Eleições 2026: COMO O CASO VAZA FLÁVIO DESORGANIZA A SUCESSÃO NA DIREITA
As denúncias contra Flávio Bolsonaro abrem espaço para nomes como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Michelle Bolsonaro, mas a insistência em um projeto familiar pode dificultar
Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Foto: Eduardo Knapp/Folhapress/rep. publ.Intercept A divulgação dos áudios de Flávio Bolsonaro pelo Intercept desorganiza a direita e a ultradireita para as eleições de 2026. Não há certeza sobre uma eventual desistência do candidato do PL do Rio de Janeiro, ou a garantia da sua derrota, mas sem dúvida a demonstração dos seus vínculos com Daniel Vorcaro do Banco Master abre possibilidades antes improváveis, assim como dá esperanças a outros nomes.
Os atuais pré-candidatos formam um grupo heterogêneo, com trajetórias e linguagens políticas distintas. Compreender essa diversidade é fundamental não apenas para entender como chegamos até aqui, mas também para traçar cenários futuros possíveis.
A escolha da candidatura de Flávio Bolsonaro foi um processo tortuoso, cheio de idas e vindas, em boa medida porque a principal liderança do campo, Jair Bolsonaro, está inelegível. Sem a possibilidade de ter seu nome nas urnas, boa parte das elites políticas e econômicas sinalizaram forte preferência por Tarcísio de Freitas, do Republicanos. Apesar do cargo que ocupa e do prestígio em círculos influentes e na imprensa, o atual governador de São Paulo sempre se mostrou completamente submisso aos desígnios do ex-presidente.
As demonstrações de fidelidade irrestrita foram muitas e frequentes, indo de ataques ao Supremo Tribunal Federal a elogios públicos constantes a Bolsonaro, passando pela replicação de grande parte da agenda bolsonarista, como nos temas da segurança e da saúde pública. Representado como moderado ou quadro “técnico” por boa parte da mídia, o governador de São Paulo é uma das lideranças nacionais mais alinhadas ao bolsonarismo.
As juras públicas de amor não comoveram, contudo, o ex-presidente, que se manteve fiel ao seu projeto familiar de poder e lançou como candidato seu filho, Flávio Bolsonaro. Mesmo ante todos os acenos, Tarcísio não pareceu bolsonarista o suficiente, o que parece só poder ser garantido por laços de sangue.
A família Bolsonaro foi muito bem-sucedida no processo de transferência das intenções de voto do pai para o filho, o que esvaziou, até agora, as alternativas costuradas por outros políticos do campo da direita e ultradireita. Com o bom desempenho de Flávio nas pesquisas, Tarcísio de Freitas se retraiu e as alternativas pareciam fadadas ao papel de coadjuvantes do embate entre Lula e Flávio.
Até que surgiram os áudios de Flávio Bolsonaro, em íntimas e comprometedoras conversas com Daniel Vorcaro. A clareza dos vínculos estreitos com o banqueiro, acusado de inúmeros crimes, surge agora na voz do filho do ex-presidente, entre servil e amistoso ao pedir milhões para Vorcaro pelo WhatsApp. Os Bolsonaro já demonstraram resiliência ao lidar com casos do tipo, mas dessa vez há uma prova não somente incontestável, mas facilmente replicável nas mídias, das redes sociais aos programas eleitorais.
A resiliência de Jair Bolsonaro e o controle da extrema direita
Ante esse cenário, ganham força os burburinhos sobre possíveis candidaturas alternativas do bolsonarismo para a presidência da República. Com Tarcísio fora da disputa, por ter passado o prazo de desincompatibilização, a bola da vez é Michelle Bolsonaro. Popular entre os evangélicos e capaz de avançar no voto feminino, a esposa de Bolsonaro parece um nome mais forte que Flávio. Contudo, lhe falta, ao menos pelos indícios dos últimos meses, maior articulação entre as elites políticas, com forte resistência até mesmo entre seus enteados, filhos do ex-presidente. É difícil imaginar voos mais longos com tais pés-de-barro.
‘Seria um Bolsonaro 2.0, com o imaginário militar sendo substituído pelo colete da XP do empreendedor’.
Caiado e Zema precisariam construir campanhas competitivas ao longo dos próximos meses, avançando rapidamente sobre a base bolsonarista. Não é uma tarefa fácil, mas se torna ainda mais difícil com os sinais de que o ex-presidente prefere perder com os seus, e manter a liderança do campo da ultradireita, do que ganhar com um aliado. Nem mesmo a subserviência de Tarcísio foi capaz de demovê-lo desse caminho. Se já é difícil a construção de uma candidatura competitiva à presidência em qualquer cenário, neste o caminho parece particularmente duro.
Algo semelhante ocorre com Renan Santos, do Partido Missão, fundado pelo Movimento Brasil Livre, o MBL. Ele aposta em um discurso ainda mais radical e uma imagem jovem, com manifestações contrárias a “tudo o que está aí”. Seria um Bolsonaro 2.0, com o imaginário militar sendo substituído pelo colete da XP do empreendedor.
A trajetória de rápida ascensão de Jair Bolsonaro ilude a muitos, mas, ao lado dos bons cálculos políticos do ex-presidente, ele se beneficiou de processos amplos, que vão da destruição de boa parte do sistema político pela Lava Jato, que desorganizaram profundamente a direita tradicional, a profundas modificações na dinâmica da eleição a partir do uso das redes sociais. Isso sem falar no evento extraordinário e pouco usual da facada e nos movimentos globais de ascensão da ultradireita, que lhe garantiram vasto repertório e apoio internacional.
Há muito ainda a se percorrer até a eleição, mas a direita parece não poder ganhar sem um movimento forte de Bolsonaro, que teria que jogar o filho ao mar, ou conseguir recuperá-lo após esse duríssimo baque. Preso e sem poder fazer campanha, é improvável que ele renuncie à liderança do campo, mesmo que seja para ganhar a eleição.
O melhor dos cenários para uma coalizão de direita é uma rápida resposta das intenções de voto, ou com o derretimento súbito de Flávio, que aumentaria em um muito a pressão de Bolsonaro para abandonar a candidatura do filho, ou com uma demonstração de que, mesmo com tudo o que foi divulgado, ainda há uma maioria de brasileiros disposta a apoiá-lo.



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