ALEX SOLNIK
“Golden Tulip” foi o laboratório do golpe de Master
Os Vorcaro, pai e filho, sucumbiram à síndrome de Trump
Corria o ano de 2011. O Brasil não cabia em si de orgulho. Seria anfitrião da próxima Copa do Mundo. Vorcaro pai e Vorcaro filho estavam mais empolgados que a maioria dos brasileiros.
Escolheram o melhor ponto. Um nome imponente. Associaram o Grupo Multipar, do qual Henrique Moura Vorcaro era o dono, e Daniel Bueno Vorcaro, o CEO, às incorporadoras RFM e Pacific Realty. Contrataram a construtora M. Roscoe. O operador Brazil Hospitality Group. Para garoto-propaganda escalaram Roberto Justus, o astro de “O Aprendiz”.
E então anunciaram ao mundo, com todo o estardalhaço, que, dali a três anos, nasceria no coração de Belo Horizonte um arranha-céu de 37 andares, 410 quartos, quatro suítes presidenciais e uma suíte real! Vai que teriam de hospedar quatro presidentes e um rei de uma só vez! Ou alguns ricaços que almejavam ser presidentes ou príncipes por um dia.
E lançaram a pedra fundamental do majestoso Golden Tulip! O maior e melhor hotel da cidade!
Chegou 2014 e, em vez de as obras serem concluídas, elas pararam. Passaram 2015, 2016, 2017, 2018. E nada. Só em 2019, sem estardalhaço algum, os fatos vieram à tona.
Os operadores financeiros Christian Rego, Felipe Fonseca e Bruno Moraes, encarregados de levantar os R$ 200 milhões do projeto, caíram nas mãos da polícia. E, para se safar, optaram pela delação premiada.
Contaram, então, que, com a ajuda de outros operadores financeiros, da Odebrecht, do doleiro Fayed Trabulsi e do governador Anthony Garotinho, captaram, mediante propinas a gestores desses fundos, R$ 100 milhões em fundos de previdência estatais (Electra, Serpros e Refer) e municipais (Manausprev, de Manaus; Ipamb, de Belém; Igprev, de Tocantins; Macapáprev, de Macapá; Faps São Sebastião, de São Sebastião; Naviraíprev, de Naviraí; e o fundo de previdência de Campos dos Goytacazes).
Segundo eles, quem se recusava a colaborar era chantageado pelos Vorcaro, que ameaçavam expor os pagamentos de propinas e o uso de empresas de fachada se os fundos não fossem liberados.
Consta da delação o seguinte trecho:
“Os conflitos de interesse do incorporador, ciente dos pagamentos irregulares por empresas de fachada, pressionaram e chantagearam os colaboradores para que liberassem os recursos — esses com finalidades estranhas ao objeto específico da incorporação. Com aperto de caixa, o incorporador determinava que, se não tivesse liberação de determinado valor, não seguiria a obra no prazo determinado ou falaria das liberações de propinas pagas, neste caso, para os distribuidores através da apresentação de empresas de fachada, realizados pelos fundos de pensão”.
Além da confissão, eles entregaram às autoridades policiais documentos que comprovaram a estrutura financeira do esquema e o desvio dos recursos via emissão de notas fiscais falsas para empresas de fachada, simulando serviços e contratos inexistentes. Explicaram que o Golden Tulip não foi concluído porque, devido aos desvios, os recursos tornaram-se insuficientes.
A defesa dos Vorcaro rebateu. Alegou que 95% da obra foi entregue. E pai e filho não têm nada a ver com o peixe. Mas, até hoje, o arranha-céu está às moscas. Embora, visto por fora, pareça apto a ser ocupado. A prefeitura de Belo Horizonte não deu o alvará por não haver sistemas de combate a incêndios, elevadores certificados, acessos adequados e vistoria final. E cobra débitos municipais.
Há uma investigação em andamento, mas Vorcaro pai e Vorcaro filho ainda não foram incomodados, nem se preocuparam em pagar o que devem ou concluir o que começaram.
Acometidos pela síndrome de Trump, ao que tudo indica o Golden Tulip foi o laboratório para o golpe de mestre.
Ou o golpe de Master.



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