Governo Lula vê ação dos Estados Unidos e ultradireita latina para abalar eleição no Brasil

Prioridade da diplomacia em 2026 passou a ser a defesa da democracia e impedir a ingerência externa em assuntos domésticos

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Governo Lula vê ação dos Estados Unidos e ultradireita latina para abalar eleição no Brasil rep. publ. internet/Trump e Lula

Por Jamil Chade, jornalista e correspondente internacional

A extrema-direita latino-americana e o governo de Donald Trump iniciam uma ofensiva contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, no que está sendo interpretado como um ensaio geral para uma ingerência nas eleições brasileiras do final do ano.

Nos últimos dias, atos nos EUA, Argentina e Chile acenderam o alerta no Palácio do Planalto e no Itamaraty sobre a articulação que estaria sendo desenhada para abalar o processo eleitoral no país. A subida de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de opinião ainda foram consideradas por esses movimentos ultraconservadores como uma confirmação de que, apesar da condenação de Jair Bolsonaro, a candidatura de seu filho era “viável”.

Apostar pelo senador do PL não seria mais um risco completo para políticos estrangeiros, enquanto nos EUA diferentes interlocutores do governo Trump realizaram consultas extra-oficiais para calcular a força política de Flávio Bolsonaro.

A decisão foi por acionar a rede paralela da diplomacia da extrema direita — com Think Tanks, grupos ultraconservadores e parlamentares — para apoiar o filho de Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro Fonte: Agência Senado
Flávio Bolsonaro – Foto: Agência Senado
Proximidade com o clã Bolsonaro

Um dos principais sinais do resultado dessa costura foi o pedido do novo representante de Donald Trump para o Brasil, Darren Beattie, para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão. Depois de uma autorização inicial, o pedido foi rejeitado pelo ministro Alexandre de Moraes. O STF atendeu ao argumento do Itamaraty de que considerava a visita como uma intromissão em assuntos domésticos.

A Casa Branca ainda não tem embaixador em Brasília, mais de um ano depois de Trump assumir o poder. Ao designar apenas um representante, com sede em Washington, o republicano não tem a obrigação de passar pelos trâmites diplomáticos de praxe, como a autorização da nomeação por parte do governo Lula. Tampouco existe a necessidade de que a interlocução privilegie os canais oficiais.

Beattie, porém, é próximo ao clã Bolsonaro e, antes de assumir o novo cargo, usou as redes sociais para atacar as instituições no Brasil.

Agora, causou mal-estar ainda o fato de que o enviado de Trump tenha se apressado em pedir reuniões com o bolsonarismo, antes de fazer qualquer contato oficial com o Palácio do Planalto ou com o Itamaraty.

Dentro do governo Lula, a percepção era de que o tema de Jair Bolsonaro havia sido “superado” na relação entre os dois governos.

Trump chegou a retirar as sanções que tinha colocado sobre autoridades brasileiras, sob o argumento de que teriam promovido uma caça às bruxas contra o bolsonarismo. Parte das tarifas impostas sobre o Brasil também foram anuladas.

Mas uma outra ala do governo Lula sempre alertou que o respiro na tensão poderia ser apenas estratégico. Para sua demonstração de força e de violação da soberania da Venezuela, a Casa Branca precisava anular a oposição do Brasil.

Na busca por uma relação positiva com Washington, Brasília também usou cautela para comentar a profunda crise em Cuba, com ministros orientados sequer a falar abertamente sobre a ajuda que o Brasil organiza para mandar para a ilha sufocada pelas sanções de Trump.

Outra sinalização considerada como preocupante foi a decisão técnica do governo Trump de concluir que, de fato, o PCC e CV deveriam ser considerados como grupos terroristas. Diversos órgãos do governo federal alertaram que o Brasil era contrário a essa decisão, já que daria a legitimidade legal para que os EUA façam qualquer tipo de intervenção financeira, comercial e até armada contra as bases e operações dos grupos criminosos, inclusive em território brasileiro.

