Pesquisador sobre PowerPoint da Globo: “Defesa de interesses, contribui para erosão da democracia”

Em entrevista à Fórum, Ricardo Ribeiro Ferreira, jornalista pesquisador na área da Comunicação na Universidade de Liverpool, falou sobre o episódio envolvendo a GloboNews e os "dados errados”

Fórum
Pesquisador sobre PowerPoint da Globo: “Defesa de interesses, contribui para erosão da democracia” O pesquisador Ricardo Ribeiro Ferreira/arte Fórum

O inacreditável e infame episódio do PowerPoint utilizado pela GloboNews na última sexta-feira (20) para incriminar o governo Lula e o PT no escândalo do Banco Master, que gerou ruidosos e intermináveis protestos nas redes sociais durante todo o fim de semana, resultando num modesto e “magro” pedido de desculpas da emissora na tarde desta segunda (23), reacendeu os intermináveis e antigos debates sobre o comportamento dos conglomerados de mídia corporativa no Brasil, sobretudo em anos eleitorais, quando todo tipo de mentira e ataques sem fundamento são lançados contra figuras do campo da esquerda por quem deveria zelar pela verdade e por informações confiáveis na sociedade.

Na esteira dos últimos acontecimentos desta tarde, quando Andréia Sadi se viu obrigada a admitir, numa nota de pouco mais de um minuto, que a Globo havia produzido uma “arte” sem qualquer parâmetro ou critério ao colar o nome do presidente da República junto ao de um criminoso poderoso, assim como a figura de Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, e a bandeira do Partido dos Trabalhadores, todos sem relação com o caso, omitindo notórios e públicos envolvidos como Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Roberto Campos Neto, a Fórum foi ouvir quem pesquisa o jornalismo e a comunicação para compreender melhor essas ações nada novas empreendidas por setores da imprensa empresarial de tempos em tempos.

Ricardo Ribeiro Ferreira, jornalista, é pesquisador. Mestre em Jornalismo e Comunicação pela Universidade de Coimbra, doutor em Política pela Universidade de Edimburgo e Leverhulme Fellow no Departamento de Comunicação e Mídia da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, ele explicou à Fórum que ações desse tipo sempre têm por finalidade interferir diretamente na decisão das pessoas, direcionando-as a uma visão que atenda aos interesses dos donos dos veículos de comunicação.

“O caso do PowerPoint do Banco Master é mais um exemplo do que eu conceitualizo como práticas ‘desdemocratizadoras’ de jornalismo, no sentido de que elas prejudicam a deliberação pública e facilitam a ação de atores antidemocráticos e, por consequência, contribuem para a erosão da democracia. Grandes grupos de mídia apresentam representações distorcidas de eventos políticos essenciais para a deliberação pública, não só para agradar a atores políticos, mas para influenciar a decisão do cidadão, com claro objetivo de beneficiar os seus interesses políticos e financeiros, ou os interesses de seus proprietários”, diz Ferreira.

Para ele, um dos grandes problemas iniciais que colaboram para esse cenário é a já conhecida concentração de poder que os grupos de mídia detêm no Brasil, algo bem diferente da realidade da maior parte dos países e sociedades.

“O Brasil tem um dos maiores índices de concentração de propriedade na comunicação do mundo, em que os principais grupos são controlados por elites empresariais que têm preferências muito claras sobre quem deve governar o país e como o país deve ser governado. Apesar dos desafios que enfrentam com as mudanças no mercado e a digitalização, esses grupos ainda são bastante influentes no Brasil, particularmente as TVs. E precisamente por esses desafios financeiros, grupos como a Globo estão intervindo de formas ainda mais diretas para influenciar o debate político e esse caso do PowerPoint do caso Master deixa isso muito claro”, acrescenta o pesquisador.

Em suas pesquisas, Ferreira conta que é possível delinear de forma clara a atuação de diretores e editores impondo coberturas enviesadas e dissonantes em relação à realidade, algo que se agudiza em períodos mais críticos. O caso do PowerPoint do Banco Master ocorre justamente no primeiro período pré-eleitoral nacional após uma tentativa de golpe de Estado fracassada.

“Eu pesquisei extensamente a produção de notícias durante os principais eventos políticos entre 2016 e 2021, incluindo Lava Jato,o impeachment da presidente Dilma, a prisão de Lula, eleição e governo de Bolsonaro, que marcaram um acentuado declínio da qualidade da democracia nos principais indicadores internacionais. Estes mesmos indicadores, que agora melhoraram sensivelmente, caíram muito, e o país, hoje sabemos, esteve pertíssimo de uma ruptura, de um golpe de Estado. Longa entrevistas com jornalistas dos maiores grupos de comunicação do Brasil, como Globo, Record, Folha/Uol, e a análise de seus conteúdos, mostram que a interferência de diretores e editores cresceu sensivelmente neste período, majoritariamente orientada pelos interesses comerciais e políticos das empresas… E algumas vezes do próprio jornalista”, revela.

Mas o pesquisador completa dizendo que há outros mecanismos que agem nesse sentido, incluindo também, muitas vezes, o próprio repórter, aquele que deveria zelar pela informação correta, adequada e verdadeira desde o início, já que é ele que a apura.

“Há algumas formas disso acontecer… A interferência de diretores, editores, cresceu muito, mas às vezez é o repórter ou editor que, por conta própria, toma um determinado enquadramento, faz uma seleção dos fatos, de uma forma que segue a preferência da empresa, ou o que ele pensa ser a preferência da empresa, porque depois de sucessivas interferências, essas distorções se normalizam e se internalizam. Para agravar tudo, e isso é muito importante, não apenas as intervenções de diretores e editores ficaram mais constantes, diretas e intensas, mas os jornalistas ficaram ao longo dos últimos anos em uma posição cada vez mais frágil. Com o mercado de trabalho cada vez pior, condições de trabalho precárias, os jornalistas têm cada vez menos condições de negociar a cobertura, questionar orientações ou ordens de que discordam. Não é mais possível balancear, dosar ou até rebater essas interferências, porque os jornalistas simplesmente têm medo de perder o emprego e não o recuperar. Em alguns casos, eles abraçam essa agenda, para melhorar a sua posição na redação”, diz ainda o especialista.

Por fim, Ferreira lembrou que invariavelmente o alvo desses conglomerados de mídia empresariais é a esquerda, que na arena política é quem mais enfrenta e impõe entraves aos interesses dos setores liberais. Para ele, o fato ocorrido com o grotesco PowerPoint da GloboNews é tão somente e apenas mais capítulo desses ataques agressivos e nada éticos lançados por quem ainda detém o poder de informar, ainda que em franco declínio nos últimos anos.

“Em todo este período, houve um esforço destes veículos para criminalizar o PT, e particularmente seus líderes, de uma forma que não encontrava suporte nas evidências. Ignorou-se durante muito tempo as ilegalidades da Lava Jato de atores políticos com os quais se tinha simpatia. Houve sensivelmente uma minimização dos riscos do Bolsonaro para a democracia, uma normalização de seu autoritarismo. E, historicamente, uma promoção da agenda econômica neoliberal. A agenda econômica ultraliberal é, de longe, o principal interesse e objetivo das elites que capturam a mídia tradicional há muito tempo”, conclui o acadêmico brasileiro que atua no Reino Unido.




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