páreo, queira o marido ou não. E, a julgar pela carta que veio a público no fim de semana, elevando Flávio Bolsonaro à condição de seu porta-voz, seu Jair ficou aborrecido, como já vazou para a mídia, e fez a opção preferencial pelo filho. O que não é muito usual em homens apaixonados. Ou não estaria mais o seu Jair tão apaixonado assim como quando a viu refletida no espelho do gabinete do deputado que ocupava o do lado do seu?

Certo é que, voltando aos dados da pesquisa da Quaest, que, como disse, ocupa 12 páginas com Michelle, apenas 33% souberam do vídeo-resposta produzido por Flávio Bolsonaro, pedindo desculpas à madrasta, enquanto 67% disseram não ter tomado conhecimento do gesto dele. Quando questionados se ela errou ou acertou ao tomar tal atitude, 45% disseram que ela acertou; 38%, que ela errou; e 17% não souberam ou não responderam. Um sintomático apoio.

É importante verificar essa lâmina sobre o desentendimento. 42% ficaram ao seu lado, enquanto apenas 18% ficaram ao lado de Flávio.

Mas fica muito interessante verificar a lâmina da página 83, em que a pergunta afunila e propõe: pelo que você sabe desse desentendimento, você tende a concordar mais com Michelle ou com Flávio? Foram 64% os lulistas que responderam concordar com Michelle. Dos independentes, 38%; da direita bolsonarista, 28%; entre os bolsonaristas, 19%. Vamos combinar que ela teve bastante apoio. Enquanto isso, Flávio recebeu 4% dos lulistas; 5% da esquerda não lulista; 11% dos independentes; 30% da direita não bolsonarista; e, como era de se esperar, 53% de apoio dos bolsonaristas raiz.

Como podemos verificar, nesse grupo do núcleo bolsonarista, Flávio ainda leva vantagem, mas espanta a concordância dos petistas com o vídeo de Michelle.

Como eu disse no início, a minha sororidade não vai a tanto. É difícil esquecer a imagem de Michelle ajoelhada no gramado do Alvorada, recebendo aqueles destrambelhados que se ensoparam na chuva durante dias a fio, esperando o milagre da multiplicação de faixas presidenciais. Também é difícil esquecer a promessa de 72 horas do general Braga Netto, que se encontra preso e condenado por ter tramado contra a democracia.

É difícil acreditar que ela comia à mesma mesa que o líder do golpe que mataria o eleito Luiz Inácio Lula da Silva sem que soubesse do que estava sendo tramado. Impossível esquecer a informação de que Michelle mandou esvaziar o lago do palácio para catar até o último centavo existente ali, pouco se importando com as raras carpas japonesas, ofertadas pelo império daquele país ao Brasil, enquanto elas se estrebuchavam até a morte.

Por fim, é difícil crer na mulher que foi flagrada em lojas de grife gastando a rodo e depois apontou o dedo para a primeira-dama Janja da Silva, acusando-a, em suas redes sociais, de viajar com muitas malas e lançando no ar outras aleivosias. E aí a gente pergunta: e a sororidade? Prefiro, nesse caso, não a ter.

A pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-07181/2026. Foi realizada entre os dias 10 e 13 de julho. Foram entrevistados presencialmente 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais. A margem de erro estimada é de 2 pontos percentuais. As margens de erro por grupo sociodemográfico estão informadas na página 4 do relatório.




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