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Teresina,04/03/2026

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EMIR SADER

O mundo do capital improdutivo

A melhor obra sobre o tema é “A era do capital improdutivo”, do grande economista brasileiro Ladislau Dowbor

rep. publ. internet
O mundo do capital improdutivo Prof. Dr. Ladislau Dowbor

Por Emir Sader, sociólogo e cientista político

A pobreza diminuiu no mundo em cerca de 1 bilhão de pessoas, segundo o Banco Mundial. Desse 1 bilhão, 700 milhões são chineses.

Mas a desigualdade ainda é um problema muito grave. Oito indivíduos são donos de mais riqueza do que metade da população mundial, enquanto metade da população mundial ainda passa fome.

A partir dos anos 1980, o capitalismo entra na fase da dominação da intermediação financeira sobre os processos produtivos.

A melhor obra sobre o tema é “A era do capital improdutivo”, do grande economista brasileiro Ladislau Dowbor, cujo subtítulo é: “A nova arquitetura do poder, dominação financeira, sequestro da democracia e destruição do planeta”. É uma leitura indispensável.

O autor reúne outras afirmações sobre as desigualdades. O retrocesso nos Estados Unidos é particularmente preocupante: a metade inferior da distribuição de renda foi completamente excluída do crescimento econômico desde os anos 1970.

Em contraste, a renda explodiu no topo da distribuição: subiu 121% para os 10% mais ricos, 205% para o 1% mais rico e 636% para o 0,001% mais rico.

De modo significativo, pesquisas revelam que o aumento da riqueza no topo se deve essencialmente ao rendimento de aplicações financeiras — capital improdutivo.

A leitura da pirâmide da riqueza global mostra que, no topo, os adultos que têm mais de 1 milhão de dólares somam 33 milhões de pessoas, o equivalente a 0,7% do total de adultos do planeta. Somando a riqueza de que dispõem, são 116,6 trilhões de dólares, o que representa 45,6% dos 256 trilhões de dólares da riqueza global. As grandes fortunas dessa parte de cima do planeta não são propriamente de produtores, mas de gente que lida com papéis financeiros.

O sistema de intermediários financeiros é que se apropria do excedente e deforma a orientação do conjunto. O 1% mais rico detém mais recursos do que os 99% restantes do planeta. O PIB mundial cresce em um ritmo situado entre 1% e 2,5%, a depender do ano. Já as aplicações financeiras rendem acima de 5% — e frequentemente muito mais. Gerou-se, portanto, uma dinâmica de transformação de capital produtivo em patrimônio financeiro: a economia real é sugada pela financeirização planetária.

Os recursos existem, mas sua produtividade é esterilizada por um sistema generalizado de especulação, que drena as capacidades de investir na economia real. Os próprios recursos públicos — isto é, os nossos impostos — alimentam hoje essa máquina.

Há ainda os recursos não declarados, colocados em paraísos fiscais: além de não serem investidos, sequer pagam os impostos devidos. E, quando se compara o estoque de recursos em paraísos fiscais — da ordem de 80 trilhões de dólares — com o PIB mundial, não há como não ver o desajuste entre os meios e os fins.

O investimento produtivo regrediu nos últimos anos, com grande parte da dívida acumulada canalizada para o setor financeiro e para ativos imobiliários, aumentando o risco de bolhas de ativos, em vez de estimular a produtividade em geral. O sistema financeiro não só drena: ele também não financia a produção. Não é a falta de recursos que assola o mundo, e sim o seu uso descontrolado — ou controlado apenas por quem não tem interesse em torná-lo social e economicamente útil.



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