Derrotados na Câmara, empresários usam Senado como trincheira contra PEC
Representantes de diversos setores querem adiar debate sobre o fim da escala 6×1 para depois o período eleitoral
rep. publ. internet Na tentativa de barrar avanços históricos nos direitos trabalhistas, representantes da cúpula empresarial intensificaram a pressão política no Senado Federal. Diante do avanço na Câmara dos Deputados da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal para 40 horas sem redução de salário, uma comitiva de aproximadamente 30 lideranças patronais se reuniu em Brasília para tentar frear o ritmo de tramitação da matéria.
O encontro com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), escancara a estratégia explícita de chantagem institucional do grande empresariado nacional. A ofensiva foi encabeçada pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, e pelo dirigente da CNI, Ricardo Alban, com a pronta articulação de senadores da oposição de extrema direita, como o líder do bloco, Rogério Marinho, e a deputada Tereza Cristina.
A principal exigência do grupo é paralisar a deliberação e empurrá-la para depois das eleições de 2026. Os industriais tentam usar o calendário eleitoral como pretexto técnico, com o evidente objetivo de esvaziar a mobilização popular que impulsiona o projeto.
Entre as manobras sugeridas à presidência da Casa, constam a indicação de um relator com mandato longo que não dispute o pleito deste ano e o alargamento do período de transição — que na Câmara foi fixado progressivamente em 14 meses — para prazos indefinidos, além de condicionar as folgas a negociações coletivas setoriais que fragilizam o trabalhador frente ao patrão.
Terrorismo
O alarmismo corporativo e as declarações públicas das entidades patronais expõem o desespero de um setor acostumado à precarização laboral crônica. Skaf classificou o rito da Câmara como “açodada” e defendeu a criação de uma equipe técnica para medir custos em duas mil atividades econômicas, alegando cinicamente que nenhuma empresa teria capacidade de elevar a produtividade ou realizar contratações no curto prazo.
Já Alban argumentou que o texto adota um modelo “adverso aos interesses gerais” e que a rigidez constitucional para escalas não encontra paralelo internacional. O coro retrógrado foi reforçado por Rogério Marinho, que contrariou os dados macroeconômicos ao profetizar riscos de inflação, desemprego e repasse de custos aos consumidores. Em todo o encontro, nenhuma liderança empresarial externou qualquer preocupação com as rotinas exaustivas e adoecedoras que a escala de seis dias de trabalho por um de descanso impõe aos trabalhadores.
A ganância e o terrorismo econômico do lobby patronal, contudo, colidem de frente com a realidade científica internacional e nacional. No plano global, as extensas pesquisas coordenadas pela organização 4 Day Week Global desmentem as teses empresariais ao comprovar que a redução da jornada, sem cortes de salários, eleva os níveis de produtividade e aumenta o faturamento das empresas em média 35%.
No Brasil, as notas técnicas do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp atestam que o país detém plenas condições de absorver a mudança. Segundo economistas do instituto, a escala 6×1 amarra a economia nacional a um modelo arcaico de extração de mais-valia absoluta, no qual os expressivos ganhos de produtividade gerados pela automação e tecnologia nas últimas décadas foram apropriados unicamente pela elite empresarial, sem contrapartida de tempo livre para a classe trabalhadora.
Além disso, a postura do empresariado ignora uma grave crise de saúde pública. Dados oficiais do Ministério do Trabalho e Emprego associam rotinas sem descanso adequado a cerca de 500 mil afastamentos anuais no país por doenças psicossociais, como a síndrome de burnout, ansiedade e depressão. Ao insistir na manutenção de uma jornada degradante, o patronato transfere as despesas da exaustão humana para os cofres públicos do SUS e da Previdência Social.
A investida do empresariado no Senado acontece em paralelo à vitória conquistada pela classe trabalhadora na Câmara dos Deputados, na tarde desta quarta-feira. A Comissão Especial aprovou o parecer do relator Leo Prates por ampla maioria, consolidando a transição progressiva para a jornada de 40 horas e o fim do modelo de seis dias de labor por um de descanso.
O avanço impõe uma derrota ao alarmismo patronal e empurra o debate para o plenário da Câmara, enquanto a resistência das bancadas progressistas e a mobilização unificada dos trabalhadores prometem fechar o cerco contra as manobras e o boicote empresarial no Senado.



COMENTÁRIOS