Índia reaproxima-se da Rússia em meio à crise energética global

Escalada no Oriente Médio e impacto nas importações de energia levam Nova Délhi a retomar negociações com Moscou e buscar flexibilização de sanções

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A intensificação das tensões no Oriente Médio, após ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, tem provocado uma reconfiguração nas alianças energéticas globais, com a Índia voltando a estreitar relações com a Rússia. O movimento ocorre poucos meses depois de Nova Délhi reduzir significativamente suas compras de petróleo russo, em um gesto interpretado como concessão ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Agora, diante da instabilidade no Golfo Pérsico e da disparada dos preços, o país asiático retoma negociações para ampliar o fornecimento de energia russa, segundo informações da agência Reuters.

Autoridades indianas e russas discutem a retomada das exportações diretas de gás natural liquefeito (GNL), interrompidas desde o início da guerra na Ucrânia. O acordo ainda está em fase preliminar, mas fontes indicam que as negociações podem ser concluídas nas próximas semanas, mesmo com o risco de violar sanções ocidentais.

Além do GNL, a cooperação energética entre os dois países tende a se intensificar com o aumento das importações de petróleo russo. Segundo fontes próximas às tratativas, a participação da Rússia no fornecimento total de petróleo à Índia pode dobrar, atingindo cerca de 40% das compras do país em curto prazo. No ano passado, a Índia já havia adquirido aproximadamente US$ 44 bilhões em petróleo russo, aproveitando descontos oferecidos após o conflito na Ucrânia.

A mudança de postura ocorre em meio ao impacto direto da crise no Oriente Médio. A retaliação iraniana aos ataques incluiu ações no Estreito de Hormuz, uma das principais rotas globais de energia, por onde passa cerca de metade das importações indianas de petróleo e GNL. A interrupção no fluxo logístico provocou escassez pontual de combustíveis, filas em postos e dificuldades no abastecimento de gás de cozinha em diversas regiões da Índia.

Diante desse cenário, o governo indiano também iniciou conversas com Washington para obter uma possível flexibilização das sanções que restringem a compra de energia russa. A estratégia busca equilibrar interesses geopolíticos com a necessidade de garantir segurança energética para uma população de 1,4 bilhão de pessoas.

Em declaração oficial, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Índia, Randhir Jaiswal, afirmou que a política energética do país é guiada por fatores internos e externos. Segundo ele, as decisões consideram “as necessidades de 1,4 bilhão de pessoas, a dinâmica do mercado e as condições globais”.

O reposicionamento também reflete críticas internas. Um documento do governo, citado pela Reuters, aponta que a redução nas compras de petróleo russo limitou a capacidade do país de enfrentar a crise atual. O texto alerta para riscos econômicos, incluindo aumento da inflação, desvalorização da moeda e crescimento da dívida externa, caso a instabilidade no fornecimento persista.

Para analistas, o movimento evidencia uma retomada pragmática da parceria histórica entre Índia e Rússia, consolidada desde a Guerra Fria. O ex-embaixador indiano em Moscou, Ajai Malhotra, afirmou: “A Índia escolheu o caminho que melhor atende aos seus interesses nacionais, ancorado em uma parceria duradoura e confiável com a Rússia”. Ele acrescentou que Nova Délhi deveria “exigir isenções ou acomodações como parte normal das negociações entre parceiros estratégicos”, em referência aos Estados Unidos.

Do lado russo, há interesse em ampliar a presença no mercado indiano. Além do setor de energia, empresas russas têm proposto parcerias em infraestrutura de transmissão elétrica e expansão da conectividade aérea entre os dois países. O chanceler russo Sergei Lavrov destacou recentemente que 96% do comércio bilateral já é realizado em rublos e rúpias, reforçando a autonomia financeira da relação.

“O relacionamento russo-indiano, testado ao longo do tempo, serve como exemplo de como as relações entre Estados devem ser construídas — com base na igualdade, confiança mútua e respeito”, afirmou Lavrov.

Com a combinação de pressões geopolíticas, volatilidade nos mercados e necessidades internas crescentes, a Índia parece disposta a reequilibrar suas alianças energéticas, recolocando a Rússia no centro de sua estratégia em um momento de incerteza global.




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