Trump usa dados de desmatamento do ex-governo Bolsonaro para justificar tarifaço
Relatório do governo dos EUA ignora queda de 50% no desmatamento da Amazônia sob Lula e ancora a proposta de sanções comerciais em indicadores de 2021, auge da devastação bolsonarista
rep. publ. internet/Ricardo Sales e Bolsonaro O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, utilizando o desmatamento ilegal como argumento central, em relatório divulgado nesta semana. No entanto, o documento ancora suas conclusões em dados de 2021, pico da destruição ambiental durante o governo Jair Bolsonaro (PL), e ignora a queda de 50% no desmatamento da Amazônia registrada pelo Inpe entre 2022 e 2025.
A proposta foi divulgada no mesmo dia em que Donald Trump publicou elogios a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Truth Social, levantando questionamentos sobre a real motivação da medida. Para o governo brasileiro, os dados técnicos apresentados ao USTR foram deliberadamente desconsiderados no documento final.
O tarifaço e a justificativa ambiental
O governo Donald Trump propôs uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, com o desmatamento ilegal como pilar da investigação conduzida pelo USTR. O relatório, que servirá de base para uma possível rodada de sanções comerciais, mira especialmente produtos agrícolas e madeireiros, alegando que a produção em áreas ilegalmente desmatadas gera distorções nos preços globais e confere ao Brasil uma vantagem competitiva considerada desleal pelos americanos.
A palavra “desmatamento” aparece 40 vezes no documento, o dobro das menções ao Pix, outro alvo de críticas americanas ao Brasil. A escolha de ênfase não é acidental: o argumento ambiental é apresentado como o eixo estruturante da investigação, sobrepondo-se a outras disputas comerciais em pauta. Segundo o relatório, produzir em pastagens degradadas e previamente desmatadas seria mais barato do que em áreas regulares, o que permitiria ao agronegócio brasileiro chegar ao mercado internacional com preços artificialmente reduzidos.
Para sustentar a tese, o USTR cita um estudo concluído em 2021 que estimou que o Brasil perdeu 18 milhões de hectares de floresta por conversão agrícola entre 2013 e 2019, dos quais 95% seriam ilegais. O documento afirma ainda que o Brasil exportou US$ 19 bilhões em commodities de risco florestal em 2019 e estima que o desmatamento ilegal encarece a madeira legalizada em até 16%, prejudicando produtores americanos do setor.
Dados defasados vs. realidade atual
O ponto mais frágil do relatório americano é justamente o que deveria ser sua base técnica: os dados que utiliza. O documento destaca o pico de desmatamento registrado em 2021, quando cerca de 13 mil quilômetros quadrados da Amazônia foram destruídos, o maior nível em 15 anos, período que corresponde ao auge da política ambiental bolsonarista, marcada pelo esvaziamento do Ibama e por recordes consecutivos de devastação.
Um ano antes, durante reunião ministerial e em plena pandemia, o então ministro de do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo), falou a frase que marcaria a gestão Bolsonaro no tema ambiental, pregando a desregulamentação desenfreada da legislação de proteção à natureza.
“Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação”, afirmou.
O que o relatório dos EUA omite é o que aconteceu depois. Segundo o sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento caiu 50% na Amazônia e 32% no Cerrado entre 2022 e 2025. O último resultado na Amazônia representou a quarta queda anual consecutiva, o menor nível em 11 anos e o terceiro menor desde o início do monitoramento, em 1995. O levantamento do MapBiomas, divulgado recentemente, confirmou que o desmatamento em todos os biomas brasileiros atingiu em 2025 o menor nível desde o início da série histórica da rede, em 2019. Pela primeira vez, a área total desmatada ficou abaixo de um milhão de hectares em um único ano.
O governo brasileiro apresentou dados de multas e apreensões ao USTR antes da publicação do relatório, mas essas informações foram desconsideradas no documento final. O próprio texto americano admite, em trecho, que houve redução recente nos índices de desmatamento, mas contorna o dado com um argumento de risco futuro: as políticas atuais “podem ser desfeitas por administrações futuras”. Em outras palavras, o USTR reconhece a melhora, mas a trata como provisória para manter a justificativa das sanções.
