Flávio e o cálculo da radicalização

Isso, porém, não altera o risco de derrota nos dois turnos

por Leopoldo Vieira, jornalista - 247
Flávio e o cálculo da radicalização rep. publ. internet

Desde seu lançamento, a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro convive com a contradição entre mobilizar uma base mais radicalizada e agregar um percentual decisivo de votos do eleitorado em disputa, segmento formado por indecisos, independentes, moderados e pela direita não-bolsonarista que rejeita exatamente esse tipo de sinalização, como se observa atualmente nas pesquisas. No entanto, a experiência recente sugere que é do público fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro que Flávio precisa para garantir presença no segundo turno.

Na etapa final, o confronto direto entre lulismo e bolsonarismo tende a intensificar a polarização, mobilizando uma competição entre o sentimento antipetista e o antibolsonarista para definir a eleição, o que pressionará nomes alternativos ao senador a apoiá-lo ou a sofrer a acusação de trair a direita. Essa pressão, por sua vez, tem potencial para arrastar bases à revelia de seus líderes, como Renan Santos e os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

Nesse sentido, mesmo sob revezes na esteira do tarifaço americano ou do desgaste com o caso do Banco Master, Flávio, sob o ponto de vista de seus objetivos, pode estar acertando ao voltar a criticar o sistema eleitoral, recusar escolta da Polícia Federal (PF) e adotar outras posturas consideradas extremistas.

Especialistas internacionais em pesquisas alertam que os números devem estar mais apertados do que os divulgados, uma vez que, segundo eles, são crescentes as dificuldades dos institutos para acessar o eleitorado conservador e prever o tamanho da abstenção, embora tenha sido amenizado, nos levantamentos deste ano, o efeito da defasagem demográfica observado em 2022, causado pela desatualização do Censo. Na opinião desses especialistas, ao contrário do pensamento tradicional, pesquisas telefônicas e online têm obtido mais êxito em captar as intenções de voto.

TEMPERATURA E PRESSÃO


Em paralelo, mudaram as condições que, nos últimos anos, favoreceram a captura do sentimento antissistema pelo bolsonarismo, conforme um estudo do Observatório de Política Eleitoral (OPEL), da UFRJ, baseado em 80 grupos focais realizados em 13 capitais entre abril e julho.

Embora persista o mal-estar com o cotidiano, os participantes demonstraram maior ceticismo em relação a discursos de ruptura imediatista e soluções simplificadas, ao mesmo tempo em que revalorizaram o papel do Estado e das políticas públicas. O estudo também indicou uma percepção de que as dificuldades do país decorrem de fatores múltiplos e de responsabilidades compartilhadas, e não apenas da atuação do governo federal. Além disso, por razões que não se restringem à economia ou às entregas de sua gestão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva largará de um patamar de aprovação que, estatisticamente, tende a favorecer a reeleição de incumbentes, enquanto preserva um discurso capaz de disputar com a oposição pautas populares tradicionalmente associadas a ela, como a segurança pública, suprindo uma lacuna da esquerda latino-americana em derrotas recentes.

Lançada em dezembro de 2025, a candidatura do senador Bolsonaro provocou reação negativa do mercado financeiro, descrente de sua competitividade diante do presidente Lula. A data ficou conhecida como #FlavioDay e frustrou a expectativa de um acordo pelo qual o ex-presidente Bolsonaro ficaria inelegível, mas em prisão domiciliar, em troca de apoiar a candidatura do governador Tarcísio de Freitas.

Ao radicalizar seu posicionamento, Flávio dá coesão à sua base fiel, mobiliza-a para a campanha, aproxima culturalmente segmentos do eleitorado em disputa que permaneceram com ele e, apesar da possibilidade de neutralidade do Centrão, prepara-se para marchar sobre setores financeiros e empresariais que discordam ou ainda resistem à sua candidatura. Um acontecimento catártico de reconciliação entre o senador e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, como já começa a ser esperado, poderia injetar ânimo no processo.

Isso, porém, não altera o risco de derrota nos dois turnos, caso continue empurrando contra si o pêndulo da disputa, ora em direção à soberania nacional, ora ao combate à corrupção — ou também passe a defender um ajuste fiscal estrutural nos termos recomendados por economistas da Faria Lima, disparando contra si o gatilho do sentimento antissistema ressignificado pelo lulismo.




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