FLORESTAN FERNANDES JR
O caso Master e a hora da verdade para André Mendonça
Qual será a postura do ministro “terrivelmente evangélico” ao ter de decidir, em seu julgamento, o futuro político e jurídico da família Bolsonaro?
O ministro relator do caso Master, André Mendonça, deve estar vivendo um grande dilema: o que fazer diante do volume de provas que envolvem Jair Bolsonaro e dois de seus filhos no suposto recebimento de milhões de reais de Daniel Vorcaro?
Qual será a postura do ministro “terrivelmente evangélico” ao ter de decidir, em seu julgamento, o futuro político e jurídico da família Bolsonaro? Seguirá à risca o que determinam a Constituição e sua consciência, ou se renderá à dívida de gratidão com o ex-presidente que o indicou ao STF?
Até aqui, André Mendonça tem adotado uma postura bem mais célere na condução da relatoria do caso apontado como a maior fraude financeira da história do país do que seu antecessor, Dias Toffoli. Foi ele quem autorizou, por exemplo, a operação de busca e apreensão na residência do senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil e homem de confiança de Jair Bolsonaro, considerado um dos principais elos entre o núcleo duro do governo bolsonarista e o Banco Master.
Ontem, outro fio desencapado lançou faíscas que podem incendiar de vez o clã Bolsonaro: a revelação de áudios e trocas de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O conteúdo escancara a relação de proximidade e amizade entre o filho “01” do ex-presidente e o banqueiro.
O senador, que inicialmente desmentiu de forma categórica a reportagem revelada pelo The Intercept Brasil, acabou se rendendo às evidências e tentou justificar o pedido de liberação de alguns milhões de reais, afirmando que os recursos seriam destinados ao pagamento de despesas da produção de um filme, que conta a trajetória de vida de seu pai.
Dinheiro para um filme ou para a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro? Essa é uma das hipóteses levantadas pela investigação conduzida pela Polícia Federal. A suspeita ganha força diante de um detalhe: o Banco Master não apareceria sequer nos créditos da produção cinematográfica, o que fragiliza ainda mais a versão apresentada pelo senador.
A questão agora é saber quais serão os próximos passos do ministro André Mendonça no andamento das investigações. Diante da gravidade das suspeitas, autorizaria medidas cautelares mais duras, como o uso de tornozeleira eletrônica pelo senador? E, ao final do processo, caso as denúncias da Polícia Federal e da PGR fiquem comprovadas, ele teria a firmeza necessária para condenar em seu voto, não apenas os filhos de Jair Bolsonaro, mas também o próprio ex-presidente?
Mais do que o destino de um grupo político, o julgamento do caso Master poderá se transformar em um teste histórico para a independência do Supremo Tribunal Federal. A decisão de Mendonça será observada não apenas pelos aliados e adversários de Bolsonaro, mas por todo o país, que espera da Corte a firmeza necessária para demonstrar que ninguém, independentemente do cargo ou da influência que possua, está acima da lei.
Esse pode ser o momento decisivo da trajetória de André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Terá ele a mesma firmeza demonstrada por Alexandre de Moraes ao conduzir e condenar os envolvidos na trama golpista de de 8 de janeiro de 2023? Ou acabará absolvendo antigos colegas do governo que integrou e que hoje aparecem envolvidos no que já é apontado como a maior fraude financeira da história do país?



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