O governo Lula se apressou para tentar desmontar o projeto. Mas, em reuniões entre os dois países, autoridades brasileiras ouviram de seus interlocutores americanos de que essa era uma decisão interna e que não precisaria ser consultada com o Brasil.

O gesto causou um curto-circuito na relação bilateral e dúvidas do lado brasileiro se existe, de fato, uma vontade legítima por parte de Trump para promover uma relação civilizada com o Brasil.

Ainda em 2025, Lula queria evitar que o tema do crime organizado fosse sequestrado pelo bolsonarismo. A estratégia foi a de propor uma ação coordenada entre Brasil e EUA para lutar, de forma conjunta, contra o narcotráfico. Mas o projeto patinou, principalmente com a ausência de uma data ainda para o encontro prometido entre Lula e Trump na Casa Branca.
Asilo na Argentina e convite no Chile

A ingerência não se limita aos atos do governo Trump. Na Argentina, pela primeira vez, as autoridades anunciaram que deram “asilo” para um dos foragidos da tentativa de golpe de estado, em 8 de Janeiro de 2023.

O gesto concedido ao brasileiro Joel Borges Correia, condenado a 13 anos de prisão, foi interpretado como mais uma ingerência em assuntos domésticos do Brasil e um ataque contra a tentativa da Justiça brasileira de dar uma resposta à tentativa de ruptura democrática.

Ao dar o status de refugiado, a Argentina sinalizou que considera que existe o risco de que o brasileiro seja perseguido de forma injusta no país por parte dos tribunais. A tese faz parte da narrativa bolsonarista para tentar anular as condenações por tentativa de golpe de estado.

No Chile, nesta semana, Flávio Bolsonaro agradeceu o presidente Javier Milei pelo gesto, confirmando para muitos observadores do governo Lula o caráter eleitoral da decisão de concessão de asilo.
José Antonio Kast
O novo presidente do Chile, ultradireitista, José Antonio Kast, no Congresso Nacional em Valparaíso – Foto: RODRIGO ARANGUA/AFP

Foi ainda em Santiago que a posse de Jose António Kast, novo presidente chileno de extrema direita, causou preocupação e indicou que a ingerência na eleição brasileira seria orquestrada.

Lula estava programado para ir ao ato. Mas a decisão de Kast de convidar tanto Flávio como Eduardo Bolsonaro obrigou o Palácio do Planalto a rever a presença do presidente brasileiro.

Lula foi alertado que poderia ser relegado a uma posição secundária diante da presença em peso da extrema direita latino-americana e do protagonismo que esse grupo poderia dar para seu opositor. Ao longo dos últimos meses, Flávio e Eduardo costuraram uma aproximação estratégica com vários desses líderes e, em Santiago, o senador fez questão de sair em fotos com alguns dos principais nomes da extrema direita da região.

Lula havia apostado numa aproximação com Kast, inclusive como forma de anular as ações de Trump na região. Mas decidiu que a viagem para o Chile poderia representar um risco e revelar um presidente isolado numa região onde o Brasil supostamente lidera.

A costura também ocorreu com a extrema direita europeia que, nesta semana, enviou representantes para a posse de Kast, inclusive de movimentos herdeiros do franquismo na Espanha e aliados próximos de Viktor Orban, na Hungria. Nas redes sociais, alguns deles chegaram a se referir a Flávio como “futuro presidente”.
Prioridade da diplomacia: proteger processo eleitoral

A ofensiva por parte da extrema direita latino-americana e por Trump confirmou, dentro do governo Lula, a necessidade de que, em 2026, a maior prioridade da diplomacia brasileira seja a preservação da integridade do processo eleitoral do país.

Como instrução, os formuladores da política externa do país receberam a incumbência para agir para impedir que uma ingerência externa ocorra no Brasil na votação.




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