Míriam Leitão: PL da Dosimetria é rendição do Senado ao bolsonarismo e derrota da democracia
A imagem é eloquente. Olhos fechados, o senador Davi Alcolumbre, sentado na cadeira da presidência do Congresso
rep. publ. internet A jornalista Míriam Leitão, em sua coluna do Globo deste domingo (3), intitulada “A rendição do Senado”, sustenta que a semana terminou com uma capitulação do comando do Congresso ao bolsonarismo, simbolizada pela derrubada do veto ao PL da Dosimetria e pelo avanço de uma agenda de afrouxamento contra condenados por atos golpistas. Para a colunista, mais do que uma derrota circunstancial do governo Lula, o episódio representa um sinal de que a democracia segue sob pressão no país. Confira trechos:
A imagem é eloquente. Olhos fechados, o senador Davi Alcolumbre, sentado na cadeira da presidência do Congresso, deita o rosto no peito do senador Flávio Bolsonaro e por ele é abraçado carinhosamente. A imagem foi escolha unânime para ilustrar os jornais de sexta e é uma dessas maravilhas de síntese que o fotojornalismo produz. Ela explica a semana. Nos dias que se seguiram ao 8 de janeiro de 2023 as fotos mostraram que aquele mesmo Congresso fora alvo da violência política dos que queriam o golpe. Contra quem? Contra todos os eleitos. Um manifestante pichou no vidro quebrado do Salão Negro do Congresso: “Destituição dos Poderes”. Foi isso que o pai do senador que afagava Davi Alcolumbre estimulou no país.
“Durante a quinta-feira o bolsonarismo produziu cenas de euforia puxadas por Flávio Bolsonaro, como fizera na véspera. No plenário, parlamentares cantaram, gritaram, fizeram coros de campanha eleitoral como se aquilo fosse um palanque e não a sede do Poder Legislativo. Bolsonaristas tinham razão de estar felizes.A presidência do Senado rendera-se totalmente ao projeto que acabou vitorioso no meio da quinta-feira, quando o Congresso disse que os que atentam contra a democracia brasileira devem ter penas menores e sair mais rapidamente da prisão. E que podem esperar mais benesses no futuro porque o país, que nunca antes havia punido golpistas, pode voltar ao leito natural e perdoá-los.
Isso é mais grave do que foi dito. Não era a segunda derrota do presidente Lula na semana. Era a derrota do país e do seu pacto civilizatório que passa necessariamente pelo fortalecimento da democracia. A única conclusão possível, diante desse desfecho é que o sistema democrático permanece sob ataque no Brasil. (…)
Lula tem agora nova chance. Pode escolher melhor seu indicado. Deveria ser uma indicada. Sim, uma mulher. Preferencialmente uma mulher negra. Existem muitas pessoas que atendem ao requisito principal, o do notório saber jurídico. Se o que a oposição alega é que Messias tem excessiva proximidade com o presidente, esse perfil deve ser afastado.



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