Soberania sob ameaça, por Florestan Fernandes Jr.
Declaração de José Mucio e pressão dos EUA reacendem debate sobre defesa, democracia e soberania nacional
rep. publ. internet Recentemente, o ministro da Defesa, José Mucio, fez uma declaração que expôs, de maneira contundente, uma das maiores vulnerabilidades estratégicas do Brasil: o país não teria condições de enfrentar militarmente uma grande potência. Em tom quase resignado, afirmou que diante de eventual ação de uma potência estrangeira, pouco restaria ao Brasil além de “abrir o portão”.
A declaração chamou atenção para uma realidade que durante muito tempo permaneceu fora do centro do debate político: apesar de seu território, de sua população e de seu peso econômico, o Brasil ainda não dispõe de capacidade militar para dissuadir uma potência como os Estados Unidos de uma eventual ação contra o país.
Essa vulnerabilidade ganha uma dimensão ainda mais preocupante diante do ambiente político internacional e da crescente pressão de Washington sobre o Brasil.
A campanha eleitoral de 2026 começa oficialmente no próximo domingo, 16 de agosto, mas a interferência do governo dos Estados Unidos no debate político brasileiro já vem sendo sentida há algum tempo. Primeiro vieram os tarifaços, seguidos por ameaças de sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e integrantes do Poder Executivo. Agora, a temperatura subiu ainda mais com um vídeo divulgado pelo Departamento de Estado americano, no qual Washington reafirma que seu domínio sobre o Hemisfério Ocidental não deve ser questionado.
A mensagem de Donald Trump, divulgada pelo Departamento de Estado, sob o comando do secretário de Estado Marco Rubio, não pode ser vista apenas como um gesto retórico. Ela expressa uma determinada concepção de poder internacional, segundo a qual os Estados Unidos se atribuem o direito de estabelecer os limites da atuação dos demais países do continente.
É justamente aí que a declaração de José Mucio ganha outro significado. A fragilidade militar brasileira deixa de ser apenas uma questão de estratégia de defesa e passa a ter implicações diretamente relacionadas à soberania nacional. Afinal, de que vale a autonomia política de um país se ele não possui capacidade mínima de dissuasão diante de uma potência que eventualmente decida impor sua vontade pela força?
Em outras palavras, o que está em jogo é muito maior do que uma disputa comercial ou uma divergência diplomática entre Brasília e Washington. Está em discussão a própria ideia de soberania dos países latino-americanos.
A afirmação de Trump coloca diante do Brasil e das demais nações da região uma questão que não pode ser ignorada: Washington está reivindicando para si o direito de estabelecer até onde pode ir a autonomia dos países do Hemisfério Ocidental.
No Palácio do Planalto, a possibilidade de uma ação militar do governo Trump já é tratada como uma hipótese que não pode simplesmente ser descartada. O vídeo divulgado por Washington reforça a orientação da ala mais ideológica da política externa estadunidense, associada a Marco Rubio, e alimenta a percepção de que os Estados Unidos pretendem recuperar uma influência mais direta sobre o maior país da América do Sul.
Os acontecimentos recentes no Caribe, que culminaram com a invasão de Caracas e o sequestro do presidente Nicolas Maduro, também contribuíram para aumentar a apreensão. A disposição demonstrada pelo governo Trump de recorrer à força militar em conflitos na região, mostra que a hipótese de uma intervenção deixou de ser apenas uma abstração para os países latino-americanos.
Ao mesmo tempo, não há garantias de que antigas relações comerciais ou estratégicas sejam suficientes para assegurar uma reação militar de outras grandes potências em defesa do Brasil. A China pode ampliar seu apoio diplomático e atuar em organismos internacionais, como ocorreu na Organização Mundial do Comércio, mas isso é muito diferente de assumir o risco de um confronto direto com os Estados Unidos.
Há, inclusive, uma dimensão geopolítica mais ampla. Uma ruptura da ordem democrática brasileira provocada ou estimulada por uma potência estrangeira poderia produzir consequências que ultrapassariam as fronteiras do Brasil. Um precedente desse tipo poderia alterar o equilíbrio internacional e abrir novas possibilidades de ação de outras potências em áreas estratégicas, como Taiwan, cuja importância para a indústria mundial de semicondutores torna qualquer mudança no equilíbrio regional potencialmente explosiva.
Poucos se arriscam hoje a fazer uma previsão sobre uma eventual intervenção de Trump no Brasil. E é importante não transformar uma possibilidade em fato. Mas existe uma razão histórica para que os brasileiros olhem para esse cenário com preocupação.
Quem conhece a história do golpe de 1964, sabe que a participação e o apoio do governo dos Estados Unidos foram elementos importantes daquele processo. A memória daquele período permanece viva, especialmente entre aqueles que testemunharam ou estudaram como uma potência estrangeira pode atuar para influenciar os destinos políticos de um país.
É por isso que o Brasil não pode tratar a soberania apenas como uma palavra inscrita na Constituição. Soberania também significa ter capacidade política, econômica, diplomática e, sobretudo, estratégica para defender suas próprias escolhas.
O desafio colocado diante do Brasil em 2026 talvez seja justamente este: preservar a democracia sem permitir que a fragilidade do país se transforme em convite à tutela externa. Porque uma democracia só é plenamente soberana quando o povo pode decidir seu próprio destino, sem que nenhuma potência estrangeira se considere dona do portão.



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