A Emboscada do Planalto Ininga - O assassinato político de Abraão Gomes

O estudo investiga como as ferrenhas disputas políticas de Porto, no Piauí, transbordaram o âmbito local e atingiram o coração do poder estadual

DIRETO DA REDAÇÃO
A Emboscada do Planalto Ininga - O assassinato político de Abraão Gomes rep. publ. internet/ex-prefeito e ex-deputado Abraão Gomes

Em uma síntese do estudo de Miguel Dias Pinheiro, advogado, para se transformar em livro, com base no processo-crime já arquivado e de domínio público no Judiciário, uma reconstrução do assassinato do ex-prefeito e ex-deputado estadual Abraão Gomes de Oliveira ocorrido em Teresina após uma emboscada meticulosamente planejada no bairro Planalto Ininga. O estudo investiga como as ferrenhas disputas políticas de Porto, no Piauí, transbordaram o âmbito local e atingiram o coração do poder estadual, resultando na execução do político por pistoleiros que agiram sob uma lógica de extermínio deliberado. Através de um minucioso exame do processo, o advogado disseca as engrenagens de um sistema que utilizou o direito e a morosidade burocrática para obscurecer a verdade real do crime.

Aos cinquenta e nove anos de idade, Francisco Abraão Gomes de Oliveira ocupava um lugar singular na engrenagem social de Teresina. Não se tratava apenas de uma presença física nos círculos de poder, mas de uma influência que se ramificava por canais distintos, cada um exigindo um tipo diferente de habilidade e articulação. Para um observador comum, Abraão era a voz que chegava às casas através das ondas do rádio ou o rosto que ditava os rumos do debate público na televisão.

A arquitetura da TV Pioneira, que mais tarde consolidaria sua marca sob o nome TV Cidade Verde, representava o ápice da estratégia de expansão do grupo de Abraão Gomes. O ex-prefeito e ex-deputado percebeu cedo que o alcance da imagem televisiva, aliado a uma linha editorial que se entrelaçava com os interesses regionais, transformava o veículo em uma ferramenta de prestígio sem paralelo no Piauí. O controle sobre a emissora, da qual era sócio, não era apenas uma decisão administrativa ou comercial, era a consolidação de um canal direto entre a elite política e os lares teresinenses, um espaço onde a pauta do dia era ditada e, muitas vezes, moldada para favorecer o arranjo de forças que o próprio Abraão integrava. A emissora funcionava como uma vitrine e, simultaneamente, como um escudo.

A Última Saída da Alepi

O final daquela tarde que antecedeu o assassinato, Abraão Gomes saiu da Assembleia Legislativa do Estado do Piauí para casa. Mas, uma cadência que, vista agora sob o peso dos eventos posteriores, parece ter sido meticulosamente tecida pela rotina do político. Abraão Gomes atravessou o saguão principal da Alepi pouco antes do entardecer. Ele trazia consigo o peso dos 59 de uma vida dedicada à política e à gestão empresarial, uma combinação que o tornava uma das figuras mais vigiadas de Teresina. Não havia, naquele momento de saída do prédio da Alepi, qualquer sinal de tensão extraordinária. O ex-deputado movia-se com a naturalidade de quem conhece cada palmo daquele ambiente.

A saída da Assembleia marcou, sem que ele pudesse notar, o início da contagem regressiva. Enquanto o veículo ganhava a via pública, a transição entre o espaço protegido do poder e as ruas movimentadas de Teresina foi operada com uma rapidez desprovida de suspeitas.

O caminho traçado entre o centro político da capital e o refúgio residencial foi o elo final de um processo de perseguição iniciado bem antes daquele entardecer. Ali, naquelas ruas, o poder de Abraão deixava de ter qualquer efeito prático, e a fragilidade do homem comum, despido de aparatos de segurança, emergia.

Conforme o tráfego se tornava mais denso, as manobras do condutor que perseguia Abraão revelavam um controle preciso sobre o terreno. Não se tratava de uma casualidade do trânsito. Os pistoleiros aproveitavam os momentos de engarrafamento e as pausas no trânsito para ajustar posicionamento, mantendo Abraão sempre em um ângulo que evitasse o campo de visão do espelho retrovisor do ex-prefeito. Essa técnica de seguir sem ser ostensivo indicava um planejamento detalhado, onde o conhecimento das artérias da capital piauiense era utilizado para garantir que o alvo não escapasse da linha de perseguição.

Os Disparos de Arma

Ao parar o veículo rente à calçada, Abraão não enfrentou o perigo como uma ameaça iminente vinda do horizonte, mas como um elemento oculto que se materializou exatamente no hiato entre o conforto do habitáculo e a segurança do interior de sua casa. A manobra para abrir o portão de ferro exigiu que ele se afastasse da proteção do carro. Naquela fração de segundos, ocorreu uma sequência de disparos. O instante exato em que qualquer defesa se tornou impossível. O corpo de Abraão foi subitamente impactado pela força que emanava de um ponto cego, um lugar que os pistoleiros ocuparam com absoluta precisão.

Os projéteis encontrados posteriormente revelaram o peso daquela combinação. A precisão do revólver, destinada a garantir o impacto letal direto, somava-se ao efeito devastador da escopeta, que funcionava como um elemento de contenção absoluta. O planejamento da emboscada previa justamente essa sinergia de forças para anular qualquer capacidade de sobrevivência de Abraão.

Motivação

O inquérito policial que buscou desvendar o(s) mandante(s) do crime não operou sobre um vazio. Ele se debruçou sobre uma rede de tensões que já era sentida na cidade de Porto. Quando as investigações apontaram para a motivação política, elas não estavam apenas sugerindo um motivo, mas descrevendo um mecanismo onde a eliminação do outro passou a ser vista como a única solução para o fim de um embaraço persistente. Abraão era, para os seus opositores, o obstáculo materializado que impedia a consolidação de um novo grupo. A dificuldade de romper sua influência fora das urnas empurrou os articuladores dessa trama criminosa para um terreno mais perigoso, onde o uso da violência se apresentava como uma ferramenta política legítima dentro de um sistema de poder arcaico e intransigente.

A partir desse ponto, o crime deixa de ser interpretado como um ato isolado de pistoleiros contratados e assume a sua verdadeira dimensão: uma decisão estratégica. A hipótese política torna-se a lente pela qual todo o restante da trajetória judicial deve ser lida. Se os executores, como Alcides Nery do Prado e Joaquim Vital, foram as mãos que operaram a engrenagem, a mente por trás daquelas decisões residia na percepção de que a manutenção da vida de Abraão era incompatível com o sucesso das novas pretensões de poder em Porto. Essa visão guia a leitura dos fatos subsequentes, incluindo o papel de mandantes e a resistência encontrada nos tribunais, onde a defesa frequentemente tentou reduzir a complexidade daquelas motivações a problemas pessoais ou mal entendidos circunstanciais.

Por fim, Abraão Gomes, que em vida foi o empresário que moldou a percepção pública em Teresina e o político que exercia sua influência sob o sol de Porto, tornou-se, no pós-morte, um espectro que habita até hoje os corredores do Judiciário. A sua ausência, que começou no portão daquela residência no Planalto Ininga, transmutou-se de uma tragédia pessoal em um dilema estrutural do estado do Piauí. Ali, o corpo cedeu à força dos disparos, mas a política que ele encarnou e as tensões que alimentou permaneceram vivas como chagas abertas nos crimes contra ex-prefeitos.




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