Exclusivo: planilha de filmagem expõe rombo entre “Dark Horse” e R$ 61 milhões de Vorcaro

A produção também contava com a participação de Lynn Collins, uma estrela B de Hollywood

DCM
Exclusivo: planilha de filmagem expõe rombo entre “Dark Horse” e R$ 61 milhões de Vorcaro Cena de filmagem de “Dark Horse” obtida pelo DCM

O que acontece quando um documento técnico de rotina colide com uma suspeita de lavagem de dinheiro de proporções nacionais?

O Call Sheet do “Dia 2 de 36” da produção “Dark Horse”, obtido com exclusividade pelo DCM, oferece mais do que apenas horários de maquiagem e listas de almoço; ele fornece a prova material de uma discrepância financeira que desafia a lógica do entretenimento e entra no terreno do crime financeiro. (veja no pé deste artigo)

Um Call Sheet é um documento essencial em qualquer produção cinematográfica, funcionando como um cronograma detalhado para cada dia de filmagem. Ele informa a equipe sobre os horários de chamada, locais de gravação, cenas a serem filmadas, elenco presente, figurino, maquiagem e outras informações logísticas cruciais para o bom andamento do set.

No caso de “Dark Horse”, o documento em questão, referente ao segundo dia de um total de 36 de filmagem, já aponta para uma estrutura que, embora profissional, não condiz com o montante supostamente investido. A data é 21 de outubro de 2025.
A anatomia de um set e o elenco “estelar”

O Call Sheet detalha a operação do segundo dia de filmagem. À primeira vista, a estrutura é impressionante: três unidades de câmera (A, B e C), uma equipe de 130 pessoas e a presença de um elenco relativamente numeroso. Entre os nomes que dão vida aos personagens estavam Esai Morales no papel de Paulo Pontes, Sergio Barreto interpretando Carlos Bolsonaro, Camille Guaty como Michelle Bolsonaro, Edward Finlay como Eduardo Bolsonaro e Marcus Ornellas na pele de Flávio Bolsonaro.

A produção também contava com a participação de Lynn Collins, uma estrela B de Hollywood conhecida por papéis em filmes como “X-Men Origens: Wolverine”, que interpreta Lara Clarke.

No entanto, para analistas de orçamento cinematográfico, os números não batem. Com um investimento confirmado de R$ 61 milhões apenas por parte do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e um cronograma de apenas 36 dias, o filme gasta aproximadamente R$ 1,69 milhão por dia.

“Um set com 130 pessoas e três câmeras é caro, mas não custa R$ 1,7 milhão por dia. Nem se estivessem filmando em Hollywood com sindicatos americanos”, afirma um consultor financeiro da indústria. “Onde está indo o restante desse dinheiro?”

(No último dia 21, o DCM publicou fotos exclusivas das cenas da facada. A precariedade é notável).

Um cineasta consagrado, em declaração ao DCM, reforça a estranheza dos números: “Isso é tamanho de equipe de um curta. Não tem nem cabeleireiro ou figurinista”.

“Analisando esse número de 36 diárias, me parece que eles estão trabalhando em semana de 6 por 1. Atualmente só a Globo no audiovisual faz 6 por 1. O resto é tudo 5 por 2, já faz tempo. Já tem uns anos que se trabalha em 5 por 2 no cinema. Isso aí são seis semanas de filmagem. No Brasil é um cronograma de uma comédia do Leandro Hassum. Mas não é uma produção de Hollywood, com 16 semanas, 20 semanas, até 24. É um cronograma. A quantidade de diárias e de semanas é que define uma superprodução. Quando você precisa cortar custo num orçamento, você corta a diária. Não adianta tirar o Steadicam, por exemplo”, continua.

“O tempo custa caro. Impressiona que não tenha muitas semanas de filmagem para um orçamento desse tamanho. Eles não estão usando o dinheiro alegado. Sem contar que, quando se diz que um filme como ‘Ainda Estou Aqui’, por exemplo, custou 40 milhões, isso inclui processo todo: a distribuição, o P&A (Prints & Advertising, ou seja, cópias e publicidade), que é caro demais, às vezes superando o orçamento do filme. E isso que o Flávio estava pedindo lá era dinheiro para pagar a conta atrasada. Essa conta é completamente fora da realidade”.

O Call Sheet não apenas lista o elenco e a equipe, mas também especifica os horários de chegada de cada departamento, a ordem das cenas a serem filmadas, os equipamentos necessários e até mesmo as refeições.

No “Dia 2 de 36”, o documento detalha os call times para os atores, as cenas específicas a serem gravadas no Hospital Indianópolis, a configuração das três unidades de câmera (A, B e C), e a presença de personagens como Lara Clarke (Lynn Collins), Carlos Bolsonaro (Sergio Barreto), Eduardo Bolsonaro (Edward Finlay), Flávio Bolsonaro (Marcus Ornellas), Hugo Betão (Tank Jones), Luis Alcantera (Stelio Savante), Tato (Jeffrey Vincent Parise), Jorge (Marcio Rosario), Police Sergeant (Taiguara Nazareth).

A precisão técnica do documento contrasta com a irracionalidade financeira do projeto, sugerindo uma fachada bem elaborada para uma operação de outra natureza.

No mundo real do cinema, um investidor busca lucro. Para que Daniel Vorcaro recuperasse seus R$ 61 milhões de forma legítima, “Dark Horse” precisaria realizar um milagre econômico. A conta é simples:

    Investimento Direto: R$ 61.000.000
    Custo de Marketing (P&A): Estimado em R$ 20.000.000 para uma campanha nacional agressiva.
    Custo Total de Exposição: R$ 81.000.000

Considerando que os cinemas ficam com 50% da bilheteria e os distribuidores com cerca de 15% do restante, o filme precisaria arrecadar R$ 227,5 milhões apenas para que Vorcaro recebesse seu dinheiro de volta, sem lucro. A seguir, alguns exemplos:
*Nota: Números de ‘Nada a Perder’ são frequentemente questionados por denúncias de compra de ingressos por igrejas do Bispo Edir Macedo

Para atingir essa meta, “Dark Horse” teria que se tornar a maior bilheteria da história do cinema brasileiro, superando comédias populares e blockbusters de ação de séries como “Os Vingadores”. A irracionalidade econômica do investimento é o maior indício de que o objetivo nunca foi a bilheteria.

As investigações apontam que o financiamento foi intermediado pela Entre Investimentos, empresa ligada a esquemas de repasses financeiros sob suspeita. Mensagens interceptadas, reveladas por veículos como o Intercept Brasil, mostram o senador Flávio Bolsonaro negociando diretamente com Vorcaro.

O Call Sheet revela que a produção não é amadora — ela é técnica, organizada e utiliza profissionais. No entanto, essa “excelência técnica” e “padrão de Hollywood”, como diz Mário Frias, serve como fachada. Ao montar um set real, com atores reais e câmeras que não são nem de última geração, cria-se a ilusão de uma atividade econômica legítima que justifica a movimentação de dezenas de milhões de reais.

O “Dia 2 de 36” no Hospital Indianópolis pode ter sido um dia produtivo para o diretor Cyrus Nowrasteh. Quando o custo de produção é inflado artificialmente e o retorno comercial é matematicamente impossível, o filme deixa de ser uma obra de propaganda ou entretenimento para se tornar um veículo de lavagem de dinheiro. Vorcaro nunca quis o retorno do investimento porque não era parte do acordo.




Ouça o áudio da Matéria





COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.