Michelle à espreita, ardilosa

No jogo de traições reais e perdões falsos entre os Bolsonaro, ex-primeira-dama ganha tempo para assumir candidatura de extrema-direita quando Flávio desmoronar

por Marco Damiani Marco Damiani, editor especial 247
Michelle à espreita, ardilosa Representação, gerada por IA, de Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro/Crédito: Brasil 247/DALL-E

“Cada coisa a seu tempo”. Foi com essa frase enigmática, logo após encerrar sua participação por vídeo na convenção do PL, no sábado (25), que Michelle Bolsonaro reagiu ao questionamento de um interlocutor sobre o seu futuro político. Ela acabara de completar o movimento que a devolverá para a posição de presidente do PL Mulher — uma máquina com capilaridade nacional —, e ainda saboreava a repercussão do seu perdão para inglês ver a Flávio Bolsonaro, concedido na antevéspera. No campo da extrema-direita, a ex-primeira-dama está poderosa outra vez, retomando as condições para escolher qual cargo quer disputar nas eleições de outubro.

A candidatura ao Senado pelo Distrito Federal está garantida e fortalecida. Nas projeções feitas por um experiente analista político, porém, o destino pode ser outro. Após fazer a sua parte pela salvação momentânea de Flávio, Michelle agora retomará a postura de observadora das crescentes dificuldades do enteado. Quanto pior para ele, melhor para ela. Já se fala, nos bastidores, no nome dela como a substituta ideal para assumir o lugar de Flávio caso o derretimento do agora candidato do PL se acelere. As pressões neste sentido só crescem.

Para assumir uma candidatura presidencial em nome da família Bolsonaro, Michelle poderá vir a ocupar até mesmo a posição de vice na chapa do partido, que não conseguiu realizar alianças com as legendas do centrão. A alternativa para uma chapa puro-sangue do PL está colocada também para a ex-presidente da Caixa Daniela Marques, que discursou na convenção do partido, mas que não conta, até agora, com o apoio do presidente Valdemar da Costa Neto. “Daniela não tem votos”, apontou.

Os cálculos dos que veem Michelle participando da corrida presidencial acreditam que a troca do filho 01 pela mulher seria adequada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Ardilosa e dissimulada, a ex-primeira-dama é vista, desde sempre, como a substituta ideal para manter o sobrenome familiar na disputa no caso, bastante plausível, de Flávio ser inviabilizado. Nove entre dez raposas políticas de Brasília acreditam que, no decorrer da campanha, mais denúncias de ligações perigosas de Flávio com esquemas criminosos estão por surgir. Igualmente, a expectativa inclui a divulgação de um vídeo constrangedor ao candidato da extrema-direita.

Na hipótese de Flávio tornar-se insustentável, cenário possível desde maio, quando ficaram conhecidos os áudios das conversas sobre dinheiro grosso entre ele e o banqueiro Daniel Vorcaro, Michelle passará à condição de candidata da corrente bolsonarista, com todos os riscos ao País e males à sociedade que essa condição acarreta. A perspectiva de disputar o poder a partir do campo fascista foi o principal elemento para ela gravar seu vídeo de perdão a Flávio. Não há sinceridade ali, apenas um cálculo político frio e objetivo.

Faz de conta, agora, que o clã está unido, com divergências superadas. Também foi calculado por Michelle manter distância segura do nome tóxico do agora candidato oficial do PL, participando de longe, apenas por vídeo, do encontro partidário. Nem tão distante nem tão perto, agora ela está presente para “unir exércitos” em torno de uma possível nova configuração eleitoral. A qualquer momento, por renúncia ou nova decisão partidária, o 01 pode cair fora.

“Lula tem em Flávio um adversário desgastado e incapaz de ultrapassar os graves problemas de sua candidatura”, diz um observador da cena. “Michelle poderia surgir embalada como fato político novo, apesar de não ser nenhuma novidade”.

Por esta ótica, e em meio ao desespero da direita de estar perdendo a eleição para Lula, segundo todas as pesquisas, a mulher do capitão seria uma chance melhor, ainda que incerta, de tentar levar Jair Bolsonaro a cumprir sua prisão domiciliar no Palácio da Alvorada, a residência oficial da Presidência da República. Como se diz em Brasília, em validação à possibilidade de toda essa reviravolta acontecer, “besouro não voa, mas voa”.




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