'Bolsonaro é responsável pela quadrilha que acabou com o Rio', aponta Otoni de Paula
Deputado diz que “seria digno a família Bolsonaro não se meter mais nas eleições do Rio, porque eles só apresentam ladrão”
rep. publ. internet/Otoni de Paula O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), que se declara de direita e hoje se posiciona como um bolsonarista arrependido, fez duras críticas ao clã Bolsonaro e à situação política e de segurança pública no Rio de Janeiro. Em entrevista à BBC News Brasil, ele atribuiu ao grupo responsabilidade direta pela crise no estado e afirmou que a família deveria se afastar das disputas eleitorais locais.
O parlamentar sustenta que o Rio vive um cenário de colapso institucional, com forte influência do crime organizado na política e nas instituições públicas, o que o levou inclusive a pedir intervenção federal no estado.
Otoni de Paula não poupou críticas a Jair Bolsonaro (PL) e ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). “Eu não tenho dúvida nenhuma de que Flávio Bolsonaro faz parte dessa quadrilha. E o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro é responsável por essa quadrilha que acabou com o estado do Rio de Janeiro”, declarou.
O deputado afirmou ainda que apoiou candidatos indicados por Bolsonaro no passado e que se arrepende da escolha. “Eu votei no Wilson Witzel porque ele pediu. Eu votei no Cláudio Castro porque ele pediu. E em nenhum momento o ex-presidente Bolsonaro veio a público para admitir sequer que errou”, disse.
Em tom ainda mais incisivo, Otoni de Paula afirmou: “Seria até digno a família Bolsonaro não se meter mais nas eleições do Rio, porque eles só apresentam ladrão”.
Críticas à segurança pública e denúncia de "narcoestado"
O parlamentar descreveu o Rio de Janeiro como um “narcoestado”, onde, segundo ele, o crime organizado teria se infiltrado profundamente nas estruturas de poder. “O Rio de Janeiro já é um narcoestado. O crime já se aparelhou da máquina pública”, afirmou.
Ele também criticou operações policiais recentes, classificando-as como ações com motivações políticas. Ao comentar uma megaoperação ocorrida em 2025, declarou que houve manipulação e possível vazamento de informações: “Nitidamente o Doca foi avisado. [...] Foram todos embora, foram avisados”.
Apesar de defender o combate ao crime, ele criticou abusos. “Sou a favor de que bandido que troca tiro com a polícia... entre morrer o policial e esse bandido, que morra o bandido. O que não vou aceitar é uma polícia que faça justiça com as próprias mãos”, afirmou.
Apoio a Eduardo Paes e alinhamento pragmático
Mesmo sendo de direita, Otoni declarou apoio ao atual prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para o governo estadual. Segundo ele, trata-se de uma decisão pragmática diante do cenário político.
“Prefiro votar em um soldado de Lula do que em um representante de uma quadrilha”, afirmou. Ele ressaltou que vê em Paes um gestor capaz de recuperar o estado. “Ele hoje é o único personagem da política do Rio de Janeiro que posso dizer que não está envolvido com corrupção ou com crime organizado”.
Divergências na direita e posição sobre o cenário nacional
No plano nacional, Otoni de Paula disse apoiar o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), embora discorde de propostas como a anistia ampla aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.
“Não tem como negar que houve uma tentativa de golpe de Estado”, afirmou. Ele acrescentou: “A anistia ampla, geral e irrestrita não vai pacificar o país”.
Sobre o governo Lula, fez uma avaliação mista. Criticou a política fiscal, mas reconheceu aspectos positivos. “Na área econômica, é um governo perdulário. [...] Tenho elogios? Tenho. Lula é um cara humano”, disse.
Debate sobre religião, mulheres e política
O deputado também abordou temas ligados à religião e ao papel das igrejas no combate à violência contra a mulher. Ele defendeu maior engajamento das lideranças religiosas no tema.
“A igreja peca quando não debate esse assunto, e já há comprovações de que uma parte considerável das mulheres violentadas está em nossas igrejas”, afirmou.
Otoni também criticou o projeto que criminaliza a misoginia da forma como está proposto, defendendo maior debate. Ao mesmo tempo, declarou apoio histórico às pautas de proteção às mulheres.
Ao longo da entrevista, o parlamentar reforçou sua mudança de posicionamento político, destacando críticas tanto à direita quanto à esquerda, enquanto tenta se reposicionar no cenário nacional e estadual.



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