ALEX SOLNIK
As lavanderias de Deus
Se Fabiano Zettel delatar, verdades podem vir à tona
Vorcaro, Zettel e BolsonaroPor Alex Solnik, jornalista
De acordo com narrativas encontradas em reportagens e notas nas redes sociais, Fabiano Zettel não era dado a frequentar igrejas antes de conhecer a sua noiva, com quem se casou. Natália Vorcaro, ao contrário, tinha a religião no sangue.
Seu avô, o imigrante italiano Serafim Vorcaro, foi pastor, e seu pai, Henrique Vorcaro, era um ex-boêmio que enriqueceu depois de se converter à religião evangélica.
Além do histórico religioso, a família Vorcaro ficou conhecida pela grande sorte nos negócios, com a rápida ascensão de Henrique, de classe média a milionário, e do irmão de Natália, Daniel, o familiar mais famoso, de milionário a bilionário.
À semelhança do sogro, Zettel passou por uma transformação. Antes, mais zombava do que respeitava os evangélicos, mas, em pouco tempo, de refratário à religião, deu uma guinada de 360 graus e virou pastor, tal como Natália, ao mesmo tempo em que também se aliou aos negócios milionários de Daniel. Mas não foi só isso.
Também bafejado pela fortuna, construiu um dos maiores, senão o maior, dos 600 templos da Igreja da Lagoinha, em um bairro chique de Belo Horizonte. Depois de sua prisão, a casa de Deus, de seis mil metros quadrados, foi fechada.
Não se sabe, ainda, até que ponto as relações da família Vorcaro com a igreja tiveram a ver com a ascensão social e econômica, mas é público e notório que Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel e de Natália, foi um emérito doador, contribuindo decisivamente para a sua expansão ao presenteá-la com uma emissora de TV. Além disso, ajudou André Valadão, filho do fundador, a saldar dívidas relevantes.
Livres de impostos e de controles, as igrejas evangélicas foram transformadas, por pastores milionários, em grandes lavanderias de capitais, uma necessidade prioritária para quem auferia montanhas de dinheiro de origem obscura.
Elas assumiram, nos últimos anos, o papel antes exercido pelos chamados doleiros, que caíram em desuso e em desgraça depois da queda do mais célebre deles, Alberto Youssef.
Há indícios de que os Vorcaro — e, principalmente, Fabiano Zettel — poderiam ter usado a Lagoinha para esse fim. Se ele fazia todos os seus negócios com o dinheiro “fornecido” pelos clientes do Banco Master, como já revelaram as mensagens vazadas do primeiro celular de seu cunhado, não é absurdo suspeitar que ergueu o templo também com ele.
Provar é quase impossível. Somente a sua delação — se houver — poderá esclarecer essa dúvida cruel.



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