Florestan Fernandes Jr.

Escalada militar de Trump e a vulnerabilidade da democracia

A ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã expõe um cenário internacional explosivo, e acende alertas sobre a fragilidade institucional no Brasil

rep. publ. internet
Escalada militar de Trump e a vulnerabilidade da democracia

por Florestan Fernandes Júnior é jornalista e escritor

Mais uma vez, o mundo acorda em um sábado sob o impacto de uma ação militar promovida por Donald Trump. A penúltima foi no dia 3 de janeiro, com o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Desta vez, a nova ofensiva, conduzida pelos Estados Unidos em articulação com Israel, teve como alvo o Irã.

Não houve surpresa. Os sinais estavam dados, Trump já vinha, nas últimas semanas, ameaçando um ataque militar caso o país não desistisse de seu projeto nuclear.

Entre a avalanche de análises e informações produzidas nas últimas horas, uma leitura se destacou pela clareza e profundidade: a entrevista conduzida por Leonardo Attuch com o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. A avaliação apresentada pelo intelectual é precisa e inquietante, e merece ser levada a sério.

O cenário global atravessa um momento de instabilidade aguda. A Rússia encontra-se parcialmente neutralizada pela guerra contra a Ucrânia, enquanto a China atua com cautela, plenamente consciente de seus limites militares em um confronto direto com Washington. No Oriente Médio, o regime dos aiatolás vive talvez seu momento mais frágil desde 1979.  Ao responder ao ataque com bombardeios contra Israel e bases Estados Unidos no Golfo Pérsico, o Irã sinaliza que o conflito pode entrar em uma escalada perigosa. O fanatismo religioso pode empurrar o país para uma guerra fratricida, de consequências imprevisíveis.                                          

É nesse contexto que a situação brasileira se torna particularmente preocupante. A escalada militar promovida por Trump não redesenha apenas a geopolítica global. Ela testa, ao mesmo tempo, a resiliência das democracias periféricas.

A crise no Golfo Pérsico não é apenas um pano de fundo distante ou meramente diplomático. Ela projeta efeitos diretos sobre o Brasil, um país de grande interesse para os Estados Unidos e que ainda não conseguiu consolidar plenamente suas defesas democráticas depois de anos de erosão institucional. A extrema-direita segue organizada, ativa e com capacidade de mobilização, e a possibilidade de uma deriva autocrática, com protagonismo militar, segue sendo uma ameaça concreta e permanente à nossa democracia.



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