BolsoMaster empurra centro para Lula, avalia Esmael Morais
Lula não tomou o centro por encanto. Ele avançou porque o adversário sangrou onde não podia sangrar
rep. publ. internet/Esmael Morais, jornalista O presidente Lula (PT) passou a faturar no pedaço mais caro da eleição de 2026 depois que o caso BolsoMaster atingiu Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo recorte do Datafolha. Entre os eleitores que se colocam no centro da escala ideológica, Lula marca 29%, contra 20% do senador.
A notícia, portanto, não é a distância de 9 pontos. A notícia é o movimento. O centro, que a direita tratava como espaço natural para uma versão menos abrasiva do bolsonarismo, começou a escorrer para Lula quando Flávio Bolsonaro passou a dar explicações sobre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Esse eleitor de centro não é, tecnicamente, sinônimo de indeciso. Mas é nesse território que mora boa parte do voto menos fiel, menos militante e mais sensível a risco. É o eleitor que pode até rejeitar o PT, mas também desconfia de banqueiro quebrado, filme milionário, áudio vazado e intimidade mal explicada.
O Datafolha usou uma escala de 1 a 7, na qual 1 representa a extrema esquerda e 7 a extrema direita. O número 4 é o centro. Nesse grupo, Lula aparece com 29%, enquanto Flávio Bolsonaro fica em 20%.
A queda de Flávio Bolsonaro no ambiente pós-BolsoMaster abriu uma avenida que a chamada terceira via não conseguiu ocupar. Ronaldo Caiado (PSD-GO) marcou 6% entre os eleitores de centro. Augusto Cury (Avante), que tenta se apresentar como nome moderado, também ficou em 6%. Renan Santos (Missão) registrou 5%. Romeu Zema (Novo-MG), 4%.
O vácuo, por enquanto, não virou terceira via. Virou Lula.
Flávio Bolsonaro tentou vender uma candidatura com verniz de moderação, distante do estilo de confronto permanente de Jair Bolsonaro (PL). O problema é que o caso Banco Master trouxe de volta a pergunta que a direita queria evitar: qual é a fronteira entre projeto político, dinheiro privado, bastidor financeiro e interesse eleitoral?
O senador nega irregularidade. Diz que a conversa com Vorcaro tratava de investimento privado para o filme sobre Jair Bolsonaro e afirma que não houve contrapartida pública. A defesa pode funcionar no plano jurídico, mas a urna costuma cobrar outra conta: a da confiança.
O Datafolha também trouxe um dado saboroso, quase uma maldade estatística. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 88% defendem que ele continue na disputa mesmo após o caso. O bolsonarista, nesse ponto, foi um “sacana” com elegância involuntária: segura o candidato no palco enquanto o eleitor de centro procura a saída pela porta de Lula.
Pode ser fidelidade pura. Pode ser disciplina de torcida. Pode ser a velha recusa de admitir prejuízo. Também pode haver uma vingança silenciosa de parte da direita que se sentiu traída pela relação de “irmão” político entre o zero um de Jair Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Essa hipótese tem limite. A pesquisa não prova que o eleitor bolsonarista queira manter Flávio Bolsonaro na disputa para puni-lo. O que ela mostra é mais simples e mais duro: a base quer permanência, mas o centro já não parece disposto a comprar o pacote sem desconto.
No cenário geral, o Datafolha registrou Lula com 40% no primeiro turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Na rodada anterior, a diferença era menor: 38% a 35%. No segundo turno, o empate de 45% a 45% virou vantagem de Lula por 47% a 43%.
A pesquisa foi feita de quarta-feira (20) a quinta-feira (21), com 2.004 pessoas em 139 cidades. A margem de erro geral é de 2 pontos percentuais. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-07489/2026.
Para a direita paranaense, o recado é direto. Sergio Moro, Deltan Dallagnol, Filipe Barros, Ratinho Junior e aliados terão de decidir se Flávio Bolsonaro ainda organiza palanque ou se virou peso morto fora da bolha. A resposta interessa à eleição presidencial e à disputa pelo governo do Paraná.
Lula não tomou o centro por encanto. Ele avançou porque o adversário sangrou onde não podia sangrar. O BolsoMaster empurrou o centro para Lula, e o Datafolha registrou a cena antes que a direita encontrasse uma desculpa melhor.



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