"O destino do Brasil cabe apenas aos brasileiros", afirma Lula em artigo ao The Washington Post
Presidente Lula publicou, no jornal The Washington Post, um artigo em resposta ao tarifaço de Donald Trump
Luiz Inácio Lula da Silva/Crédito: Ricardo Stuckert O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou um artigo no jornal The Washington Post sobre as novas tarifas aplicadas aos produtos brasileiros pelo governo dos Estados Unidos. Lula escreveu que deseja continuar um comércio bilateral justo com os EUA, mas que o presidente Donald Trump não pode interferir nas eleições brasileiras.
"Estamos prontos para continuar a manter um diálogo aberto e construtivo, como exige a relação entre dois países como o Brasil e os Estados Unidos. Mas o destino do Brasil cabe apenas aos brasileiros determinar — sem interferência estrangeira ou subserviência", escreveu.
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De acordo com o presidente brasileiro, o governo norte-americano ignorou as reuniões, argumentos e documentos entregues pessoalmente por Lula para evitar novas tarifações aos produtos brasileiros importados pelos EUA.
"As negociações entre nós, junto com decisões da Suprema Corte dos EUA, desmontaram a versão inicial das amplas medidas tarifárias. Ainda assim, neste mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre nossas equipes, argumentos técnicos sólidos e documentos que eu pessoalmente entreguei ao presidente Trump, o governo dos EUA impôs novas tarifas ao Brasil, variando de 12,5% a 37,5%", explicou.
Lula enfatizou ainda que, por causa dessa decisão, o nível de exportação para os EUA é o menor desde 1997 e outros países se ofereceram para comprar os produtos taxados por Trump.
"As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o nível mais baixo desde 1997. Comparando os primeiros seis meses de 2025 e 2026, o comércio bilateral com os EUA diminuiu 12,8%, enquanto o comércio do Brasil com a União Europeia cresceu 6,1% e o comércio com a China aumentou 15,9%", argumentou.
Lula afirma estar preocupado, porque as indústrias dos EUA dependem de diversos produtos brasileiros para suas produções. "Além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: prejudicarão a economia dos EUA e a parceria dos EUA com o Brasil. Vários setores industriais dos EUA dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, peças automotivas e muitos outros produtos ficarão mais caros para os consumidores americanos", disse.
No artigo, o presidente Lula ainda argumenta que as justificativas para o novo tarifaço — de 25% e 12,5% — são injustas e infundadas, e o país vai continuar a defender seu povo nas redes sociais.
"A liberdade de expressão não é um passe livre para atividades criminosas nas redes sociais — não desistiremos de proteger nossas famílias e crianças da ganância de um punhado de oligarcas da tecnologia. Nosso sistema de pagamentos, o PIX, não discrimina empresas americanas e é referência internacional em infraestrutura pública digital. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, começamos a combater agressivamente os crimes ambientais e a reduzir drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros", afirmou.
Embate ideológico
O artigo escrito pelo presidente Lula começou acusando Trump, ao defender que a motivação das tarifas contra o Brasil é de caráter ideológico político. Afirmou que restrições ideológicas ou uso delas para "fins eleitoreiros" não terão sucesso. E ainda frisou que "nunca antes" um secretário de Estado dos EUA havia declarado que Brasil não é amigo dos Estados Unidos. "Ninguém nos derrotará com mentiras", escreveu.
"Há um ano, fiquei surpreso com a publicação, em uma plataforma digital, de uma carta do presidente Donald Trump impondo uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Seu primeiro parágrafo fazia referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro — que foi condenado no ano passado por tentar um golpe de Estado no Brasil e agora está em prisão domiciliar — tornando explícita a motivação política por trás da medida", escreveu.
Lula continuou explicando que havia conversado com o presidente dos EUA, defendeu que os dois não precisam pensar iguais, mas podiam trabalhar juntos, afinal, são as maiores democracias e economias das Américas. O presidente brasileiro continuou ainda frisando que a América Latina e o Caribe não precisam de intervenções estadunidenses e sim um comércio bilateral confiável.
"Isso diz muito sobre a inconsistência entre os interesses que os Estados Unidos proclamam em sua estratégia de segurança nacional e as políticas que adotam em relação ao Hemisfério Ocidental. A América Latina e o Caribe não precisam nem de porta-aviões patrulhando suas águas nem de tarifas punitivas. O que nos falta são parceiros confiáveis e previsíveis. Em um momento em que os EUA estão fechando seu mercado, outros países se apresentaram como alternativas, oferecendo uma agenda positiva capaz de promover o desenvolvimento econômico e social", pontuou.
Sobre combate ao crime organizado, Lula disse que o melhor caminho seria "unir forças em torno de iniciativas", uma referência à recente classificação das facções criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas pelos EUA. O presidente também escreveu que precisa haver colaboração mútua no comércio e áreas de investimento, uma vez que o hemisfério pertence a todos.
"Dividir o mundo em esferas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em busca de recursos estratégicos são atitudes anacrônicas e um retrocesso. Apesar da longa história de intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, houve momentos em que Washington se mostrou capaz de ser um parceiro digno de nossos interesses de desenvolvimento", relembrou.
Lula também disse que respeita a soberania de outros países e sempre negocia com aqueles que respeitam a soberania brasileira. E terminou escrevendo que "a reciprocidade é a base de todo relacionamento entre nações, e dispomos dos mecanismos adequados para garanti-la".



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