“Nunca vi o mundo com este nível de conflito”, alerta Celso Amorim à TV 247

Embaixador e assessor especial da Presidência da República descreve o cenário internacional como um “mundo em carne viva”

BRASIL 247
“Nunca vi o mundo com este nível de conflito”, alerta Celso Amorim à TV 247 Celso Amorim/Crédito: REUTERS/Adriano Machado

Em uma análise geopolítica contundente concedida ao programa Boa Noite 247, da TV 247, o embaixador e assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim, traçou um panorama alarmante da conjuntura internacional. Diplomata desde 1963, ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa, Amorim classificou o momento geopolítico atual como o mais crítico das últimas seis décadas.

“A situação do conjunto do mundo é a mais grave que já vi desde que comecei a acompanhar a política internacional. Usei uma força de expressão numa palestra recente dizendo que é o ‘mundo em carne viva’. Não há mediação ou diálogo”.

Múltiplos conflitos e o risco de uma “guerra total”

Ao comparar o cenário atual com momentos de extrema tensão da Guerra Fria — como a Crise dos Mísseis de Cuba em 1962 —, Amorim ressaltou que, no passado, existia um canal mínimo de racionalidade e controle direto entre as superpotências. Hoje, contudo, o enfraquecimento dos canais diplomáticos e o acirramento de componentes emocionais aumentam imprevisivelmente os riscos.

O embaixador destacou que os dois grandes conflitos simultâneos de grande porte (Leste Europeu e Oriente Médio) correm o risco permanente de se fundir:

    Conexão perigosa: “Essas guerras podem se comunicar. É como se duas bolhas d’água correndo lado a lado de repente se juntassem. É praticamente uma guerra total”.
    Multipolaridade vs. Áreas de Influência: O diplomata alertou para a distorção do conceito de multipolaridade. Para o Brasil, a verdadeira multipolaridade pressupõe governança global compartilhada e diplomacia ativa, mas o que se observa na prática é a regressão para a imposição de “áreas de influência rígidas”.
    O papel da China: Amorim apontou que a China se mantém como a única grande potência global sem envolvimento militar direto nos focos centrais do conflito armado.

Defesa nacional e soberania: “Ser um país pacífico não garante imunidade”

Aprofundando a interface entre política externa e defesa soberana, Celso Amorim argumentou que o pacifismo histórico do Brasil não o isenta de potenciais pressões, coerções econômicas ou ameaças externas.

Diretriz estratégica-Análise de Celso Amorim

Capacidade de dissuasão - O  Brasil precisa consolidar uma estrutura de defesa autônoma e moderna, imune a fornecedores externos não confiáveis.

Orçamento da Defesa - Amorim defende a meta de destinar entre 2% e 2,5% do PIB para a Defesa Nacional.

Proteção de recursos - A imensa riqueza brasileira em minerais críticos, água potável e matrizes energéticas limpas torna o país alvo geopolítico estratégico.

Defesa Antiaérea e submarino nuclear - Destacou a necessidade de aceleração do programa do submarino de propulsão nuclear e o urgente desenvolvimento da defesa antiaérea.

“O fato de sermos um país pacífico não garante que não vamos ser atacados. Tivemos na Segunda Guerra Mundial planos documentados de potências que consideravam tomar o Nordeste brasileiro pela relevância da rota estratégica de Natal”, disse Amorim.
Integração da América do Sul e o desafio de infraestrutura

Mesmo em um ambiente continental fragmentado e marcado pela presença de governos de direita e extrema-direita, Amorim foi categórico ao afirmar que o Brasil não pode abandonar sua vocação de líder da integração na América do Sul.

O assessor de política externa frisou que a integração física é um pilar inescapável de soberania continental:

Conexão Interoceânica: Amorim enfatizou a necessidade de construir de forma prioritária uma ferrovia ligando o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico.

Escala Geopolítica: Nenhuma nação sul-americana isolada tem porte suficiente para negociar de igual para igual frente aos blocos dos EUA ou China.

Resposta à Argentina: Sobre a conduta do governo Javier Milei, Amorim lembrou que a diplomacia brasileira agiu com a firmeza institucional adequada ao convocar o embaixador para consultas — gesto diplomático de suma gravidade —, ressaltando a reação da própria sociedade e empresariado argentino em defesa da parceria comercial com o Brasil.




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