A tese da ‘vantagem desleal’
Além dos números de desmatamento, o relatório americano constrói uma argumentação mais ampla sobre a competitividade do agronegócio brasileiro, apontando falhas nos mecanismos privados de controle ambiental. Um dos alvos é a Moratória da Soja, acordo firmado em 2006 por grandes tradings internacionais para impedir a compra de soja produzida em áreas desmatadas após 2008. O USTR aponta que a saída de empresas relevantes do pacto reduz a eficácia do instrumento e representa um fator de risco para a rastreabilidade da cadeia produtiva.
O documento vai além e cita suspeitas de “lavagem de gado”, prática em que animais criados em áreas desmatadas ilegalmente seriam transferidos para propriedades regularizadas antes da venda aos frigoríficos. O relatório menciona também suspeitas de subornos em processos de licenciamento ambiental. Essas afirmações partem do documento americano e não correspondem a decisões judiciais ou apurações concluídas, sendo necessário registrá-las como alegações do governo dos EUA, não como fatos estabelecidos.
O relatório ainda cita uma legislação do estado de Mato Grosso que retira benefícios de empresas que aderem a acordos ambientais voluntários, apontando a norma como um entrave institucional ao controle do desmatamento. O argumento final é que toda essa cadeia de fragilidades, reais ou alegadas, permite que a produção brasileira em áreas desmatadas pressione os preços globais de commodities de forma desleal, prejudicando concorrentes que operam dentro de padrões ambientais mais rígidos, incluindo produtores americanos de madeira e soja.
A conexão política: Trump e os Bolsonaro
A divulgação do relatório do USTR não ocorreu no vácuo político. No mesmo dia em que o documento foi tornado público, Donald Trump publicou elogios a Flávio Bolsonaro em sua rede social, a Truth Social, registrando que “foi muito bom receber Flávio Bolsonaro no Salão Oval”. O encontro na Casa Branca incluiu também Eduardo Bolsonaro e o articulador Paulo Figueiredo, figuras centrais na rede de articulação da extrema direita brasileira com o governo republicano.
A coincidência temporal entre a proposta de tarifas e a demonstração pública de afeto político levanta uma questão que o próprio relatório não responde: se o argumento é ambiental, por que o governo americano celebra abertamente sua aliança com representantes do grupo político que presidiu o Brasil durante o pico do desmatamento citado no documento? A contradição é estrutural. O USTR usa os piores números ambientais do governo Bolsonaro para punir o Brasil, enquanto Trump recebe e elogia os Bolsonaro na Casa Branca.
Esse paradoxo alimenta a leitura de que o argumento ambiental funciona, no relatório, como cobertura técnica para uma medida de protecionismo comercial com motivações estratégicas mais amplas. A proximidade ideológica entre Trump e a família Bolsonaro não explica sozinha a proposta tarifária, mas torna ainda mais difícil sustentar que a escolha de dados de 2021 como base do relatório foi uma decisão puramente técnica.
Reações e implicações
O governo brasileiro reageu contestando a base técnica do relatório. O ministro João Paulo Capobianco afirmou que os dados apresentados pelo Brasil ao USTR foram ignorados no documento final, reforçando a percepção de que a investigação americana partiu de uma conclusão predeterminada. A crítica aponta para um processo em que a evidência foi selecionada para confirmar a tese, não para avaliá-la.
Críticos da medida destacam uma contradição que vai além do Brasil: a administração Trump promove ativamente a expansão dos combustíveis fósseis nos Estados Unidos e desmontou políticas climáticas internas, mas utiliza a pauta ambiental como argumento central para impor tarifas a um parceiro comercial. Usar o clima como pretexto tarifário enquanto se retira dos acordos de redução de emissões é uma postura que especialistas em comércio internacional têm apontado como incompatível com qualquer compromisso ambiental genuíno.
A seletividade da medida também chama atenção. Itens como café, frutas, carne bovina e aeronaves ficaram fora da lista principal de taxação, o que indica que a escolha dos produtos afetados obedece a critérios que vão além da pegada ambiental. A tensão gerada pela proposta coloca em xeque a relação diplomática entre Brasília e Washington em um momento em que o Brasil busca ampliar sua presença nos mercados globais e avançar em acordos comerciais estratégicos. O impacto real na balança comercial brasileira caso a tarifa de 25% seja efetivamente implementada ainda depende de apuração, mas a sinalização política já produz efeitos sobre o ambiente de negociações.



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